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A Construção sonora de Hans Zimmer em Dunkirk

A Construção sonora de Hans Zimmer em Dunkirk

Mario Martins - 10 de agosto de 2017

Como já mencionado no texto sobre o cinema sensorial de Kubrick (que você pode ler aqui), o termo “trilha sonora” engloba todo o conjunto sonoro de um filme, que se divide em diálogo, ruído e música.

Diálogo – Não havendo a necessidade de se explicar o que é diálogo, pense na importância dele em filmes musicais, onde muitas vezes a letra nada mais é do que o diálogo de algum personagem acerca da emoção, situação ou lugar em que ele se encontra.

Ruído – É uma formalidade para o “barulho” da cena, sons de freada de carro, tiros, porta batendo e etc. Muitas vezes pode ser utilizado a favor da edição de som do filme, técnica que vem sido usada frequentemente em trailers de filmes atuais. Destaco o som da metralhadora no segundo trailer de Esquadrão Suicida, sincronizado com a canção Bohemian Rhapsody. Confira clicando aqui.

Música – O termo mais associado a “trilha sonora” em geral, trata-se literalmente da música tocada, podendo ter sido ou não composta originalmente para a obra, criando uma séria de subclassificações e técnicas, que não serão abordadas nesse texto.

Há uma vertente que diz que “uma boa trilha musical é aquela em que não se percebe que está sendo tocada”. Polêmica? Sim, mas não deixa de ser verdade, uma vez que consequentemente tais cenas estarão em tanta sintonia com a música, que vamos nos esquecer que aquilo foi sobreposto no filme. Se Hans Zimmer (que dispensa apresentações) já tinha fama por criar temas e composições de altíssima qualidade, o desafio veio com Dunkirk. O filme de Christopher Nolan poderia ter optado em seguir a linha tradicional de uma trilha de filme de guerra, mas resolveu cumprir uma função de ferramenta de manipulação emocional durante a película.

Desde o começo apresentando o “tic-tac” que será recorrente ao longo dos 120 minutos, Hans já nos ambienta na primeira e a maior batalha do filme, a contra o tempo. Havendo uma certa pressa na retirada dos 400 mil soldados da praia da cidade de Dunquerque, seremos recorrentemente guiados pelo tic tac –que curiosamente foi gravado do relógio de bolso de Nolan- que quando não é explicitamente escutado, é reproduzido através dos instrumentos por um compasso binário.

 

Da mesma forma que Howard Shore optou por fazer utilizar instrumentos metálicos, percussivos e graves nas cenas dos orcs em O Senhor dos Anéis: As Duas Torres para preencher a ideia de formação/exército (veja a referida cena no link) , Zimmer muitas vezes não teve a intenção de criar componentes que tocados simultaneamente gerem algum tipo de conforto sonoro, tendo muitas vezes simplesmente usado literalmente chiados após lançamentos de bombas, para deixar o ouvinte tão atordoado quanto os soldados. Fazendo também o uso de violoncelos para simular motores de avião, violinos com notas agudas e  estridentes em cenas de colisão para simular o choque metálico e simulando sirenes com instrumentos digitais, a música do filme vai moldando as emoções e te pressionando psicologicamente para ter a experiência completa de uma guerra.

Em Dunkirk, apesar de 1/3 do filme se passar nos céus, até mesmo no molhe e no mar o perigo se encontra nas alturas, uma vez que os aviões passavam bombardeando os navios e os soldados que esperavam na praia com a esperança de poder ir para casa. Hans Zimmer não só usa escalas ascendentes (formato em que se toca da nota mais grave para a mais aguda, ou seja, de baixo para cima quando grafada no pentagrama de uma partitura) para nos fazer olhar para cima, jogando literalmente toda a tensão sonora de forma crescente aos céus, ele utilizou uma técnica a qual Nolan já havia utilizado em outros filmes. Se já estamos familiarizados com o termo “ilusão de ótica”, vale ressaltar que também existe a ilusão sonora, que engana nosso cérebro da mesma forma, manipulando nossa percepção auditiva. A ilusão sonora em questão chama-se “Shepard Tone”, recebeu esse nome em homenagem ao cientista cognitivo Roger Shepard.

(todos os créditos do vídeo ao canal Vox)

No vídeo –onde é possível ativar as legendas e traduzi-las- do canal Vox, o chamado “tom Shepard” é graficamente ilustrado por um espectro e muito bem explicado. Oitava é nome da distância de uma nota até ela mesma, em uma altura diferente. Se notarmos que existem sete notas, após a sétima seria necessário repetir a primeira, que é popularmente chamada de oitava.

(1ª) – si – dó – ré – mi – fá – sol – (8ª)

 Se fôssemos olhar da esquerda para a direita, estaríamos vendo a escala de forma ascendente, portanto a 8ª é a mesma nota Lá sendo que mais aguda. O mesmo serviria se olhássemos da direita para a esquerda (descendente), sendo uma oitava abaixo, ou seja, mais grave.

Quando pegamos 3 alturas diferentes de uma mesma nota e separamos no formato: a aguda (de cima) diminui de volume, a nota do meio permanece constante e a nota grave (de baixo) aumenta seu volume, nosso ouvido é obrigado  a perceber uma constante ascendente. Repare no gráfico acima que quando uma sequência acaba, já está sendo tocada outra que também é ascendente, portanto as notas nunca param de subir. A técnica pode ser comparada com o que o DJ’s fazem nas músicas eletrônicas, que geram ansiedade em nossos ouvidos de que esse “efeito foguete” termine logo. O mesmo é utilizado em Dunkirk, onde só queremos que aquilo acabe logo, gerando uma agonia que parece não ser resolvida nunca, uma vez que o filme tem somente um momento de silêncio e que toda a construção de desespero musical vem acompanhado do campo sonoro já mencionado, com  o uso de instrumentos que simulam batidas e ruídos de destruição.

A trilha do filme foi altamente criticada por não utilizar muito do silêncio, o que na opinião de muitos é essencial na narrativa (e eu concordo). Contudo, o silêncio é usado de forma genial e sutil no longa metragem. Se toda a trilha sonora nos provoca a ambientação bélica na praia de Dunquerque, quando saímos da natureza hostil, encontramos o silêncio. O único momento em que ele é utilizado, é quando um soldado pega no sono, a única válvula de escape de uma guerra além da morte.

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