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Alias Grace: a mesclagem entre o singular e o coletivo

Alias Grace: a mesclagem entre o singular e o coletivo

Ana Flavia Gerhardt - 8 de novembro de 2017

Entre as séries televisivas de 2017, algumas em especial marcarão a memória do espectador pelo refinamento da produção, ou pelo tratamento sofisticado da temática, ou pelas inspiradas atuações, ou por essas coisas todas. Um dos trabalhos que reuniu essas qualidades e muitas mais é The Handmaid’s Tale, produção da Hulu baseada na obra homônima da canadense Margaret Atwood, que também assina o texto original de Alias Grace, disponível na Netflix. A obra retrata os efeitos extremos da articulação entre a ideologia liberal-salvacionista e o pensamento ultraconservador, algo que tragicamente estamos testemunhando no Brasil atual.

O foco de Atwood em The Handmaid’s Tale recai sobre as mulheres, direcionadas para o centro do processo de “recuperação” de uma sociedade em efetiva dissolução devido à generalizada esterilização das pessoas, como uma resposta da natureza às agressões sistemáticas que lhe imputamos. Na narrativa, todas as mulheres da fictícia Gilead, a nova sociedade edificada, são coagidas para diferentes fins: as poucas ainda férteis se tornam reprodutoras; as de classes menos favorecidas se tornam serviçais e mantenedoras da ordem; as mais abastadas e intelectualizadas se tornam objetos de decoração. Numa sociedade altamente repressora, e por isso hipócrita, há lugar, naturalmente, até para as prostitutas. Nenhuma mulher fica sem função. E nenhuma tem qualquer poder, voz ou voto.

Entretanto, a excelência de The Handmaid’s Tale, tornada ainda mais evidente pelo cuidadíssimo tratamento televisivo bem como pela interpretação avassaladora de Elizabeth Moss, não passou sem críticas pelo movimento feminista, principalmente pelo fato de ter ignorado a complexidade da vida das mulheres de diferentes raças num mundo machista e misógino como é este em que vivemos. Sobre esse questionamento, a articulista Carol Almeida, que a meu ver traz a escrita mais significativa e contundente sobre essa questão, merece ser lida por aqueles que apreciaram a série e reconheceram sua importância para a discussão dos temas que aborda.

Alias Grace retoma temas importantes de The Handmaid’s Tale, e desta vez Atwood constrói sua narrativa abordando um fato real da história do Canadá – a condenação, na década de 40 do século dezenove, da imigrante irlandesa e empregada doméstica Grace Marks (Sarah Gadon) pelo assassinato de seu patrão Thomas Kinnear (Paul Gross) e da governanta Nancy Montgomery (Anna Paquin), em cumplicidade com o capataz James McDermott (Kerr Logan).

Margaret Atwood nos conta histórias de tempos e lugares em que as mulheres sempre estão subordinadas aos homens.

Ser uma obra calcada em fatos reais não é o único detalhe que distingue Alias Grace de The Handmais’d Tale: Ao contrário da opressora Gilead, o Canadá descrito por Atwood é um jovem país tentando acertar no seu processo de construção, buscando transformar-se na terra da liberdade e não repetir as injustiças das quais seus imigrantes do Velho Mundo fugiram. Outra distinção que singulariza Alias Grace em relação a The Handmaid’s Tale é o fato de que sua protagonista Grace Marks não é a única a contar sua história; ela é também narrada do ponto de vista daqueles que aparentemente se propõem a defendê-la após quinze anos de prisão, fazendo dela um exemplo da generosidade do Canadá com seus cidadãos, mesmo aqueles que, segundo seus valores, erram.

Assim, para conhecermos Grace e definirmos nossa opinião sobre ela, contamos com diversas perspectivas, inclusive a dela mesma, que, ao não se lembrar dos detalhes dos crimes de que é acusada, constrói sobre seu próprio caráter diferentes ideias. A alegada incerteza de Grace influencia aqueles que convivem com ela durante o processo de definição da sua inocência/culpa, principalmente o fictício Simon Jordan (Edward Holcroft), incipiente “psicanalista” indicado para ajudar Grace a recordar os fatos, e que aos poucos deixa de se julgar competente para opinar sobre sua responsabilidade nos crimes de que foi acusada.

O conto das mesclagens

A escolha de Atwood, e também da roteirista Sarah Polley, por manter a incerteza sobre Grace, condição que diz respeito não apenas a seus atos mas também a seu caráter, abre caminhos para que observemos a complexidade da condição feminina que o texto do livro e da minissérie abordam. A obscuridade acerca de Grace transforma-a numa personagem multifacetada: nada mais fidedigno ao que somos como pessoas na vida “real”.

Mas, para além desse multifacetamento, a personagem Grace acaba se tornando uma mesclagem para a qual concorrem as outras mulheres com quem convive ao longo da minissérie e que afetam seu pensamento e suas ações de maneira profunda: sua mãe, que perece durante a travessia do Atlântico; Mary Whitney (Rebecca Liddiard), sua grande amiga e colega de trabalho em Toronto; e Nancy Montgomery, por cuja morte Grace foi condenada. É nessa mesclagem – melhor dizendo, mesclagens -, que se constrói o lugar que Alias Grace ocupa entre as grandes séries de 2017, e que aliás justifica seu título, que foi traduzido para o português como Vulgo Grace. À mesclagem entre as pessoas, junta-se a mesclagem de significados que as palavras “alias” e “vulgo” denotam: pseudônimos, ou aquilo que é popularmente conhecido/nomeado por, ou a classe popular, ou tudo isso ao mesmo tempo.

Da esquerda para a direita: Nancy, Grace e Mary, três mulheres em uma só.

Note-se como “alias” e “vulgo” são palavras que despersonalizam as pessoas a quem se referem, subtraindo-lhes o nome, a história e a singularidade, transformando-as em qualquer um e, em última instância, em ninguém. Não é à toa que, um dado nomento do seriado, Grace, ao cantarolar o hino Amazing Grace, manifesta o desejo de que seu nome tenha sido inspirado pela canção, o que seria algo que a conectaria a alguma coisa existente e notabilizada, tirando-a assim da indigência total. Grace está entre o vulgo como estão todas as mulheres do mundo – esse é o pensamento da época, que persevera ainda hoje, a tomar, por exemplo, pela taxa de feminicídios no Brasil atual: a cada dias, sete brasileiras são mortas pelo fato de serem mulheres e, por algum motivo, não terem cumprido o seu papel de mulher conforme esperado por uma sociedade que caminha perigosamente para o ultraconservadorismo descrito em The Handmaid’s Tale. E quase ninguém saberá delas, porque, assim como Grace, elas são o vulgo.

Assim como elas, Grace assimila a única vida que é possível às mulheres do seu tempo e de sua classe: vai trabalhar como empregada doméstica em casa de gente rica. Pessoa completamente integrada ao pensamento vigente, Grace abomina a “imoralidade” e guarda com fervor sua “virtude”, que é seu único bem, deixando para seus sonhos a tarefa da vivência do desejo. Mas nem por isso está cega às brechas em que as contradições da realidade em que está lhe permitem penetrar.

Ao longo da minissérie, Grace demonstra saber negociar com as armas que tem: é branca e tem de sobra juventude, beleza, delicadeza e fragilidade típicas do modelo de perfeição feminina do imaginário social. Por isso, a personagem logo reconhece o sentimento de proteção que a jovem sociedade canadense passa a nutrir por ela, e trabalha para trazê-lo a seu favor. Como as condições de negociação não são muitas (embora sejam bem melhores que as da protagonista June/Offred em The Handmaid’s Tale), Grace obtém o essencial, que é a vida, tendo de esperar mais alguns anos para obter de volta a liberdade.

E, nesse meio tempo, ainda continua a jogar para obter mais lenitivos, como por exemplo o regime semi-aberto e a atenção dos governantes canadenses. Alguns críticos de Alias Grace supuseram que tais negociações são evidência de uma personalidade ambígua, que navega para a bipolaridade; eu, porém, apenas vejo na personagem a prototípica resistência foucaulteana: uma imensa lucidez e uma capacidade de negociar com a vida, observando quais são as regras do jogo e o que precisa fazer para ainda permanecer no tabuleiro.

No Canadá da liberdade e da justiça, não sobrava quase nada para as mulheres.

Margaret Atwood e Sarah Polley, exímias contadoras de histórias, também sabem negociar com os elementos que revelam a humanidade de Grace, nos mostrando, de um lado, a singularidade da personagem, que a individualiza, e, de outro, sua condição de mulher, que a torna igual a todas as outras, na potência e na tragédia. Elas fazem isso dando espaço e tempo para que a personagem dialogue, assimile e incorpore (às vezes literalmente) as três outras mulheres que constituem a sua percepção de mundo. Cada uma delas é também singular, seja na subjetividade, seja no desejo: inicialmente, sua mãe, que, ao morrer, deixa em Grace a marca visceral da experiência de testemunhar a absoluta impossibilidade de escapar do fim da vida. A morte da mãe é uma baliza importante, porque impõe a Grace a necessidade de encontrar formas de isso não acontecer com ela tão cedo.

Tempos depois, sua amiga Mary Whitney, de forma trágica, também  mostrará a Grace outros caminhos de vida que, naquele tempo, poderiam levar ao mesmo fim que sua mãe teve. Embora repetisse seguidamente as frases de impacto que ouvia de Mary, Grace acabou sendo mais afetada pelo destino infeliz da amiga do que por sua personalidade solar e corajosa. Para a narrativa, esse é um efeito bastante plausível, já que desde o início Grace se revela uma sobrevivente, como são a maioria das mulheres num mundo que lhes nega direitos básicos e lhes mostra a sombra da violência e do desrespeito a cada minuto. A convivência e os aprendizados junto a Mary reforçam mais ainda em Grace a necessidade de negociação com a vida – uma forma de ação que, se abdica do desejo e da potência, lhe garante condições de sobrevivência, mesmo após os muitos infortúnios por que passa.

Por fim, Nancy Montgomery também mostra a Grace que suas escolhas de atitude foram as mais acertadas para seu projeto de sobreviver, já que a personalidade altiva e independente da moça pavimenta o caminho para sua própria destruição. Mas Grace, sendo cordata e gentil, com uma performance de moça delicada que desmaia fácil, não fica no caminho de ninguém, não representa ameaça para ninguém, e isso mais uma vez lhe permite seguir vivendo. Tendo sido acusada de crime capital junto com um homem sem que no julgamento se tenha podido definir quem fez o quê, Grace consegue sorte melhor que o suposto cúmplice, justamente por ter inspirado na sociedade uma compaixão de que ele, rapaz de personalidade revoltada e violenta, não pôde gozar.

No entanto, Grace sempre demonstra saber que as experiências dessas mulheres a constituem, e esse pormenor é para mim a maior beleza de Alias Grace. A personagem, é certo, está entre o vulgo, que é onde se situam todas as mulheres no imaginário machista, porque nele elas são todas iguais. A propósito, a igualdade na invisibilidade é um tema importante também em The Handmaid’s Tale, cujo figurino circunscreve as mulheres a grupos: cinza para as tias, azul para as esposas, bege para as empregadas, vermelho para as aias – todas de cabelos escondidos, para que nenhum traço de singularidade possa escapar. Mas, mesmo buscando também ser invisível, Grace deseja ser um indivíduo único, por meio da mesclagem com as experiências das outras mulheres que marcaram a sua vida e que, com sua morte, ajudaram a permitir que ela vivesse. Essas mulheres estão indelevelmente dentro ela, e isso nenhuma prisão e nenhum mundo falocêntrico e opressor podem lhe tirar.

Da imanência à transcendência: a vida como Arte

Encerro este texto mencionando a belíssima tradição de patchwork entre as mulheres da América do Norte, incluída na minissérie de forma a amarrar ainda mais fortemente as histórias das mulheres importantes na vida de Grace à sua própria história. Elevando uma tradição feminina à condição de Arte e de ação de singularidade, Margaret Atwood e Sarah Polley resgatam junto todas as práticas das mulheres ao longo da História, as quais são sempre tidas como menores e menos importantes, porque conectadas, como descreve Simone de Beauvoir, ao trabalho doméstico e imanente, e não aos projetos públicos e transcedentes, historicamente atribuídos aos homens.

Alias Grace, uma realização de mulheres poderosas: no sentido horário, Margaret Atwood, Sarah Gadon, Mary Harron, Noreen Halpern e Sarah Polley.

Ao lembrar a forte ligação das mulheres à natureza e à dimensão estética da vida, a autora e a roteirista mais uma vez demonstram ter plena consciência do fato de que milhões de nós ainda estejamos relegadas à invisibilidade e à miséria; mas, juntas, como coletividade, e reconhecendo aquilo que nos iguala, podemos criar empatias que possam gerar práticas de potência. A esperança que fica é a de que, mais do que apenas viver, essa potência nos permita também transcender. Abraçando essa consciência, muitas mulheres sempre estiveram, estão e estarão na linha de frente do agenciamento feminino no mundo. Precisamos trabalhar ainda mais para que todas estejamos lá, mas sem que muitas precisem, todos os dias, morrer para isso.

Assista a Alias Grace na Netflix clicando aqui.

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