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Breaking Bad: a genialidade do Cinema na Televisão

Breaking Bad: a genialidade do Cinema na Televisão

Matheus Fiore - 6 de dezembro de 2016

Muito se fala da importância de Breaking Bad para a televisão americana, mas há poucos artigos explicando tal questão. Aqui, iremos desenvolver e exemplificar para que você entenda melhor não só porque a série revolucionou a TV mas também porque o público sentiu tanta atração pela obra.

O texto conterá leves spoilers sobre a trama dos personagens Hank e Heisengerg, referentes ao começo da terceira temporada. Além do seriado, haverá também um trecho de Os Bons Companheiros que pode revelar detalhes da trama.

Para entender melhor a explanação, há de se saber primeiro o que é linguagem cinematográfica, que consiste no conjunto de planos, ângulos, movimentos de câmera, enquadramentos e demais aspectos técnicos que constroem a narrativa e, se bem executados, aliados às atuações, conduzem os sentimentos do espectador.

Um bom filme pode construir esses sentimentos de diversas formas, desde a mais óbvia à mais sutil, não sendo uma necessariamente superior à outra, sempre dependendo da qualidade dessa construção. Observe o frame abaixo e, em seguida,  a análise.

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Na cena do neoclássico Os Bons Companheiros (1990), de Martin Scorsese, vemos Henry e Karen Hill desolados no canto do plano. Aqui, é importante não só o posicionamento da câmera, em um eixo superior aos atores, e o posicionamento destes na parte inferior esquerda do quadro (oposto ao ponto de interesse mais usual, no canto superior direito próximo ao centro, onde está o espelho), como também a mistura de cores escuras, que criam um ambiente sujo, contaminado, condizente com a moral do casal. O tom sombrio de isolamento e desesperança é perfeitamente estabelecido, principalmente se comparado à momentos anteriores do filme, onde os  personagens encontravam-se em um momento muito mais tranquilo de suas vidas.

Há ainda, no reflexo do espelho, uma porta vermelha, cor que pode simbolizar sensualidade ou, como no caso, violência. A combinação seria, então, um reflexo (espelho) do caminho de violência (porta vermelha) trilhado por Henry Hill em sua trajetória no mundo da mafia.

Estes elementos, unidos, constroem um plano perfeito e extremamente simbólico. O espectador médio provavelmente não perceberá esses detalhes conscientemente, mas, inconscientemente, parte do conteúdo simbólico é absorvido e não só aproxima o espectador da narrativa como o coloca na pele dos personagens.

Este tipo de linguagem costumava não ser usada na televisão por inúmeros motivos. Além da tela menor, que dificulta o uso de planos abertos por não ter a mesma imponência de uma sala de cinema, quem assiste algo na TV geralmente não está 100% inserido no programa, alternando os olhares entre a tela, o celular, o relógio, e é até interrompido pelos comerciais.

Esta falta de concentração resulta na necessidade de um conteúdo mais simples. Portanto, séries de TV costumam ter tramas mais rasas, desenvolvidas com muitos diálogos e planos fechados nos rostos dos personagens, uma linguagem totalmente diferente da usada na sétima arte.

E onde entra Breaking Bad nisso?

Breaking Bad foi pioneira em quebrar o status quo da indústria televisiva e levar esta linguagem para a telinha. Desde o uso das cores, já na primeira temporada, ao roteiro subjetivo e pouco expositivo, que força o espectador a pensar e não tem medo de deixar quem assiste confuso.

Abaixo, irei analisar uma cena do episódio 4 da 3ª temporada, Green Light. Para contextualizar quem assistiu e não se recorda, ao mesmo tempo que a metanfetamina azul sumiu do mercado, Hank acaba de ser promovido e transferido para El Paso. Apesar de Marie, sua esposa, não gostar da ideia, Hank tenta ver o lado bom e se motivar com a mudança.

Após a curta conversa no carro, Marie desembarca Hank no aeroporto, como vemos no plano abaixo, que abre a cena:

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Após relutar por alguns segundos, pensando se está fazendo a coisa certa, Hank decide entrar no aeroporto.

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No caminho, recebe uma ligação de seu chefe.

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O Xerife fala sobre a volta da metanfetamina azul, que era o centro do caso Heisenberg que Hank havia se dedicado arduamente para concluir, sem sucesso.

Há um longo silêncio enquanto Hank ouve as palavras do Xerife (que o espectador não sabe quais são), enquanto isso, o barulho crescente da turbina de um avião ajuda a criar a tensão da cena.

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Assim que ouve a palavra “azul”, há um corte para um primeiro plano, que coloca o espectador mais próximo de Hank. O personagem começa, em seguida, a gaguejar e concordar com seu chefe. O mais interessante, repare, é o uso da profundidade de campo reduzida.

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Perceba como, diferente do resto da cena, todo o fundo da tela está desfocado. Hank está totalmente recortado do plano e do ambiente. Esta escolha não só joga o foco dramático para a atuação de Dean Norris, como metaforicamente diz que, mentalmente, o policial já não está mais lá. Sua mente já foi arrastada novamente para o caso Heisenberg.

Após longas pausas geradas pela conversa no celular e o crescimento da intensidade graças ao trabalho de som (aqui, impecável e imprescindível), Hank ainda tenta resistir, afirmando que estava para embarcar num avião.

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Apesar da resistência, graças à expressão do personagem e ao recorte com profundidade de campo reduzida, no fundo sabemos que ele não vai embarcar. Em poucos segundos o personagem já emenda sua relutância com comentários sobre o caso.

A cena fecha, curiosamente, com uma belíssima rima visual. Assim como abriu com Hank chegando no aeroporto, deixado por Marie (vide o primeiro plano analisado acima), a conclusão traz Hank, na mesma posição, com o mesmo posicionamento de câmera, mas dessa vez chamando um taxi para ir embora. Recompensando o espectador não só com o trabalho da rima visual, mas por ter indicado o que aconteceria no inconsciente do espectador antes que o roteiro confirmasse isso.

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Curiosamente, essa cena dura menos de um minuto, e mesmo assim traz uma riqueza de detalhes de dar inveja em muitas produções Hollywoodianas. Além dos momentos grandiosos, a série de Vince Gillan traz sempre pequenos trechos, como este, que isoladamente são incríveis, e juntos dão uma enorme profundidade aos personagens e à narrativa.

Esse tipo de recompensa visual para o espectador é usada constantemente em Breaking Bad. Há, por exemplo, um episódio no qual um plano destaca um jogo de facas de cozinha, e pouco tempo depois, este mesmo jogo tem uma enorme importância em uma das mais tensas cenas da série.

Mesmo não possuindo noção de como esses sentimentos e sensações são construídos, o espectador é sensível e vulnerável à estas técnicas, que se usadas corretamente, resultam em uma série com uma narrativa extremamente envolvente e marcante. Por sacadas como esta que Breaking Bad é “O Poderoso Chefão da televisão”.

E, independente de gostar ou não da série, sua influência e importância são fatos facilmente observáveis. Não só no spin-off Better Call Saul (que teve sua excelente 2ª temporada analisada aqui), mas em outras fantásticas e aclamadas séries como House Of Cards (leia nossa crítica da 4ª temporada aqui).

Além dessas, Breaking Bad foi um fenômeno tão grande que influenciou inclusive séries que já estavam em curso e passaram a usar essa linguagem cinematográfica de forma mais ousada, como em The Walking Dead (mesmo que esta não tenha acertado na execução). Isso faz com que roteiristas e atores consagrados de Hollywood como Jonathan Nolan, Anthony Hopkins e Kevin Spacey passem a ver na televisão um ascendente e interessante novo mercado, além de resultar em programas com maior investimento e linguagem mais trabalhada.

Breaking Bad foi um marco por sua linguagem, influência e por ter conseguido conquistar, com suas diversas camadas, desde o espectador mais desatento ao cinéfilo mais treinado. Uma obra-prima que levou, como poucas, a qualidade do Cinema, a sétima arte, à televisão.


Todas as temporadas de Breaking Bad podem ser assistidas online pelo Netflix, assim como o filme usado para exemplificar a linguagem cinematográfica, Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese. A cena aqui dissecada pode ser encontrada no episódio 4 da 3ª temporada, Green Light, aos 16 minutos e 50 segundos.

 

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