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A ponte e a felicidade capitalista | Especial Setembro Amarelo

A ponte e a felicidade capitalista | Especial Setembro Amarelo

Ana Flavia Gerhardt - 24 de setembro de 2017

A pessoa permanece por algum tempo apoiada às grades vermelhas da ponte. Os transeuntes passam, mas ela parece completamente alheia a eles. Quem lhe presta atenção pode identificar a expressão alterada de seu rosto, mas a câmera, de longe, não é capaz disso. Podemos apenas inferir, pelos movimentos de seu corpo, o que se passa em seu íntimo, porque, em algum momento, ela transpõe a grade, alcança a viga exterior da ponte e se joga no mar.

Essa ação foi repetida 24 vezes no ano de 2006, ano em que foi lançado o documentário A ponte – no caso, a Golden Gate, que conecta a cidade de San Francisco à Península de Marin Headlands, na Califórina. A Golden Gate é o lugar do mundo mais escolhido pelas pessoas que tencionam se suicidar, e a tentativa de montagem do quebra-cabeça das histórias de algumas delas permeia o documentário realizado por Eric Steel. O tema ainda hoje continua  importante, porque, só no ano de 2013, 46 pessoas se jogaram da ponte, e mais outras 118 foram impedidas pela polícia de o fazer. Em 2016, o número de saltos caiu para 39, certamente por conta das ações de prevenção policial, já que o número dos que pretenderam se jogar e foram impedidos subiu para 184.

A ponte

A ponte repete, de diversos ângulos, imagens da Golden Gate e de pessoas lançando seus corpos no vazio, entremeadas por depoimentos de amigos e parentes de alguns dos que saltaram para as águas da Baía de San Francisco, a grande maioria alcançando seu intento. A exceção do filme é um sobrevivente do salto de 67 metros da ponte até o mar, que declara ter desistido da ação no exato momento em que se desligou de qualquer apoio que impedisse sua queda, procurando em sua mente, pelos segundos que o separavam das águas geladas, formas de sobreviver. Ouvindo-o, não posso deixar de imaginar que muitos dos que morreram devem ter pensado a mesma coisa ao se jogarem não apenas da Golden Gate, mas também das outras milhões de pontes que há no mundo.

Nas falas dos amigos e parentes que reportaram sobre a vida e a personalidade de alguns dos que não sobreviveram à queda, muita tristeza e culpa, mas também um pouco de alívio, porque elas tinham clareza de como o sofrimento tomava aos poucos a vida dos amigos, filhos e irmãos que perderam: às vezes o sofrimento de uma vida inteira, às vezes de uma situação para a qual não conseguiam vislumbrar saída. Em todos os depoimentos, a percepção de que, na equação da sua existência, faltava uma constante, que é justamente esse elemento imponderável e intransferível que nos mantém apegados à vida mesmo na pior das intempéries, e uma grande generosidade pelos sentimentos que levaram aquelas pessoas a agir de forma tão definitiva e trágica.

A ponte

A Golden Gate, ponte do tipo pênsil, foi inaugurada no ano de 1937 para ligar a parte externa da Baía de San Francisco ao norte da Califórnia. Por uma vocação espontânea, dessas que acontecem com alguns lugares especiais deste mundo, a ponte tornou-se um lugar de magia e encanto, tendo sido visitada por pelo menos 25 milhões de pessoas em 2016. Claro que para isso concorre também a beleza do lugar em que se encontra – de um lado, a encantadora cidade de San Francisco, e, de outro, lugares charmosos como Sausalito e Mill Valley.

O fog que invade a baía vindo do Pacífico e por vezes torna a ponte invisível traz o mistério que povoa a mente de quem a contempla, e foi empregado por Eric Steel para reforçar o caráter singular da personagem principal do seu documentário. A imensa estrutura vermelha, sustentada por duas torres separadas por quase dois mil metros de uma pista que parece suspensa no vazio, é outra característica que ajuda o diretor a mostrar ao espectador o que representa jogar-se dela: uma imagem que se repete pelo menos três vezes é a da ponte vista inteira, gigantesca e imponente, e súbito se vê algo diminuto e invisível caindo no mar; só se sabe que alguma coisa atingiu a água pelos espirros de espuma branca que sobem, ao longe. Trata-se de mais um que se jogou.

A ponte

Essa mágica e esse gigantismo podem ser fatores a atrair suicidas à ponte: a possibilidade de morrer de uma forma especial, ou de partir dessa vida se lançando em uma espécie de voo, ou de agir de uma forma que não permita impedimentos nem desistências, são ideias levantadas nos depoimentos dos que conheceram as pessoas cujas ações foram mostradas no documentário. Entre elas, destaca-se Gene Sbrague, cuja personalidade depressiva e nada resiliente é mencionada pelos seus amigos, e cuja imagem derradeira é repetida ao longo do filme: um homem alto, de cabelos longos, vestido de preto, que repetidamente, ao longo do filme, aparece andando de um lado a outro do passeio da ponte, para enfim, numa ação final, lançar-se como um mergulhador de Acapulco para o abraço de morte nas águas da baía.

A visão de Gene e de outras pessoas se suicidando é o grande senão do filme. A certa distância, elas se parecem com os voos e mergulhos de aves marinhas em busca de alimento, mas sabemos o que a imagem significa, e isso é por demais chocante e melancólico. Mesmo sabendo que, por conta dos serviços de resgate da ponte, elas constituem a minoria cuja ação desesperada não se pôde evitar, a exibição de suas mortes pelo filme tem um quê de sensacionalista, já que sabemos no que vai dar, e continuar a assistir ao filme mesmo assim nos faz sentir como os espectadores dos programas de TV que expõem a violência explícita das cidades grandes. O fato de Steele ter ficado por milhares de horas filmando a ponte à espera de que alguém se jogasse dela também é motivo de desconfiança sobre as intenções do diretor: denunciar e sensibilizar as pessoas sobre um problema grave da sociedade americana ou simplesmente ganhar notoriedade sobre o sofrimento alheio? Fica ao espectador a escolha de qual interpretação fazer, já que, evidentemente, essa explicação não é dada pelo diretor.

Outra interpretação que o filme não se propõe dar, e acho isso até louvável, é sobre a razão de as pessoas atentarem contra a própria vida, algo que quase todos nós achamos a ação mais antinatural que um ser humano pode praticar. Cada um define para si um motivo: falta de religião, que a rigor considera o suicídio um pecado mortal, o que impediria os fieis de o praticarem, sob pena de passarem a eternidade no inferno. Covardia, uma razão bastante nebulosa, já que alguns suicídios, verdadeiramente dolorosos e traumáticos, apontam para o contrário. Necessidade de chamar atenção também é um argumento fraco, porque grande parte das estratégias suicidas, como se jogar de uma ponte alta como a Golden Gate, não pode ser revertida.

Não se propor tentar responder a pergunta de por que as pessoas se suicidam é um acerto do filme, porque acho que essa pergunta não deve ser feita. A pergunta que cabe, a meu ver, é por que construímos um mundo onde muitas pessoas não conseguem viver e acreditam que a única solução para esse problema é morrer. Ou, melhor dizendo: excluindo condições patológicas graves que precisam de medicação para se ter um mínimo de paz psicológica, que tipo de pessoas se exige que sejamos nesse mundo para viver nele sem sermos excluídos? Por que a recusa em sermos esse tipo de pessoa, por quaisquer motivos, implica uma angústia tão grande que muitos de nós não vê outra solução para esse problema além de morrer? Uma das pessoas retratadas no filme chegou a escrever bilhetes em que dizia, “não tenho dinheiro, sou um perdedor”. Por que não ter dinheiro significa ser um perdedor? Por que se ver como um perdedor leva alguém a pensar em morrer?

A ideia de vencedores e perdedores é forte na sociedade estadunidense porque é um dos pilares da construção da subjetividade capitalista, que é basicamente individualista e competitiva, obrigando as pessoas a serem felizes porque pessoas felizes produzem mais. E as pessoas que não se encaixam nesse padrão de felicidade, de saúde, de beleza, de renda, de aptidão física para produzir, são não raro condenadas à marginalidade. Em países com estruturas privatizadas de saúde, como os Estados Unidos, é mínima a oferta de apoio psicológico para pessoas que não têm seguro-saúde, justamente por não terem renda compatível para arcar com um, o que produz um círculo vicioso, uma espiral para baixo, que as joga mais e mais no fundo da baía, antes mesmo de elas sequer pensarem na possibilidade em pular. Mas isso não importa, porque as pessoas que não se encaixam no modelo capitalista de pessoa simplesmente não interessam, porque não produzem, e por isso não contribuem para a glória do capital, portanto podem ser descartadas.

A sociedade brasileira está caminhando para ter uma estrutura dessas, já que aumenta mais e mais o número de pessoas que acha a seguridade pública um privilégio. De todo modo, da forma como se coloca o SUS agora, o serviço de apoio psicológico é considerado supérfluo, como se as pessoas pobres também não passassem por sofrimento emocional e eventualmente não pensassem no fim da própria vida como solução para os seus problemas, muitos deles ocasionados pelo não encaixe nos padrões e exigências capitalistas de sucesso e felicidade. Num provável processo de privatização da saúde, esse serviço provavelmente será o primeiro a ser extinto.

Então, no fim das contas, a questão é menos por que as pessoas se matam, mas sim por que se impõe a elas que sejam exatamente o contrário de como se sente quem dá cabo da própria vida. Por que somos obrigados a ser felizes? Por que a felicidade está, na contemporaneidade, baseada em sucesso material, beleza, aptidão física e juventude, e não nas relações de amor e cuidado, na partilha de conhecimento e afeto entre as pessoas em comunidade? Se não houvesse uma imposição tão acachapante e ubíqua de felicidade nos termos capitalistas, será que os suicídios aconteceriam com tanta frequência em alguns países? Observe-se que, junto a essa imposição, há uma pesada e milionária estrutura farmacêutica que produz medicamentos que tencionam forçar uma felicidade que não se consegue ter por via das ações voltadas aos valores de mercado, e uma ordem discursiva que recorta no universo bioquímico as condições existenciais humanas, isolando-as do plano social. A felicidade química é uma falsa felicidade, ou, no máximo, como Michel Foucault nos ensinou, uma docilização dos corpos, mas infelizmente acaba sendo a escolha de muita gente.

Por tudo isso, também se pode ler o suicídio como sendo, muitas vezes, o extremo da recusa em se fazer parte desse mundo, em negociar com ele, porque nessa negociação invariavelmente saímos perdendo. Infelizmente, essa recusa pode ser lida por muitas pessoas como sendo o fracasso delas, e elas se matam porque se sentem fracassadas em não conseguirem se integrar ao mundo, sem ao menos perceber que, na verdade, a própria construção do modelo capitalista de vida em que estamos todos armadilhados, é que é o grande fracasso. Enquanto insistirmos em não olharmos para isso, em não avaliarmos os padrões de mundo em que (sobre)vivemos, que nos faz muito mais mal do que bem, é bem provável que muita gente ainda vai continuar se jogando das pontes – da Golden Gate e de muitas mais. A nós outros, aos que têm estômago forte para isto, caberá apenas assistir.

Leia mais sobre o Setembro Amarelo no Plano Aberto clicando aqui.

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