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Black Mirror 3×01 – Perdedor

Black Mirror 3×01 – Perdedor

Matheus Fiore - 22 de outubro de 2016

Esse texto contém leves spoilers que não devem prejudicar sua experiência  e não revelam detalhes da trama. Se preferir, assista o episódio inteiro antes de ler nossa analise.

Perdedor (ou no original, Nosedive), traz a história de Lacie (Bryce Dallas Howard), uma jovem que luta por ascensão social num mundo onde, pelos celulares, todos avaliam e são avaliados pelas pessoas ao redor. Lacie, que vive com seu irmão, tem uma avaliação superior a 4.0/5.0, que a coloca entre a “casta” mais respeitada da sociedade.

Ela não está contente, porém. Lacie pretende se mudar para deixar de viver com seu irmão, que ostenta uma “vergonhosa” avaliação de 3.5. Para poder pagar o apartamento,  a protagonista precisa de um desconto disponível apenas para cidadãos avaliados acima de 4.5, sendo necessário alavancar sua imagem em um curto período de tempo.

A alienação de todos no quadro, aliada à fotografia e figurinos completamente desbotados e sem vida constroem o perfeito mundo de papel em que a sociedade se encontra

A trama segue, então, a busca de Lacie pela avaliação 4.5. Como todos os episódios de Black Mirror, Perdedor traz uma dura crítica à sociedade contemporânea. Aqui, o reflexo negro retratado é o da aceitação e exclusão social, que resultam num mundo de aparências totalmente blasé e desbotado.

A estética escolhida para retratar este mundo  é perfeita. A  falta de vida de um mundo “de papelão” é enaltecida principalmente pelo figurino e pelas ambientações. Casas e escritórios em tons pastéis, assim como as roupas dos personagens, que com ajuda da iluminação esbranquiçada, não mostram qualquer traço de rusticidade ou personalidade.

Ironicamente, a única parte vibrante do quadro é onde ainda há um resquício de natureza no mundo de aparências retratado na série. Mas, como dizem os próprios personagens em um momento no episódio, “fuck the nature”.

É curioso notar que quando a fragilidade do mundo de papel  da protagonista é evidenciada e a mesma entra em conflito ou tem suas crenças abaladas, as cores se tornam mais vibrantes e as atuações se tornam mais humanizadas. Enquanto no “mundo falso” as pessoas treinam até suas gargalhadas, quando desligadas dessa falsa realidade, elas conseguem expressar  seus reais sentimentos, como na cena da carona, quando Lacie começa a se exaltar, mudar suas expressões e tem sutil desconexão da persona criada.

Também é eficiente na construção de um mundo sem vida a noção de que a única coisa importante é o status. Nem quando vai ao trabalho Lacie parece demonstrar qualquer preocupação com sua vida profissional. Aliás, nenhum dos personagens tem sua ocupação explicada ou sequer sugerida. Todas as empresas parecem apenas um caminho para incrementar o networking dos personagens.

Curiosamente, os únicos personagens a terem algum traço de suas personalidades e gostos expostos são o irmão da protagonista e a caminhoneira Susan, justamente os únicos que não se importam com as avaliações e vivem alheios ao mundo de aparências.

O uso das garrafas azul e vermelha pode ser visto como uma referência às pílulas de Matrix. Ao beber o café da garrafa azul, a personagem apenas anestesiaria seus problemas e encontraria forças para seguir sua jornada. Ao beber o uísque na vermelha, porém, a personagem encontraria a coragem para dar o passo necessário para sair da pirâmide social doentia em que se encontra. Mas, diferente do filme das irmãs Wachowski, aqui a personagem está tão alienada que sequer percebe a situação de escolha. A “pílula vermelha” é dada de presente por Susan, a Morpheus de Black Mirror.

O grande defeito do episódio, porém, é a falta de sutileza. Se em seus melhores episódios Black Mirror é inteligente por não esfregar suas mensagens na cara do espectador, deixando muitas revelações apenas para os derradeiros momentos do arco, como em The National Anthem, Fifteen Million Merits e White Christmas, neste primeiro capítulo da terceira temporada o significado é escancarado com segundos de projeção.

O objetivo da série sempre foi, além de apontar um reflexo negro da sociedade contemporânea, induzir o espectador à reflexão. Nesse aspecto, Perdedor não faz jus ao legado da série e, por culpa do irregular e simples roteiro, pode levar alguns espectadores a acreditarem que a obra é apenas uma crítica à tecnologia do século XXI, quando na verdade, esta é apenas usada como ferramenta para caricaturar e superexpor problemas sociais e psicológicos.

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