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Chocolate e a construção histórica da cognição sobre raça e gênero

Chocolate e a construção histórica da cognição sobre raça e gênero

Ana Flavia Gerhardt - 20 de junho de 2017

Este artigo contém spoilers sobre toda a trama do filme.

Há mais ou menos uma década, eu mais três amigos saímos em passeio ao Rio de Janeiro e quisemos ir ao Canecão, em Botafogo, para assistir ao show do Ney Matogrosso. Assim que chegamos à bilheteria, sentimo-nos categorizados (na verdade, eu não, porque passei ali absolutamente invisível) pelo olhar dos funcionários da casa, que imediatamente julgaram e nomearam, quase explicitamente, meus três amigos: minha amiga mais velha, que apreciava usar vestidos e saltos altos, era a madame; meu amigo negro de quase dois metros de altura era o segurança da madame; e minha amiga negra e jovem era a passista de escola de samba, provavelmente procurando algum trabalho por ali.

A leitura que eu e meus amigos fizemos dessa cena, que já deve ter acontecido com muitos dos que leem este texto, não entrou na conta da banalidade a ela normalmente atribuída num país racista e machista como é o Brasil. Em vez disso, quisemos recuperar a base de sentidos que a alicerça e perpetua, e concluímos que o que houve com eles foi que os padrões históricos de raça e gênero construídos ao longo da história brasileira, que definem a forma como usualmente avaliamos as pessoas em espaços públicos e privados, impuseram-se sobre o olhar dos funcionários do Canecão. Isso ocorre porque, no geral, o que aprendemos a pensar sobre as pessoas fundamenta o que pensamos delas, a menos que descolemos esse aprendizado da naturalização que o caracteriza, falando e, sobretudo, pensando, sobre ele.

Essa leitura das coisas para além do factual, reconhecendo as bases de pensamento que as instanciam, tem sido feita sistematicamente por mais e mais pessoas, não apenas aquelas que sofrem preconceito, mas também aquelas que fazem parte dos grupos sociais privilegiados e exploradores. A evolução desse reconhecimento talvez seja uma das maiores conquistas da contemporaneidade.

Sempre trago às conversas com amigos e alunos a fala da Professora e pesquisadora em feminismo Margareth Rago, em entrevista no youtube sobre a violência contra as mulheres: é claro, diz Rago, que as mulheres sempre foram assediadas e abusadas de muitas formas, mas até algumas décadas atrás não havia linguagem para falar sobre assédio e abuso, e assim não era possível identificá-los como atos de violência.

À fala da Professora Rago, acrescento que não havia linguagem porque não havia formas de cognição sobre a realidade complexa do machismo, para nos ajudar a entender que alguém passar a mão na gente no ônibus, o companheiro bater na gente e nos estuprar, as oportunidades de emprego se condicionarem a favores sexuais, nossa opinião não ser acreditada, não termos autonomia sobre nossos corpos, sermos vendidas como objetos, não podermos expressar nossa vontade e opinião, os lugares de poder nos serem negados etc. etc. são questões diferentes apenas epidermicamente, porque são variantes de uma mesma categoria social, que é o machismo. E, acreditem, não é fácil entender isso.

Enquanto não construímos uma cognição sobre o machismo, não dispúnhamos nem de linguagem nem de bases de conhecimento que nos permitissem reunir fatos recorrentes da nossa vida em torno de um padrão de violência conceptualizado como machismo. Por isso é que não podíamos reconhecer nem nomeávamos como machismo o machismo que sobre nós tem sido imposto desde priscas eras. Mas essas bases estão lentamente sendo formadas e melhoradas, daí hoje podermos falar sobre elas, na iniciativa de fazer com que mais e mais pessoas as reconheçam como formas legítimas de descrição de muito do que acontece em suas vidas.

Nunca é demais afirmar que o diálogo sobre a construção histórica das formas de cognição e de linguagem que facultam o reconhecimento e a problematização do preconceito a quem o sofre é fundamental a campos do conhecimento como o feminismo, porque acredito que a mulher se torna feminista quando passa problematizar sua própria condição de mulher.

Preciso justificar esse longo preâmbulo tratando do machismo e do feminismo para falar de um filme sobre racismo, que é o caso de Chocolate, dirigido por Roschdy Zem e estrelado por Omar Sy, que interpreta o papel-título. Assumo aqui que raça e gênero são as duas categorias estruturadoras de todas as sociedades humanas, portanto muitas das formulações de pensamento que se aplicam ao gênero podem perfeitamente ser pensadas para discutir raça.

O estado de coisas que produz e perpetua o machismo envolve os mesmos elementos que engendram o racismo. Não é suficiente que se trabalhe de graça e se seja posto em condição de indigência; é preciso que se construa uma ordem discursiva e cognitiva que leve os que são oprimidos por ela a aceitarem como verdades absolutas e, muitas vezes, acreditarem que merecem, a condição social que lhes foi imposta, e isso inclui a humilhação psicológica e física, a violência e a desumanidade. Quanto mais destroçadas, mais rapidamente as pessoas aprenderão qual é o seu lugar.

Então, muito do que está dito acima também serve para que eu teça comentários que estejam minimamente à altura desse poderoso filme, que não teve ainda a repercussão que merece (embora possamos encontrar discussões em português sobre ele.

Rafael Padilha nasceu escravo nas lavouras de cana-de-açúcar cubanas e presenciou a humilhação sofrida por seu pai, mucamo da casa grande tratado como animal de estimação por seus senhores. Comprado e levado à França, consegue chegar à vida adulta como homem livre, apresentando-se em pequenos circos como um canibal, criatura exótica que mete medo nas criancinhas das cidades pequenas. Em um desses circos, conhece o palhaço Georges Footit (James Thiérrée, ator muito interessante e, por acaso, neto de Charles Chaplin, a quem lembra no rosto, no olhar angustiado e no comportamento enigmático que confere ao personagem ao longo do filme), que enxerga a possibilidade de constituírem uma dupla. O feeling de Footit é certeiro, e eles se tornam a dupla Footit e Chocolat, alcançando grande sucesso em Paris.

De início, Rafael não percebe as bases de conhecimento que está reproduzindo ao personificar, na dupla de palhaços, a subjetividade destinada aos não-europeus daquela época: o escravo boçal, preguiçoso e desobediente que merece ser chutado e estapeado. Por algum tempo, Rafael acreditou que apenas estava fazendo as pessoas rirem, e essa sua ilusão é uma das grandes causas do sucesso das ações combinadas de Chocolat e Footit, que se encaixavam à perfeição nas formas de cognição historicamente construídas sobre raça no fim do século XIX e início do século XX, as quais facultam, entre outras violências inimagináveis, a exibição de famílias africanas inteiras em jardins zoológicos junto aos outros animais.

A animalização também atinge Rafael, que é retratado como um chimpanzé em um dos cartazes da dupla de palhaços, e a falta de condições cognitivas e linguísticas de possibilidades para reconhecer como isso é hediondo leva a que, em vez de mudar o desenho de Chocolat, se sugira retirar a figura de Footit. A gente só consegue entender um pouco a incapacidade das pessoas daquela época de conceptualizar o horror que isso representa quando reconhece que, naquele tempo, era assim que se pensavam, numa dimensão social, as diferenças raciais.

Entretanto, como sempre ocorre, havia quem destoasse desse zeigeist, e Rafael pôde encontrar uma dessas pessoas, chamada Victor, que lhe apresenta novas formas de dizer e pensar sobre o que significava ser um homem negro vivendo na Europa do início do século vinte. Ouso pensar que, se Rafael tivesse podido acumular um lastro de conhecimentos prévios capazes de lhe permitir superar as contradições que estava começando a reconhecer, sua história teria sido diferente. Victor o introduziu no necessário caos linguístico, cognitivo e emocional que toda crise existencial provoca, mas a ordenação desse caos e o preparo emocional para enfrentar os problemas que viriam requerem saberes e práticas, sobretudo de autoconhecimento, que a Rafael não estavam disponíveis. Sua fragilidade emocional não apenas decorre da tragédia da sua infância, mas também se dá porque em seu entorno não havia outros interlocutores que pudessem reconhecer junto com ele a nova realidade pessoal que ele estava começando a estruturar.

Mas preciso dizer que essa falta de lastro não é algo que atinge apenas aos que compõem grupos minoritários e oprimidos. Footit, que tem sua homossexualidade sugerida pelo filme, também carece dessas mesmas impossibilidades de cognizar e falar acerca das contradições que testemunha e vive, já que não consegue compreender as demandas de interlocução de Rafael, nem parece reconhecer em si mesmo formas e caminhos de compreender seu próprio desejo.

Testemunhamos a legítima revolta e recusa do personagem em continuar a ser a parte inferiorizada da dupla Chocolat e Footit, que Omar Sy constrói de forma inteligente, emocionada e afetadora no terceiro ato do filme. Sy nos leva a reconhecer em Rafael não apenas o processo de deixar de caber naquele lugar, como também o talento de ator que o personagem percebia em si mesmo, e que chega ao ápice na sua interpretação de Otelo, que me deixou quase sem ar, não apenas pelo que essa cena representa no arco narrativo do personagem, mas também pelo inegável amadurecimento artístico de Sy, que me cativou de graça em Intocáveis.

Faltaram a Rafael compreensão e autoconhecimento para lidar com o fato de que a problematização que tinha começado a realizar sobre si e sobre o mundo quase nunca se acompanha de uma reestruturação social que permita, pelo menos, que as pessoas ouçam o que temos a dizer, por mais importante e imperiosamente necessária que seja a nossa fala. Foi por esse motivo que ele não conseguiu se fortalecer individualmente para superar o rebote violento de toda uma sociedade branca contrariada, que rechaçou sua ação de singularidade em ser o primeiro negro a interpretar Otelo.

Ora, antes Rafael era aceito e amado porque não desafiava ninguém; fazia exatamente o que a sociedade de sua época esperava dele, não para torná-lo um dos seus, mas para suportar sua presença em seus círculos: ele estaria ali enquanto os divertisse, ou garantisse seu conforto, ou sua segurança. Portanto, não é de espantar a maneira como o execraram, independente das qualidades artísticas da sua atuação: analogamente ao que ocorreu com meus amigos no Rio do século vinte e um, ela resultou da imposição dos padrões históricos raciais da França pré-Primeira Guerra, violenta a ponto de invisibilizar completamente a sua imagem individual. Rafael nunca foi visto como uma pessoa.

As consequências do movimento de Rafael Padilha para ser o artista que desejava, descritas no filme, ajudam a tornar absolutamente necessário que falemos cada vez mais sobre preconceito de raça, gênero, sexualidade, classe, linguagem, cognição e tudo o mais, para que possamos, como sociedade, não apenas construir práticas de discussão e debate que permitam novas cognições e novas linguagens. Precisamos também acolher como interlocutoras as pessoas que começam pouco a pouco a problematizar sua própria condição pessoal e social, para que elas se fortaleçam em seu desejo de singularidade.

Essas ações se tornam ainda mais imprescindíveis quando percebemos, em particular na sociedade brasileira contemporânea, que os poucos direitos sociais conquistados com tanta luta de tantas pessoas podem ser perdidos a qualquer momento: me horroriza reconhecer que, já com amplas possibilidades de denunciarmos o racismo e o machismo como construções históricas, sociais, linguísticas e cognitivas, ainda haja quem ainda não os problematize, e olhe para meus amigos esperando deles a mesma coisa que esperaram de Rafael. Isso significa que, a par do muito que se fez e se disse, ainda não é o suficiente.

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