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2001: Uma Odisséia no Espaço
Nota:

2001: Uma Odisséia no Espaço

Matheus Fiore - 7 de junho de 2017

Analisar uma obra tão aclamada e cultuada quanto 2001: Uma Odisséia no Espaço é um clichê bem pretensioso, eu sei. Em seu oitavo filme (se contarmos desde Medo e Desejo), Kubrick alça sua carreira a um novo patamar. Anteriormente, quando fez Doutor Fantástico, o longa que antecedeu 2001, o cineasta criou uma das sátiras políticas mais elogiadas da história, em uma bela comédia que mostra como nossa sociedade está, nas mãos de tolos, condenada à extinção. Em 2001 o assunto é novamente arranhado, mas o tema central e a abordagem são diferentes. Acompanhamos uma missão intergalática liderada por Dave e Frank que, auxiliados por HAL 9000, a mais moderna forma de inteligência artificial criada pela humanidade, devem chegar à Jupiter e investigar a possibilidade de lá haver forma de vida inteligente.

Stanley Kubrick divide seu filme em quatro momentos. O primeiro, nomeado A Aurora do Homem, é o que mais deixou sua marca na história. Ali, Kubrick mostra a chegada de um monolito à Terra, quando o homem ainda era primitivo, semelhante aos seus primos macacos, e recebe de tal monolito o conhecimento e a técnica para impor-se sobre as espécies irmãs. Ao utilizar um osso para assassinar outros seres, o humano ali começa a era de uma imposição quase falocentrica que até hoje perdura. Em uma das várias possíveis interpretações, o monolito tem função de começar a “gravar” a existência humana, começando ali a registrar nossa história e evolução. Entra, então, a mais icônica elipse da história do cinema, quando um osso é arremessado para cima e, em um corte que conecta milhões de anos, transforma-se em uma bomba que viaja pelo espaço. Ali, a mensagem de Kubrick é clara: ao nos prendermos ao cientificismo e ao falocentrismo, a humanidade evolui como criadora, mas não como espécie. Separados por incontáveis anos, os dois planos trazem símbolos com formato fálico e função semelhantes: proporcionar que o homem se imponha sobre o resto do mundo. Agora, no futuro, desbravando o espaço. A técnica traz avanço tecnológico, mas não crescimento como raça.

No segundo ato, somos apresentados ao homem do futuro. Kubrick nos mostra como a tecnologia proporcionou avanços em questões medicinais e estruturais, por exemplo, mas não na humanidade como raça. Ali, quando a humanidade encontra o segundo monolito, é o fechamento de um ciclo, que dispara o alarma para a humanidade ir, enfim, encontrar no espaço a vida extraterrestre que tanto busca. É na segunda parte do segundo ato, Missão Júpiter, que então começa a história de Dave e HAL 9000. Aqui, Kubrick começa a esmiuçar seus temas. Primeiramente, a relação homem-máquina que já era tratada por Asimov e depois foi muito bem explorada em filmes como Blade RunnerGhost In The Shell. Repare como Dave e Frank, os humanos da missão, são frios e com atuações extremamente robóticas, enquanto Hal, a máquina, tem uma voz extremamente melancólica. Ao se prender aos avanços tecnológicos, à ciência, o homem perdeu cada vez mais seu lado instintivo e artístico. Suas criações, então, se tornaram o que ele há muito deixou de ser: emotivo.

Percebemos tal humanização da máquina e mecanização do homem ao notarmos como são construídas as cenas das mortes de Hal e dos membros da nave. Os humanos que estavam em estase morrem sem emitir qualquer som, de maneira fria. Com Frank, então, é ainda pior. Morto sem oxigênio e tendo seu corpo abandonado no espaço, a cena (que graças à genialidade de Kubrick, não tem som algum), mais parece um boneco de plástico do que um ser vivo. E a frieza no olhar de Dave torna tudo ainda mais mórbido e frio. Já quando o mesmo Dave desativa Hal, vemos não só a máquina cantando e implorando por sua vida, como o predomínio de uma iluminação vermelha na sala de comando da nave, simbolizando o sangue e a dor que a máquina, teoricamente, não pode ter. Kubrick inteligentemente ainda usa planos contra-plongée que capturam o humano de baixo para cima, estabelecendo sua grandeza ao se impor diante do frágil Hal.

Na viagem para Júpiter, ainda notamos que a nave de Dave possui um desenho parecido ao de um espermatozoide, como se fosse o gene humano contaminando e buscando colonizar o espaço. Ao chegar em Júpiter, porém, Dave perde completamente o controle da situação. Kubrick, gênio que era, sabe manipular seu espectador e inseri-lo no papel de Dave enquanto este imerge no planeta. As mudanças de cores, tons e luzes que dominam a película por alguns minutos são uma escolha perfeita para retratar a incapacidade do humano de conceber o que se passava diante de seus olhos. Ao observar algo além de seu conhecimento, além de sua capacidade cognitiva, Dave se contorce dentro da roupa espacial. Aqui, Kubrick utiliza a alternância de cores para criar choque, mudando repetidas vezes a cor do plano até que, ao voltar ao normal, há um grande choque visual que deliberadamente incomoda o público. Com sua mente totalmente estraçalhada enquanto é estudado pelos seres superiores, Dave, então, chega ao seu destino.

2001 é uma obra que trabalha o tempo. E Kubrick a todo momento brinca com nossa percepção de tempo, tanto dentro do enredo quanto na montagem do filme. No cinema, é comum que momentos que na vida real seriam curtos sejam esticados e que momentos longos e monótonos sejam comprimidos, a fim de escapar da realidade. Stanley faz o contrário e utiliza a monotonia para impor seu próprio ritmo ao espectador. Algo que, inclusive, já estava presente na cena de abertura, quando por minutos observamos uma tela preta acompanhada apenas pela trilha sonora. É como se o diretor estivesse nos dizendo: esqueça tudo que você sabe, abra sua cabeça e embarque nessa viagem. A relação com tempo pode ser percebida desde a elipse mencionada no começo do texto às cenas que trazem os tripulantes da nave Discovery One correndo pelo espaço circular onde habitam, como se fossem ponteiros de relógios. Enquanto conta sua história, Kubrick nos mostra como a humanidade é ínfima, passageira. Uma espécie efêmera e egocêntrica, que acredita dominar quando é apenas uma reles vírgula na história do universo.

Os momentos finais, quando Dave está em uma projeção de casa e, conforme se aproxima de figuras mais velhas, se vê tornando-se as próprias figuras, é de uma sensibilidade poética ímpar. O ser humano passa tanto tempo preocupado com seu futuro que, quando percebe, chega ao momento que temia não tendo aproveitado sua trajetória. Mas ali, há também outro foco. Dave não é simplesmente um convidado dos seres superiores, mas objeto de estudos. Como já dito, traz consigo todo o registro cultural e civilizatório de nossa raça. Para salvar-nos do ciclo autodestrutivo e falocentrico que estamos presos há milênios, os seres fazem Dave viver toda sua vida até que renasce, como um ser superior. Um ser puro, nascido distante de todos os dogmas e crenças terráqueos ultrapassados, um verdadeiro Übermensch, como diria Nietzsche. O “bebezão” nada mais é do que a evolução de nossa espécie, que, então, volta à Terra para salvar-nos de… Nós mesmos.

Uma Odisséia no Espaço vai muito além das revoluções em questão de efeitos visuais e técnica e é uma verdadeira declaração de Stanley para a humanidade, pedindo para que nos livremos das correntes que nos prendem à ideias platônicas ultrapassadas e falhas. O falocentrismo e a cientificização do homem nos proporcionaram meros avanços científicos, mas a que preço? A racionalização de tudo que é belo empobrece nossa civilização e acorrenta nosso aprendizado como espécie. Não é a toa que Dave transcenda para um ser superior justamente quando esteja distante de tudo que sua civilização acredita ser certo. No final de sua trajetória, Dave viaja incontáveis quilômetros para, enfim, poder voltar para onde não precisava ter saído. E nossa mente embarca nessa viagem e regressa junto ao protagonista.

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