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O Nascimento de Uma Nação

O Nascimento de Uma Nação

Matheus Fiore - 9 de novembro de 2016

Tendo o mesmo título do longa de D. W. Griffith de 1915, O Nascimento de Uma Nação é totalmente antagônico ao original, já que o antigo filme era uma propaganda cinematográfica da Ku Klux Klan. Possuindo apenas o nome em comum, o novo, escrito, dirigido e protagonizado por Nate Parker, retrata a origem de uma pequena rebelião de escravos que precedeu a Guerra Civil americana.

A história é guiada por Nathaniel Turner (Parker), um jovem escravo que, por ser letrado, acaba recebendo atenção especial de seus “donos”. O menino cresce lendo a bíblia, e, quando adulto, se torna um pregador do evangelho, convidado a visitar outras fazendas para pregar a palavra de Jesus para outros escravos.

O maior acerto da primeira metade do filme é, ao mesmo tempo que desumanizar os escravocratas, dar algum arco narrativo para quase todos os personagens em cena. Assim como no ótimo 12 Anos de Escravidão, a narrativa é competente em mostrar que, naquele tempo, até pessoas boas acabavam sendo coniventes com o sistema escravagista.

A fotografia de Elliot Davis é muito feliz em usar a iluminação e os movimentos  de câmera para evidenciar os problemas básicos de higiene e o desgaste físico e emocional dos personagens. Aliada ao ótimo trabalho de maquiagem e de direção de arte, proporcionam uma estética realista e imersiva no ambiente dos Estados Unidos do meio do século XIX.

Por ser seu primeiro trabalho na direção, Nate Parker entrega uma obra irregular. Por um lado, faz bom uso de elipses para mostrar a vazia e massacrante rotina dos escravos, conseguindo também construir o ódio crescente no âmago dos personagens. Em contrapartida, ao focar mais no protagonista do que na construção da narrativa como um todo, acaba fazendo um filme que funciona mais em construir um inverossímil messias do que em retratar um importante momento histórico.

Todas as atuações estão na medida. com destaque para Armie Hammer, o jovem senhorio que tenta reerguer o legado de sua família, e Aja Naomi King, que faz o interesse romântico do protagonista, Cherry. O primeiro constrói um personagem sério, com alguma bondade embutida, mas que claramente está totalmente alienado pelo sistema escravagista. A segunda consegue um trabalho contido, mas que expressa muita pureza e insegurança com o tom de voz e olhares.

A atuação que deveria conduzir o filme, porém, é decepcionante. Nate Parker não só constrói um protagonista extremamente passivo e robótico, como sua postura messiânica, sempre de fala serena, com olhar fixo, sem nenhuma paixão, desumaniza a figura de Nathaniel e tira todo o impacto dos dramas do personagem e da própria história.

Um ponto muito positivo de O Nascimento de Uma Nação é explorar o ódio dos personagens se manifestando gradualmente, conforme eles entram em contato com mais escravos e mais senhorios, retratando o quão degradante e desumana é a situação dos negros da época. Eles eram, afinal, tratados como objetos, como mercadoria, não seres vivos, como bem mostra a cena da criança com a “coleira”.

O filme tem dois elementos que são bem apresentados, mas pouco explorados. O primeiro é a importância da liberdade individual do ser humano,  que é vislumbrada por sutis cenas dos personagens saboreando sua autonomia. O segundo é o uso de situações de séculos passados para traçar paralelos com o preconceito racial existente na sociedade atual, principalmente ao expor momentos em que, por não tomarem atitudes, até pessoas de bom caráter acabam sendo cúmplices de atrocidades.

Infelizmente, esses dois elementos são muito pouco explorados por Nate Parker e perdem espaço para subtramas não tão interessantes, como o romance do protagonista e seu relacionamento com seu senhorio. Como resultado, um filme que serviria como uma necessária crítica social e histórica se torna, em sua segunda metade, quase um drama de guerra, com fortes inspirações em filmes como Coração Valente O Patriota.

Mesmo retratando um tenebroso momento da humanidade, O Nascimento de Uma Nação erra ao focar menos na importância histórica do conflito e mais na construção de um salvador. Apesar das boas intenções, Nate Parker acaba sendo o vilão de sua própria obra, tendo no roteiro, na direção e em sua atuação protagonista os três grandes problemas do longa. Uma história tão fascinante sem dúvidas pede um roteiro mais profundo e abrangente e uma direção mais experiente. Mas, mesmo com seus defeitos, é uma obra interessante, importante e incômoda por nos lembrar o quão baixo o ser humano já foi.

 

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