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Colossal
Nota:

Colossal

Matheus Fiore - 13 de junho de 2017

Em uma era de remakes, reboots e incontáveis continuações, é bacana que haja filmes como Colossal, que conseguem abordar temas importantes com uma amálgama de gêneros e conceitos visuais diferentes do comum. Mesclar alegorias ao alcoolismo com comédia e monstros gigantes realmente é algo que exige alguma criatividade. Apresentar as ideias, porém, não é o suficiente. Há de se saber transforma-las em um bom roteiro, com arcos dramáticos, pontos de virada e clímax. E nisso, infelizmente, Colossal fracassa.

A trama conta a história de Glória (Anne Hathaway), uma escritora com problemas alcoólicos que, após chegar embriagada na casa do namorado pela “milésima” vez, vê o rapaz terminar o relacionamento e a pedir para ir embora. A jovem, então, volta à sua cidade natal e tenta recomeçar a vida trabalhando no bar de um amigo de infância, Oscar (Jason Sudeikis). A situação sai do triste para o bizarro quando um monstro gigante ataca a cidade de Seul, na Coréia do Sul, e Glória descobre poder controlá-lo.

O problema com álcool da protagonista é estabelecido, mas muito pouco desenvolvido ao longo do filme. Tanto sua primeira cena com o ex-namorado quanto sua chegada à cidade da infância, quando a primeira coisa que nota no bar de Oscar é a prateleira de bebidas, são eficientes para mostrar como a personagem se vê dependente da bebida. Os planos com um leve aproximamento da câmera e um som abafado são uma excelente escolha para destacar como a presença da bebida transforma o ambiente para a personagem. Infelizmente, o roteiro não só não desenvolve tal relação, como em momento nenhum vai além de traçar um paralelo entre a embriaguez de Gloria e o monstro que se materializa em Seul.

A ideia inicial é clara: ao beber, a personagem perde o controle de suas funções motoras e “desliga” sua consciência, perdendo a noção da realidade e de suas atitudes. Gloria, afinal, não se lembra de nada no dia seguinte. O problema é que, posteriormente, descobrimos que o monstro não só é real como não tem ligação nenhuma com a bebida. Gloria passa a controlá-lo inclusive quando está sóbria. A narrativa, então, abandona qualquer viés crítico-analítico e se torna uma simples história de monstros gigantes enfrentando robôs. E o buraco se torna ainda maior quando o filme que sobrevivia pelo desapego à realidade faz questão de explicar a origem de cada um dos elementos fantásticos apresentados.

O antagonista, Oscar, também não é bem desenvolvido pelo script. Nacho Vigalondo parece não saber o que quer de seu personagem. Há aqui e ali alguns elementos que sugerem que o personagem não é boa pessoa, mas o salto de “amigo simpático” para “lunático que quer destruir o mundo” é muito brusco. É, literalmente, de uma cena para outra, não tendo o desenvolvimento necessário para compreendermos sua transformação. E já após a primeira “guinada para o mal” do rapaz, o filme ainda tenta inserir uma pseudo-redenção na cena em que ele conversa com Gloria em sua casa. Uma cena que, graças ao mau trabalho de montagem e edição, fica totalmente desconexa com o resto da narrativa, que abre mais um leque de possibilidades que são simplesmente ignoradas posteriormente. O personagem busca uma redenção para, minutos depois, voltar mais perverso do que nunca, tornando os momentos anteriores totalmente descartáveis.

Ainda é desperdiçada a possibilidade de falar sobre relacionamentos abusivos (tanto Oscar quanto o ex de Gloria abusam psicologicamente da moça), mas o diretor parece nem perceber o cenário que ele mesmo construiu e, com extremo mau gosto, transforma alguns momentos de claro abuso em… Humor. Diversas vezes Gloria recebe ordens dos outros personagens e, sem esboçar qualquer reação, as cumpre de cabeça baixa. Claro que a existência do machismo no caráter dos personagens é compreensível, pois são humanos em uma obra de ficção, afinal. Mas utiliza-lo apenas como alívio cômico, como é feito no filme, é pobre, raso demais.

No meio de tantos erros e inconsistências, há alguns acertos. O humor trazido por Garth, personagem de Tim Blake Nelson, é, além de orgânico, eficiente para tornar o filme mais leve. Apesar de não desenvolver bem seus personagens, a direção de Nacho traz alguns belos momentos, como quando a protagonista tem uma briga e, ao chegar em casa, deita-se no sofá e é enquadrada por um ângulo que a encaixa atrás das barras de madeira que sustentam o encosto do sofá, que acabam emulando as barras de uma cadeia (simbolizando a prisão psicológica da personagem).  Até nesses acertos, porém, há problemas. O próprio Garth, após servir como um interessante alívio cômico, logo ganha intensos dramas pessoais que são criados abruptamente apenas para movimentar a trama e… Desaparecem. O personagem praticamente deixa de existir na linha do tempo do filme.

Tudo isso poderia ser “amaciado” se o filme abraçasse mais a estética absurda e lúdica que em certos momentos flerta. Mas em momento algum o filme mergulha e sempre faz questão de levar cenas extremamente monótonas recheadas de problemas cotidianos desinteressantes que fincam os pés de Colossal no mundo real. E essa escolha torna os momentos em que o filme tenta explicar seus elementos fantásticos ainda mais patéticos. A ala técnica não ajuda, já que a montagem torna o desenvolvimento central da narrativa muito arrastado enquanto o começo e o fim são apressados. Se em poucos minutos a protagonista já está trabalhando no bar local, o filme passa quase metade de sua metragem em torno dos mesmos acontecimentos, fazendo-os ir e voltar durante o segundo e o terceiro ato.

Colossal é uma comédia dramática com algumas ideias boas, outras más e uma execução muito irregular. Não há nenhum aprofundamento ao trabalhar questões​ como alcoolismo, machismo e ego, temas que rondam e moldam o caráter dos personagens da obra. Nacho Vigalondo prefere utilizar os temas como humor – que até funciona em alguns momentos, mas em outros, o mau gosto assusta -. O resultado final é um longa irreverente, diferente e, de certa forma, divertido, mas que quando erra, erra feio. Entretém, mas não tanto quanto poderia. Levanta temas importantes, mas não os desenvolve ou debate de forma satisfatória. Mais um caso de filme com boas ideias e uma execução não tão inspirada, mas que serve como entretenimento passageiro e esquecível.

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