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Com amor, Van Gogh

Com amor, Van Gogh

Mario Martins - 4 de dezembro de 2017

A cena inicial ambienta-se em uma noite estrelada, provavelmente uma das mais notáveis obras de Van Gogh, já ilustrando a estética que será predominante durante o longa. A música se mostra esperançosa, apesar de melancólica. Diferente de animações digitais ou feitas artesanalmente –seja com massinha, seja com material reciclável-, a proposta de animar telas pintadas a óleo não pode se aproveitar de algo recém-feito, como sobrepor um papel manteiga e repetir o cenário ou posição de algum personagem palpável que acabou de ser fotografado. Em Com amor, Van Gogh, até mesmo cenas congeladas e expressões paradas dão a ideia de movimento, pelo fato de os quadros seguirem o modelo da pintura vangogheana, que consiste na utilização da diversidade de cores em pequenos detalhes, o que é um feito difícil de reproduzir de forma idêntica, se pensarmos que, quadro a quadro, tudo foi delicadamente pintado.

Sendo uma obra em constante movimento, o filme rapidamente superou meu maior medo: o de me distrair o tempo inteiro com sua infame beleza visual e desviar a atenção do roteiro. A câmera promove zoom nas expressões faciais, executa breves porém ótimos planos sequência, e caminha junto com a ideia temporal, que, somada ao movimento das cores já mencionado, nos dá uma sensação de imersão de forma tão espontânea, que, uma vez jogados naquele universo todo, passamos a ser parte dele, e torna-se impossível não reparar em detalhes mais técnicos. Pelo contrário, talvez fiquemos até mais exigentes; afinal, aquele agora é o nosso mundo, e vamos perceber falhas. A prova disso foi meu incômodo em uma cena de chuva forte, em que não foi retratada a água em movimento no chão, e sequer havia poças, mas talvez eu seja chato demais.

Com amor, Van Gogh se passa em 1891, um ano após a morte de Vincent. Somos apresentados àquele que será nosso protagonista, Armand Roulin, filho de Joseph Roulin, chefe dos correios e amigo próximo do pintor. Apesar da amizade do pai, Armand parece não simpatizar nada com a fama daquele que possuía histórias bizarras de amputação e loucura. Contudo, surge uma carta de Vincent que deveria ter sido destinada a seu irmão, Theo Van Gogh, e, quando pressionado por seu pai, Armand se vê na obrigação de entregá-la em mãos ao destinatário original.

A excelência da edição de som, somada à qualidade da dublagem animada, fazem a ambientação ainda mais sagrada para o espectador. Vozes abafadas quando faladas durante um gole em uma taça de vinho, pegadas diferentes na grama e na rua, o eco no corredor do bater de uma porta e toques extremamente cuidadosos, prometem ser o ingresso do filme em grandes festivais de premiação, além dos eventos sobre arte visual. Por falar em premiação, se o compositor Clint Mansell não receber sequer uma indicação ao Oscar por seu trabalho aqui, não há de se ter mais esperança pelo real reconhecimento da Academia pelo trabalho de um artista. O que ele produz é algo tão único, que explicita a visão de música como linguagem. Há uma cena em que, ao fim do diálogo de dois personagens, um deles ainda está em busca de respostas, enquanto o outro, sentado a um piano, lhe dá o silêncio. Ao haver um consenso em não mais manter aquela conversa, é dito um “tenha um bom dia”, que apenas é respondido com notas no piano, que tocam não só as notas, como também a mesma melodia da dicção da voz do ator, tornando-se um “tenha um bom dia” falado através de notas musicais, que aos poucos evoluem até se tornar a música de transição entre cenários. Isso é a arte em sua essência.

Há uma estrutura que se adapta de acordo com a personalidade de cada personagem e sua versão para o enredo, e ela é sempre influenciada pelo quesito “O que eu acho de tal pessoa”. Há uma semelhança muito grande com o filme da diretora Eliane Caffé, Narradores de Javé (2003). Assim como na obra brasileiral, Com amor, Van Gogh conta com o relato particular de cada pessoa da cidade local, sempre beneficiando ou inocentando sua própria parcela na história. Todos aqueles que conviveram com Vincent antes de sua morte têm voz, nos fazendo acreditar em cada uma de suas teorias e versões de amor e ódio ao pintor.

Assim como o ponto de partida do roteiro, o filme como um todo se propõe a ser uma carta que encontra dificuldade em chegar a seu real destino. A natureza humana se coloca diante da incompreensão artística de Van Gogh e os diferentes tipos de visão que abordam a belíssima linha tênue entre a loucura e a sensibilidade, que se dividem por uma questão simples: a loucura e a sensibilidade de quem está julgando, pois ambas são o mesmo conceito, e, se foram despertadas naqueles que conviveram com o pintor de perto, então a missão foi cumprida.

 

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