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Apesar da Noite

Apesar da Noite

Matheus Fiore - 5 de abril de 2017

Gostar e reconhecer a qualidade de um filme são coisas totalmente diferentes, e acho que nunca vi um filme que representasse tal situação tão bem quanto Apesar da Noite. Com uma narrativa muito aberta à múltiplas interpretações e uma coleção de cenas que causam incômodo visual, essa obra do francês Philippe Grandrieux se mostra uma experiência audiovisual densa, ora confusa, ora explicativa demais, mas sempre fiel à sua proposta. Lenz (Kristian Marr) retorna à Paris após um longo tempo morando na Inglaterra a fim de encontrar Madeleine (Ariane Labed), paixão do seu passado que há muito desapareceu misteriosamente. Em seu regresso conhece Hélène, uma enfermeira que parece não ter conexão nenhuma com a própria vida por ser traumatizada por tragédias do passado. Ao aproximar-se de Hélène, Lenz encontra então uma pessoa tão quebrada quanto ele, e a partir daí acompanhamos o romance do “casal” intercalado com suas interações com outras pessoas do dia-a-dia.

Em ambos os personagens, é perceptível a necessidade de sempre fazer algo para desconectar-se do mundo. Para criar tal clima, Grandrieux e sua diretora de fotografia, Jessica Lee Gagné, usam planos fechados e de muita mobilidade por quase todo o filme, focando sempre nos rostos dos personagens, suas mãos e órgãos sexuais. Tal escolha cria um conceito visual bastante incômodo (o que não é ruim). O resultado é uma mistura do jogo de planos de O Filho da Saúl com A Árvore da Vida, usando a claustrofobia do primeiro com os quadros de confusão e lisergia do segundo. Já quando os personagens estão com a mente desocupada, caminhando pelas ruas de Paris e pensando na vida, a fotografia volta a ser estática, com planos mais lúcidos e de profundidade de campo longa (permitindo que a ambientação também tenha destaque). Como resultado, compreendemos que quem está em cena está, no momento, consciente, e por tanto, triste.

A necessidade do escapismo persegue os personagens por todo o filme. Quando “entorpecidos”, há diversos elementos que ajudam a criar o tom de ilusão e desconexão necessários: o fundo totalmente escurecido, sem nenhuma iluminação; a manutenção de uma fumaça entre os personagens; o desfoque pela curta profundidade de campo (que pela técnica bokeh, torna as luzes do ambiente desfocadas e arredondadas, fortalecendo o tom de “sonho” das cenas). E nesses momentos de fuga psicológica, os personagens constantemente recorrem aos instintos mais básicos do ser humano: a violência e o sexo. Aliás, muitas vezes optam por ambos, como se o prazer pela dor fosse uma forma de purificação e martirização deles.

As cenas de sexo (que estão presentes em quase toda a projeção) deliberadamente não trazem sensualidade nenhuma. Além de sempre terem imposição física e estupro por parte de algum personagem, os envolvidos nunca demonstram nenhum prazer em suas expressões (o que é fortalecido pelas fantásticas atuações de Kristian Marr e Ariane Labed, sempre com angústia e melancolia em seus rostos). Aqui, a fotografia mais uma vez é inteligente ao estourar uma forte luz sobre os corpos dos personagens em alguns momentos, deixando-os esbranquiçados e sem vida, parecendo verdadeiros cadáveres. Diferente do que estamos acostumados, o sexo aqui é o momento de maior incômodo da obra.

Vale destacar ainda como a câmera sempre móvel, está ora próxima dos personagens, ora entre eles durante os diálogos. O objetivo é tornar o público o mais próximo possível das situações do filme, a fim de fortalecer o incômodo visual proposto pelo longa. Em certos momentos, a obra chega a flertar com um voyeurismo doentio que é de uma ousadia e aptidão artística louváveis. E tal inserção do espectador na “ação” do filme é cada vez mais imersiva, até chegar ao ponto de que, num dado momento de Apesar da Noite, nós nos percebemos no meio de uma situação e vemos, ao lado, outro personagem filmando os personagens, como se estivéssemos, naquele momento, totalmente sincronizados com a obra e com as dores de seus protagonistas.

Há pequenos tropeços que não prejudicam a experiência de assistir Apesar da Noite, mas que tornam a construção narrativa um pouco frágil. Em boa parte do filme, o roteiro evita cuspir a história para seu público, fazendo desta apenas um canal para a experiência audiovisual proposta por Grandrieux, mas há momentos em que o texto, para construir o clímax, se torna mais linear do que o conceito proposto pelo filme, criando conflitos muito superficiais entre alguns personagens. Nem estes momentos, porém, são capazes de prejudicar a fantástica obra francesa, trazendo metáforas visuais incríveis. Perceba, por exemplo, como na cena em que alguns dos personagens têm suas imagens sobrepostas às de um peixe, o diretor abre então um arco de interpretações sobre o simbolismo do animal, que vai desde a necessidade de seguir a vida apesar das perdas à ideia de que as pessoas por ele retratadas se comportam como animais irracionais.

Apesar da Noite é um filme sensorial. Utiliza sua trilha, atuações e fotografia para construir uma ambientação suja, agressiva e deliberadamente desconexa, independente do cenário utilizado. É um exercício de arte que testa nossa percepção como público ao mesmo tempo que traz uma melancólica e soturna narrativa sobre a incapacidade de algumas pessoas de superar seu passado e procurar em seus instintos o escapismo da realidade. O caminho da autodestruição que nos livra de nossos fantasmas a curto prazo, mas que com o tempo adoece física e mentalmente, podendo nos levar ao padecimento e à morte.

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