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O rock and roll pertence à esquerda

O rock and roll pertence à esquerda

Gustavo Pereira - 9 de junho de 2016

Com certeza, este artigo não vai concluir nada de maneira definitiva. Portanto, peço que você coloque os fones no ouvido, ouça as músicas que ilustrarão o texto, acompanhe minha linha de raciocínio e debata. Aproveite a viagem, as referências históricas vão fazer de você uma pessoa muito mais interessante na mesa do bar este fim de semana.

http://youtube https://www.youtube.com/watch?v=VTUgGPUrDpE]

“The white men had the schmaltz, the black men had the blues.” De fato, o rock é o estilo mais simples de explicar: brancos cantando suas breguices na batida rítmica dos negros. Em andamento acelerado, pra ficar dançante. “Rocking” é o êxtase espiritual dos cantores negros americanos de gospel. A beleza do rock está na sua simplicidade, que universaliza o acesso e democratiza a composição. Você imaginaria Kurt Cobain montando uma banda de jazz em Seattle?

Quando a indústria musical percebeu que esse caldeirão cultural tinha mercado nos Estados Unidos, a grande revolução do Século XX começou. O rock foi o primeiro estilo musical a ultrapassar barreiras étnicas e sociais, pois sempre foi capaz de absorver elementos antagônicos. O Rei do Rock regravou dezenas – não estou exagerando, DEZENAS – de músicas gospel. Daquelas que você ainda pode ouvir nas vozes de um coral de negros se tiver a grata oportunidade de ir a uma igreja do Mississipi num domingo qualquer.

http://youtube https://www.youtube.com/watch?v=sire_XjCQjI

O Moondog Coronation Ball, festival do lendário DJ Alan Freed, o primeiro show de rock da história, também foi o primeiro evento a reunir no mesmo espaço negros e brancos numa época dos Estados Unidos onde haviam bebedouros separados para os “de cor”. Como fazer rock é muito mais simples do que fazer jazz, qualquer um era um rockeiro em potencial. E a matéria-prima para compor abundava: o rock permitiu às pessoas que cantassem sobre suas próprias vidas. Era um estilo tão popular que criou certo asco de músicos virtuosos.

Whiplash

Dois anos depois, você finalmente pode rir da piada de Whiplash (Damien Chazelle, 2014)

As canções gospel de Elvis, as serenatas dos Beatles, os deboches dos Stones, os protestos políticos de Dylan ou mesmo o mais medíocre cotidiano malemolente das melhores músicas de Chuck Berry encontravam ouvidos interessados. O rock não queria mudar o mundo, apenas dar voz a quem quisesse falar. E foi aí que o mundo mudou.

Mas sabem quem é mais antigo que o rock? Adorno. Na Dialética do Esclarecimento, sua obra mais conhecida, escrita em parceria com Horkheimer, somos apresentados ao conceito da Indústria Cultural. Quando o ser humano aprendeu a replicar obras de arte, arrancou-lhe sua aura e colocou uma etiqueta de preço no lugar. Ao tratar arte como mercadoria, aprendeu rapidamente que a melhor forma de alcançar maiores mercados era retirar dela qualquer questionamento complexo do status quo. Ao abraçar o rock, a indústria cultural tentou matá-lo.

Nossa geração pode ver o rock como um look da Renner, mas nossos pais (avós?) ouviram Wars Pigs em plena Guerra do Vietnã. Leia biografias como as de Tony Iommi, Robert Plant ou Johnny Cash: pessoas marginalizadas, pobres, precárias, agarradas à sua música como a única chance de mudar de vida. Como bem disse Bruce Dickinson, estamos falando da ópera da classe operária, de pessoas tão desesperadas por serem ouvidas que gritaram. E fizeram as estruturas balançarem. Isso é o rock: contestação e transformação. Se serve como ferramenta de opressão e silêncio das vozes fora do mainstream, não é rock. É discurso da direita conservadora com uma roupagem “descolada”. Nada contra a direita conservadora. Ela apenas é a antítese do rock. Ela quer que o mundo seja exatamente como sempre foi, enquanto o rock quer colocar o mundo de cabeça pra baixo.

Dave Mustaine já foi rockeiro, mas deixou de ser faz tempo; me pergunto se Phil Anselmo algum dia chegou a ser. Ensine um galo a miar: ele não vai se tornar um gato. Isso vale tanto para os artistas quanto para os ouvintes: não pense que uma camisa do Judas Priest vai te transformar num fora-da-lei se você pratica homofobia no cotidiano; se você defende que “mulheres merecem menores salários porque engravidam”, jogue seus discos da Joan Jett no lixo, porque você não os merece.

A Lady Gaga é muito mais rockeira do que você. E tenho dito.

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