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Ashley Madison: Sex, Lies and Cyber Attacks

Ashley Madison: Sex, Lies and Cyber Attacks

Gustavo Pereira - 10 de fevereiro de 2017

O sucesso do site de relacionamentos Ashley Madison, voltado exclusivamente para pessoas casadas que buscam por um affair, supera a questão conjugal. Entram em discussão, além da própria natureza dos relacionamentos contemporâneos, a hiper-sexualização de mulheres, a leniência da imprensa e natureza selvagem do capitalismo, pronto para tirar vantagem das fraquezas humanas. Estimulando-as, se necessário.

A proposta deste excelente documentário produzido pelo britânico Channel 4 é seguir os passos posteriores ao vazamento dos dados de 36 milhões de usuários feito pelo grupo hacker que se intitula Impact Team. Apesar do óbvio estrago que tal vazamento causou (incluindo dois suicídios), este não foi o fim, mas o começo de uma investigação que descobriu algo ainda pior por trás dos empreendimentos do grupo Avid Life Media (ALM), proprietária do Ashley Madison.

Este grupo teve um lucro bruto, antes da dedução de impostos, de 55 milhões de dólares em 2008, quando a crise econômica assolava os Estados Unidos. O fundador e CEO Noel Biderman batia cartão em programas de entrevista. Era conhecido como “Rei da Infidelidade”. O que não se sabia até então era que Biderman também traía, e não apenas sua esposa. Em um sistema que exigia pagamento para homens responderem às mensagens recebidas de mulheres, o Ashley Madison usava robôs para puxar papo com homens. Além disso, alguns sites da ALM tinham o óbvio objetivo de promover a prostituição de mulheres. Explorando cada fetiche masculino possível, o objetivo de Biderman era um só: lucro.

A diretora Havana Marking faz um trabalho primoroso ao desconstruir a linguagem do Ashley Madison. Relatos de terapeutas de casais são distorcidos para vender a falsa ideia de que trair é natural. Em dado momento, o site se apresenta como um “minimizador de danos”, pois evita que as pessoas traiam seus parceiros com pessoas próximas de seu círculo social. Visto que trair é “inevitável”, que seja com alguém “limpo”. Biderman também não tinha nenhum problema em se aproveitar da ruína alheia para divulgar seu empreendimento, como quando criou o torneio “Amante Tiger Woods” para aproveitar o fim do relacionamento do golfista, pego em adultério. Numa charada ao melhor estilo “o biscoito vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”, o Ashley Madison ajudou a banalizar o ato de trair para que mais pessoas se sentissem motivadas a fazê-lo.

Em um caso clássico de Lei do Retorno, o homem que ameaçou desafetos acabou sendo ameaçado por hackers e, ao não atender suas exigências, viu seu castelo de cartas ruir. Não foi por falta de aviso: um hacker “cartola branca” havia invadido seu database antes do vazamento e o alertado para os riscos. Não deu atenção.

Esta rede, que não deixa de ser fascinante por retratar uma era da sociedade, reúne o maior número de usuários em áreas de interior, majoritariamente conservadoras. Um deles diz: “é apenas uma transa, não há os riscos do namorado”, o que talvez ajude a explicar porque 36 milhões de pessoas decidiram planejar em detalhes seus adultérios.

Estamos perdendo nossa capacidade de nos conectar com o outro. Mesmo que o outro esteja casado conosco. A Netflix acrescenta mais um excelente título ao seu catálogo. Confira clicando aqui.

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