fbpx

Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

O Som Ao Redor

O Som Ao Redor

Matheus Fiore - 14 de julho de 2016

Antes de qualquer coisa,  O Som Ao Redor, primeiro longa-metragem do crítico Kléber Mendonça Filho,  é um retrato da triste sociedade brasileira dos anos 2000. Aproveitando algumas ideias do seu curta Recife Frio, o diretor aqui escolhe uma rua da capital pernambucana para incorporar e dissecar alguns estereótipos do nosso povo.

O filme possui muitas camadas que retratam perfeitamente a sociedade brasileira do século XXI. Cada núcleo e cada cena tratam de maneira simples e delicada alguns dos problemas do Brasil atual.  Na história, os moradores da rua vivem suas rotinas normalmente, exceto por alguns pequenos delitos, até que um dia uma empresa de segurança chega para proteger o local.

O Som Ao Redor já inicia traçando um interessante paralelo entre a sociedade atual e os trabalhadores rurais do passado. Uma compilação de fotografias antigas seguida por trabalhadoras domésticas em atividade deixa claro o tom do filme: mostrar o quanto o nosso povo não evoluiu, apenas mudou a roupagem. Esta relação com o passado fica ainda mais clara quando conhecemos o suposto “dono da rua”, Francisco, um senhor dono de inúmeros imóveis e terras por toda Pernambuco.

O longa tem na fotografia e na direção seus pontos altos. Além dos belos enquadramentos, algumas cenas são perfeitas para entendermos o posicionamento dos personagens na trama. Apenas com a composição de alguns planos o filme exprime de forma sintetizada os sentimentos de alguns dos coadjuvantes.

Outro destaque da película é a maneira que a rua é retratada, fria e sem vida. Não só pelo excesso de cinza dos prédios, como pela crua iluminação e pelos planos em que temos a sensação de sermos um dos moradores observando os vizinhos. Vizinhos, aliás, que estão quase sempre frustrados e tristes.

Pequenos detalhes podem passar despercebidos por muitos espectadores, mas contam muito sobre a visão da sociedade que O Som Ao Redor quer passar. Cada vez mais enclausurada e sem personalidade, a sociedade é robótica, individualista e sem alma. Mesmo assim o fantástico design de som (que inclusive é o responsável pelo título do filme) mostra que, independente dos muros, paredes, grades e portas, você não pode fugir da realidade que te cerca. Momentos como os conflitos com os animais dos vizinhos, o banho de sangue e o “teto estrelado” são não só precisos, como poéticos e narrativamente importantes.

Um dos momentos mais bonitos (e tristes) do filme é quando nos é apresentada uma situação feliz, descontraída e diferente de todo o tom do resto do longa, mas, em seguida, nos é sugerido que tudo não passava de um sonho. Nesta bela cena nos é escancarado o quanto os personagens são infelizes com suas vidas, mas ao mesmo tempo não buscam muda-las.

Mesmo tendo sido premiado no Festival de Gramado, Mostra de São Paulo e Festival do Rio, O Som Ao Redor passou despercebido pelo grande público. Uma pena, pois além de uma obra de arte executada de forma impecável, é uma importante e realista análise da doente sociedade em que vivemos.

 

Topo ▲