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Black Mirror 4×01 – USS Callister

Black Mirror 4×01 – USS Callister

Matheus Fiore - 29 de dezembro de 2017

Black Mirror nunca foi sobre tecnologia. Talvez seja o maior pecado daqueles que adoram o programa imagina-lo simplesmente como uma crítica à nossa relação com internet, celulares e demais aparelhos tecnológicos. Não é à toa que o primeiro episódio, Hino Nacional, não traga nenhuma inovação tecnológica. É simplesmente um suspense ambientado no mundo como o conhecemos. Black Mirror sempre utilizou a tecnologia como uma forma de mostrar ora a nossa atual realidade, ora um futuro próximo para o qual caminhamos.

USS Callister, primeiro episódio da quarta temporada, é um dos que melhor sintetizam o verdadeiro conteúdo da série até hoje. Na trama, Robert Daly (Jesse Plemons, o odioso Todd, de Breaking Bad) é um importante programador de jogos. Ele cria Infinity, um jogo multi-player online que simula um universo semelhante ao de Star Trek, nos moldes dos atuais MMORPG. Descontente com a vida que leva, Daly cria, em sua casa, uma versão própria e modificada do jogo, mantendo uma estética totalmente baseada em Star Trek, mas com um porém: em sua nave, há clones idênticos de pessoas de sua vida offline. O chefe egocêntrico, o bully do trabalho, a estagiária nova, e por aí vai. Até aí, bem estranho, mas ok. O problema é que estas cópias possuem a consciência e a memória de suas versões vivas.

Ao contrário da crítica rasa que USS Callister seja “uma crítica ao vício em games” e coisas parecidas, o episódio tem seus conceitos bem claros. O capítulo se inicia com uma curta aventura no mundo “startrekiano”, com Daly sendo o grande herói de uma missão, bajulado pelos colegas e beijado pelas moças da nave. Em contraste, na cena seguinte, acompanhamos seu dia-a-dia, bem oposto ao que ocorre no videogame: Daly é, apesar de um programador brilhante, subjugado por seu chefe, diminuído por companheiros de trabalho e admirado apenas por uma figura externa, a nova estagiária, Nanette Cole (Cristin Milioti).

A relação óbvia é a da vingança. Plenamente insatisfeito com sua realidade, Daly cria um mundo paralelo no qual é capitão, líder e Deus. É uma resposta ao bullying e à desvalorização que sofre na vida real. Inteligentemente, porém, o episódio nunca justifica suas atitudes. Seu fracasso social nunca aparece como uma “autorização” para ser babaca, mas como elemento moldador de sua condição, apenas. 

Aliás, é importante ressaltar que, na nave pessoal de Daly, não estão apenas figuras que o maltratam. Lá há os que do programador riem e debocham, os que dele abusam, mas há também pessoas inofensivas, como um dos programadores de sua empresa, que mal interage com ele offline – a não ser quando precisam resolver questões de projetos do trabalho – e, lá está, como escravo do menino que não aceita ser contrariado.

O episódio ainda encontra espaço para adicionar, por meio de trechos sutis, elementos à personalidade de Robert Daly. O fato de os personagens (ou prisioneiros) do jogo não terem órgãos sexuais, por exemplo, indica não só a castidade de Daly, mas, até uma visão fundamentalista cristã – vale lembrar que, quando confrontado, Daly berra para seus escravos que vai “fode-los bíblicamente“.

Tecnicamente, o episódio traz escolhas interessantes principalmente nas variações de planos. Quando Nanette chega ao jogo, por exemplo, o episódio a utiliza como guia do público, trazendo sua figura como a questionadora que pedirá explicação sobre todos os conceitos daquele micro-universo que ela agora habita. Por seu desconhecimento e confusão diante das novidades, a câmera constantemente utiliza ângulos diagonais, que imprimem insegurança e desordem, justamente a situação mental de Nanette.

Interessante também é o trabalho de fotografia, que contrasta um mundo in-game colorido e saturado, que mostra-se vívido e emula também a estética da série Star Trek, com um mundo frio no escritório de Daly. Já na casa do grande vilão, há o uso de uma baixa iluminação, que evoca tanto o lado sombrio do personagem quanto sua solidão. Aliás, a solidão é um grande elemento formador de Robert Daly, que parece só interagir com pessoas reais quando no trabalho ou quando atende o entregador de pizza. A versão “startrekiana” de Infinity é não só sua forma de “brincar de Deus”, mas seu único momento de aceitação e convívio sem hostilidade (para ele, no caso, já que em seu game, Daly hostiliza a todos).

USS Callister é um episódio conciso e preciso em sua crítica, utiliza a tecnologia de maneira eficaz: ela é apenas um meio para que a série discuta outro tema. No tempo dos bullies de internet, o episódio claramente demonstra interesse em fazer de sua narrativa uma alegoria para como a rede, muitas vezes, surge como uma máscara, que permite os covardes e cruéis revelarem seu verdadeiro caráter. Robert Daly não é o único monstro que tira a máscara diante da tela de um computador, é só um monstro com mais dinheiro e recursos.

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