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Kendrick Lamar – DAMN.

Kendrick Lamar – DAMN.

Nathan Amaral - 25 de abril de 2017

Revelado ao mundo no dia 14 de Abril DAMN. marca mais uma mudança na persona de Kendrick Lamar e o alavanca ao irrevogável status de um dos maiores rappers da história. Se não o maior.

Ao sacrificar as camadas e texturas do jazz desenhadas em seu sucessor, To Pimp a Butterfly, Lamar alcança uma obra de rap minimalista profundamente influenciada pelo pós-modernismo e pelo seu próprio contexto sociopolítico.

Assim sendo: superficialmente DAMN. não impressionará o ouvinte além das acrobacias sônicas que marcam a carreira e a qualidade técnica de Lamar e alguns recortes pontuais para temperar suas músicas. LOYALTY. e LOVE., em parceria com Rihanna e Zacari, respectivamente, são as mais palatáveis sob esse ângulo.

O verdadeiro disco, inevitavelmente, está nas letras: as quatorze faixas de DAMN. são carregadas com socos e pontapés, maldições e sermões de guerra e paz de uma comunidade assolada por um mundo que virou de cabeça para baixo em pouco menos de um ano.

Os cantos abertos de esperança e união de To Pimp a Butterfly, embasados na relativa estabilidade dos dois mandatos de Barack Obama e nas ondas de progressismo mundial, modificam-se em tom e grau em DAMN., assim como o mundo que cerca o seu criador e interlocutor: o inimigo (o reacionário, o racista, o xenofóbico) não somente o olha mais nos olhos como por cima, porque, agora, ele é o governo.

Os Estados Unidos da América, o nome que figura a esperança em mundo que vá caminhar lado a lado com suas comunidades, vá lutar pelos direitos femininos e vá refletir incessantemente sobre as necessidades de inserção do povo LGBTQ retornou ao nocivo status quo de ser, mais uma vez, a América: onde um Deus e um rifle cantam o chamado progresso e não respondem a ninguém que não seja igual ao projeto sanitarizado do homem-médio.

establishment, ilustrador de todo o conjunto de interesses do sistema capitalista moderno, neoliberal, e sua influência e diálogo com o Estado, na figura da campanha Hillary Clinton deu as mãos em um processo de auto-sanitarização hipócrita aos Estados Unidos da América e o perdeu em um embate clássico da engenharia política: o carismático.

Trump era incapaz. Despreparado. Sem coerência, etiqueta e finnesse. Trump era o anti-presidente que South Park e os Simpsons tanto amavam pregar na cruz do anti-presidencialismo estadunidense, um devaneio coletivo de péssimo gosto que provavelmente traria em sua eleição o apocalipse.

E Trump ganhou.

Alavancado pelo desespero, pelo despreparo, pela desinformação e pela falta de etiqueta, coerência e capacidade de uma realidade que Hillary e seu establishment esculpiram com sangue: o homem branco, devastado pela crise de hipotecas de 2008 passou a cantar em uníssono pela América, abençoada pelo cheiro do papel ortodoxo e da pólvora incansável.

DAMN. explora não somente a dor e a angustia de cair de uma posição tão alta e ser dissecado não como a esperança do sonho de Martin Luther King Jr. mas como, novamente, um alien como a resposta clara, dada pelos ensinamentos de Malcolm X: a necessidade de se proteger e se armar, nem que seja com sangue, contra um estado policial projetado por uma fábula de violência das periferias.

Esse é um disco que se inicia com uma morte e uma maldição, um disco que tem como primeiro sample, em BLOOD., uma notícia da Fox News inaugurando um estilo de narrativa que hoje é baluarte do cinismo de uma direita que já superou todos os seus limites abertamente.

O tiro da mulher cega que Kendrick conta que o mata, em BLOOD., pode facilmente ser o tiro que o partido democrata deu à todas as comunidades que apoiaram a campanha de Clinton.

Ler as frases sônicas de esperança e beleza incansável de To Pimp a Butterfly, em voos rasantes pelo jazz e pelo soul, pelas raízes musicais africanas que se unem e ressurgem com uma importância avassaladora pela cultura popular era embarcar em uma disputa pelo mundo. “Nós queremos o mundo e queremos agora.”

Onde o único inimigo ainda era o fantasma do apocalipse, onde o inimigo ainda era um palhaço vestido de terno e os corações e mentes daqueles que não entendiam e nunca entenderiam as vísceras obscuras da comunidade negra norteamericana e mesmo assim, não teriam escolha a não ser serem abençoados com a viagem caleidoscópica suja de sangue, dinheiro, institucionalização, gasolina e sexo que cria o evangelho comunal das letras daquele que se levantou como o maior de seus maiores interlocutores na última década.

“And we hate popo, wanna kill us dead in the streets fo’ so’, nigga
I am at the preacher’s door
My knees getting weak and my
Gun might blow but we gon’ be alright.”

Esse era o canto de guerra de que a vida negra importava. De que a brutalidade policial e o racismo eram um produto que, mesmo incômodo e representado pelo colarinho de alguns na casa do Homem – no Estado – não faria mais parte do seu DNA. O inimigo de “Alright” estava nas ruas e na discriminação.

E quando o inimigo adentra à casa do Homem, quando o inimigo ganha a guerra pelo mundo e retoma suas mãos tentando ceifar as conquistas deles e delas e de todos nós? É hora de reagir, sem perder a esperança, mas de reagir.

DAMN. foi anunciado com um sopro de descrença e envolto na visceralidade urbana que colocava Lamar como um anunciante do próprio apocalipse, mais do que um evangelizador. A morte não o assusta, a política decrépita não o assusta, nem mesmo o julgamento o assusta: a resposta é letal em sua simplicidade, pureza e é incansável.

Como os personagens de Kung-Fu dos cinemas, desenhos e quadrinhos da nossa infância.

Se um disco traz a esperança no voo efêmero de uma negritude que ganha o mainstream com a beleza que sempre a pertenceu e a gama de cores que sempre pôde criar, agora, neste momento o outro é a confirmação amaldiçoada de que a estrutura não será capaz de sufocar o que há de essencial em seu interlocutor.

Às armas que tanto o mundo envolta de Kendrick Lamar provoca – um mundo cuja guerra contra o sistema dá lugar a uma guerra contra si mesmo – um mundo onde os refletores de Kiekagaard estão na câmera frontal da luta de classes que não cansará de rugir pelos centros urbanos daquela América.

To Pimp a Butterfly é uma profecia, DAMN. é uma maldição.

A maldição voltada a estrutura política do progressismo que abandonou uma comunidade, a maldição voltada a tomada de poder por um partido que nem se importa nem estende o mínimo de sua simpatia ao modo como essa comunidade sangra.

A maldição factual e repleta de esperança e fé de que a comunidade negra sobreviverá mesmo que seus cantos de esperança sejam usurpados como violência.

Uma maldição “nestas quatorze faixas espalhadas em cera.” como canta Kendrick Lamar: em sangue, biologia, confirmação, elemento, sentimento, lealdade, orgulho, humildade, luxuria, amor, pornografia, medo, deus e em seu próprio nome.

DAMN. é o soco no espelho cujo sangue voltará a dar vida sempre que necessário.

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