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Retrospectiva 2017 – O ano do cinema nacional

Retrospectiva 2017 – O ano do cinema nacional

Redação - 27 de dezembro de 2017

Por Marçal Vianna

O ano de 2017 não foi dos melhores para o cinema nacional. Houve uma queda de mais de 30% de público em relação ao ano passado e apenas três filmes bem distintos conseguiram atingir o público de um milhão de espectadores. Foram eles: “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”, “Os Parças” e “DPA – Detetives do Prédio Azul”.

Nenhum filme fez mais de dois milhões de espectadores. Não houve nenhum hit instantâneo. Paulo Gustavo quebrou recordes de bilheteria com o seu “Minha Mãe é Uma Peça 2”, mas o filme é do final de 2016. E, sejamos francos, não tivemos nenhum grande sucesso de crítica ou um  poderosíssimo filme esmagador/ganhador de prêmios como foi “Aquarius” no ano passado.

O Brasil até conseguiu entrar na mostra competitiva do Festival de Berlim com o inexpressivo “Joaquim”, mas o filme não gerou burburinho algum e até foi ofuscado por “Como Nossos Pais”, pequena pérola cinematográfica de Lais Bodanzky, que estava sendo exibido em uma mostra paralela e acabou ganhando mais atenção da mídia internacional do que o longa brasileiro que estava na competição oficial.

Fora isso, “Gabriel e a Montanha” conseguiu se sair bem no Festival de Cannes e até fez mais público na França do que aqui no Brasil – lugar onde amargou uma bilheteria de pouco mais de 30 mil espectadores. E também tivemos “Bingo – O Rei das Manhãs”, excelente filme de estreia de Daniel Rezende como diretor, que acabou sendo o nosso escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar. O problema é que o filme não teve passagem alguma por festivais ao redor do mundo e acabou sendo desclassificado da competição. Ou seja, o Brasil (de novo) não vai levar o Oscar, mas, pelo  menos, não enviamos nenhum “Pequeno Segredo” para a competição desse ano. Ufa.

E de maneira mais tímida e em festivais menores, “Corpo Elétrico”, “Divinas Divas”, “As Duas Irenes”, “A Cidade Onde Envelheço” e “O Filme da Minha Vida” também tiveram exibições – e prêmios – no exterior. E assim vamos vagarosamente desmistificando o ditado popular de que “filme brasileiro é ruim”.

Análise dos campeões de bilheteria – por que três filmes tão distintos conquistaram o público?

Detetives do Prédio Azul e os filmes infantis de 2017

Pode não parecer, mas o cinema nacional possui um forte histórico de filmes infantis em seu currículo. Se pegarmos a lista dos filmes brasileiros mais vistos de todos os tempos, nós veremos várias obras de  Xuxa e Os Trapalhões.

Desde que a Rainha dos Baixinhos parou de fazer filmes, a única obra nacional infantil que vingou nas bilheterias foram os dois longas da novela “Carrossel”. Existe uma busca por conquistar o público infanto-juvenil em todo o mundo e a TV sempre foi uma peça fundamental nessa conquista.

Detetives do Prédio Azul estreou em julho  – época de férias –, disputou público diretamente com Carros 3 nas bilheterias e conseguiu se sair bem. E olha que estamos falando de uma série exibida somente na TV a cabo e esporadicamente na TV Brasil. Já estava mais do que na hora de “DPA” possuir o seu próprio filme: a série já está em sua oitava temporada e possui um público fiel. A adaptação para o cinema foi um tiro certeiro em um ano em que outras obras infantis não conseguiram se sair tão bem nas bilheterias.

Renato Aragão voltou aos cinemas com Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo à Hollywood, mas o filme amargou uma péssima bilheteria e teve quase nenhum burburinho. As animações Historietas Assombradas e As Aventuras do Pequeno Colombo também foram ruins de público. “Pequeno Colombo”, por exemplo, não conseguiu vender nem 900 ingressos na sua semana de estreia. E estamos falando de um filme que demorou quase dez anos para ser concluído e que ainda contou com a última participação de José Wilker em um filme nacional.

Até Larissa Manoela, a musa teen do momento, penou para conseguir levar mais de 500 mil espectadores para a sua comédia Meus 15 Anos. Marcus Majella, o Ferdinando do “Vai que Cola”, também é outro nome popular que tentou focar o seu Um Tio Quase Perfeito para o público infantil e teve uma bilheteria apenas razoável, o que apenas confirmou “DPA” como o grande sucesso infanto-juvenil do ano.

Os Parças e o desgaste nas comédias nacionais

Aos 45 do segundo tempo, Os Parças conseguiu emplacar como uma das maiores bilheterias nacionais de 2017. Como entender o sucesso do filme em um ano em que o público já parece estar cansado das comédias nacionais? O filme tem Whindersson Nunes e Tirullipa –  dois grandes nomes da internet – em seu elenco, mas isso não é garantia de público: Eu Fico Loko, Internet – O Filme e Gosto se Discute são exemplos de filmes que possuem grandes estrelas da internet em seus respectivos elencos e não cumpriram suas expectativas comerciais.

É fato: alguns anos atrás houve o “boom” das comédias nacionais e qualquer produção meia boca com uma grande estrela já conseguia bons números de bilheteria. Hoje não. Chocante, por exemplo, reuniu um forte time de comediantes em seu elenco, teve grande divulgação e não correspondeu às expectativas. TOC, o filme da celebrada Tatá Werneck, também era uma das grandes apostas de bilheteria. Não vingou. Amor.com, A Comédia Divina, Duas de Mim, Os Penetras 2, Gostosas, Lindas e Sexies, Divórcio… A lista de filmes é grande.

O curioso de Os Parças é que a trama inteira se passa em São Paulo, mas o filme tem uma forte ligação com o nordeste brasileiro: Whindersson Nunes e Tirulipa, as estrelas do longa, são oriundos de lá e o filme teve a maior parcela de sua bilheteria nos cinemas nordestinos. Com isso, nós levantamos o questionamento: seria Os Parças uma comédia de nicho? Anos atrás, Cine Holliúdy foi um verdadeiro fenômeno de bilheteria nos cinemas regionais e levantou uma importante questão: as comédias nacionais precisam urgentemente se reinventar e explorar mais o público de diferentes regiões do Brasil.

Polícia Federal fazendo dinheiro com a polêmica midiática

Tropa de Elite, Cidade de Deus, Carandiru… O cinema nacional possui uma queda por filmes policiais. É um ultraje comparar Polícia Federal – A Lei é para Todos com qualquer um desses títulos, mas essas são as fontes das quais o filme tenta descaradamente beber. Filmes históricos não costumam fazer muito sucesso – e tivemos Real – O Plano por trás da História esse ano para comprovar isso -, mas a grande sacada de Polícia Federal foi dramatizar um tema atual e levar célebres personagens do atual cenário político brasileiro para as telas do cinema. Se aproveitando da crise política, a obra levou para as telas a sua versão romantizada e tendenciosa sobre um caso que ainda está longe de terminar: o escândalo da Lava-Jato. Misturou tudo isso com um toque de ação e comédia para que o filme ficasse mais acessível e a obra deu certo. Oportunismo? Picaretagem? Não importa. Polícia Federal foi a maior bilheteria nacional desse ano e a única que se aproximou do público de dois milhões de espectadores. Será que teremos mais filmes sobre o cenário político atual? De qualquer forma, o sucesso de Polícia Federal é curioso. Lula – O Filho do Brasil foi lançado no ápice do governo petista e não fez um público plausível. O brasileiro parece ter se engajado mais por temas políticos nos últimos anos. E  pior ainda é ver a maneira manipuladora com que isso está sendo feito.

De qualquer maneira, Polícia Federal causou burburinho e dividiu com Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, o título de filme brasileiro mais polêmico (e comentado) do ano. A diferença é que Polícia Federal conseguiu lucrar com isso. O Pior Aluno da Escola, não. A comédia de Danilo Gentili sofreu boicote nas redes sociais e foi apontada como um dos piores filmes do ano. A cena em que uma criança segura o pênis de Fábio Porchat também pareceu não incomodar muito os pais mais conservadores que decidiram difamar uma exposição de arte esse ano, né? Mas esse já não é um assunto para debatermos aqui.

O que importa é que as expectativas para 2018 são boas!  Fecharemos o ano de 2017 com a estreia de um filme que promete ser um hit do verão: Fala Sério, Mãe! traz Ingrid Guimarães e Larissa Manoela juntas na adaptação do best-seller de Thalita Rebouças; Benzinho, Ferrugem e The Cleaners são três filmes brasileiros que já estão selecionados para o Festival de Sundance e a Ancine prometeu reverter mais recursos para a distribuição de filmes no ano que vem e assim todos poderão ter mais acesso aos filmes brasileiros. Ou seja, 2018 tem tudo para ser um ano bom! E viva o cinema nacional.

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