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Shame

Shame

Matheus Fiore - 25 de junho de 2016

Shame é um daqueles filmes cujo título entrega praticamente tudo que você precisa saber sobre a história. Neste segundo trabalho do pretensioso diretor Steve McQueen (Hunger e 12 Anos de Escravidão) acompanhamos  a história de Brandon (Michael Fassbender), um homem escravo (e avergonhado) de seus impulsos sexuais.

Já nas primeiras cenas do filme vemos uma sequência de quatro  momentos sexuais distintos seguidos. O melhor deles é o que Brandon paquera uma mulher no metrô. No início, a moça sente interesse, corresponde aos olhares e começa a tentar decifrar as feições do protagonista, mas logo vê que ele não exprime nenhuma emoção. Seu desejo não  é simplesmente sexual, mas sim patológico.

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Além dos flertes na rua e no trabalho, vemos Brandon se relacionando com prostitutas, com pornografia em casa e até no trabalho. E em todos esses momentos vemos claramente a total falta de prazer do personagem em tais atos, graças à excelente atuação de Fassbender.

No início do segundo ato, com o personagem já estabelecido, começamos a conhecer mais de sua personalidade. Seu apartamento é muito frio e sem vida, não só pelo bom trabalho de fotografia de Sean Bobbitt, que com iluminações frias ajuda a construir a falta de paixão do personagem, mas também pela excelente direção de arte, que exalta a ausência de qualquer apreço de Brandon por qualquer coisa que não seja sexo. Tudo é branco, preto e sem vida. Não há muito além de uma televisão, uma vitrola e um sofá. Seu lar é a representação de sua vida.

A história começa a deslanchar quando sua irmã, Sissy (Carey Mulligan) aparece sem aviso em seu apartamento. Desde a primeira cena vemos uma forte tensão sexual entre os personagens, que junto com o clima de angústia, permeia toda a projeção. As boas atuações e a dinâmica entre Fassbender e Mulligan são alguns dos pontos altos do filme.

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O clima soturno é intensificado quando Brandon vai a um show de sua irmã (Sissy é cantora) e vê sua espantosamente deprimida interpretação de New York, New York, clássica canção do lendário Frank Sinatra (que originalmente é uma das músicas mais empolgantes e animadas do repertório do cantor). Os olhares dos irmãos são muito parecidos, ambos tristes, desgastados e sem esperança. Mas o de Fassbender ainda parece indicar um desejo oculto.

É curioso notar que Brandon tem inúmeras relações sexuais no filme, mas quando ele acidentalmente se aproxima de alguém e acaba criando o mínimo laço emocional, ele se vê incapaz de ter uma ereção, pois acaba assombrado por seus desejos reprimidos. Há dois longuíssimos planos no filme que fazem uma conexão visual entre dois personagens. Ao analisa-los podemos entender o por quê de Brandon não conseguir ter um relacionamento de mais de quatro meses. O sexo não é simplesmente um vício, é também a válvula de escape do personagem.

Vale também destacar que o personagem busca se distanciar o máximo possível quando seus sentimentos são expostos. Na cena seguinte ao show de Sissy, Brandon foge de suas emoções em um belo plano onde ele corre pelas desertas ruas de Nova Iorque.

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O ato final do filme é muito semelhante ao primeiro. A ótima montagem de Joe Walker mescla vários momentos distintos e a bela e discreta trilha sonora de Harry Escott volta para dar intensidade. Há uma sequência de autodestruição que é um dos momentos mais marcantes e tristes do filme, nesse momento um personagem busca se esconder de seus desejos de todas as maneiras possíveis.  Neste momento  a mistura do som diegético com o extra-diegético  ajuda a construir o clima de confusão e tortura psicológica que a cena pede.

Com poucos diálogos, a narrativa é contada praticamente pela direção e pelas atuações. Fassbender merecia no mínimo uma indicação ao Oscar, assim como Carey Mulligan e Steve McQueen (que tem aqui seu melhor trabalho de direção). Shame é poeticamente lindo, triste, denso e profundo. Sem dúvidas foi um dos grandes filmes de 2012, e se houver justiça, o filme ainda será lembrado no futuro.

 

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