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O Abraço da Serpente

O Abraço da Serpente

Matheus Fiore - 18 de julho de 2016

Inspirado em registros de diários reais, O Abraço da Serpente acompanha o xamã Karamakate (Nilbio Torres e Antonio Bolívar) em dois períodos diferentes. No primeiro, o nativo da floresta amazônica recebe a missão de ajudar o etnologista alemão Theodor (Jan Bijvoet) a encontrar uma planta que, supostamente, possui fortes propriedades medicinais e pode ajuda-lo a curar uma doença. Na segunda, algumas décadas depois, o nativo tenta ajudar o botânico americano Evan (Brionne Davis), inspirado pelos registros de Theodor,  a encontrar esta mesma planta.

Desde os primeiros planos o filme já chama atenção pela fotografia. Ao filmar cenas na floresta amazônica, o mais comum seria aproveitar a beleza visual da natureza, principalmente os fortes verdes da floresta, mas o filme aqui foge do óbvio e presenteia o espectador com uma imagem totalmente  em preto e branco.

A opção pelo P&B  vai muito além da estética e apresenta algumas belas funções narrativas. Para começar, serve para tirar a atenção do espetáculo visual que seria filmar a Amazônia, uma das mais belas florestas do planeta. O ponto principal do filme são os diálogos e aprendizados dos personagens, não a mata. Também é possível imaginar que a opção vise dar vida às fotografias sem cor que são mostradas no fechamento do filme.

Além disso, o preto & branco ajuda a construir uma ambientação de rica fauna e flora, porém sem alma. Inicialmente isto não é nítido, mas, ao vermos a introdução gradual do homem branco na trama, entendemos melhor esta função. Assim como em O Regresso, de Iñárritu, O Abraço da Serpente faz questão de retratar como a interferência do europeu e do norte-americano devastou a cultura nativa na América do Sul.

O desenvolvimento dos personagens é outro grande destaque do filme. No passado, Karamakate é mais impulsivo, desconfiado e descrente, enquanto sua versão mais velha é mais sábia e altruísta. A construção desta figura amadurecida é muito bem feita nas cenas com o etnólogo alemão. Além do xamã, é possível ver as mudanças nas culturas nativas também. Em um dos melhores momentos do filme, podemos ver o quão ruim é a interferência da cultura cristã na indígena, podendo comparar a situação de um vilarejo antes e depois da intervenção.

Apesar de eficiente ao cadenciar e alternar os dois momentos do filme, a montagem encontra dificuldade em tornar o longa dinâmico. Muitos momentos de O Abraço da Serpente são cansativos e tornam os 125 minutos do filme uma longa viagem, principalmente pela ausência de grandes conflitos.

O último ato do filme traz uma recompensa visual incrível. Além das belas paisagens, os enquadramentos ajudam a criar belíssimos planos no fim da busca de Evan e Karamakate pela planta Yakruna, que são muito potencializados pela linda trilha sonora.

Mesmo não desenvolvendo tanto as necessárias críticas ao intervencionismo cultural, que foi responsável pelo fim de inúmeras tradições nativas nos últimos séculos, O Abraço da Serpente é excelente. A narrativa é bem estabelecida e, graças à fotografia e excelentes atuações, possui um clima documental que engrandece a obra. Mais do que necessário, o longa é arrojado, inteligente e é, sem dúvidas, um indispensável filme do cinema sul-americano.

 

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