Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

Frank Ocean | Especial Mês do Orgulho LGBT

Frank Ocean | Especial Mês do Orgulho LGBT

Nathan Amaral - 29 de junho de 2017

“My guy pretty like a girl / and he got fight stories to tell  / I see both sides like Chanel / see on both sides like Chanel”

Os versos de abertura de Chanel, um dos últimos singles de Frank Ocean após o paradigmático Blonde, de 2016, elevaram Frank Ocean ao esperado nível simbólico de luta pelas causas LGBTQ – seus versos representam a possível admiração de Ocean por um parceiro ou amigo que, em poucas linhas, parece ter dividido as experiências de luta e os desafios impostos pelo mundo diante de suas ações.

Ocean então dispara uma de suas afirmações mais conceituais de sua música: eu vejo ambos os lados, como (o símbolo da) Chanel.

Liberação, como Kanye em Pablo? Assertividade e um call-to-arms como Kendrick, em DAMN.? Para onde, dentro do espectro da música contemporânea, a ambiguidade de Ocean apontou de forma tão explícita?

Para lugar nenhum e para todos os lugares ao mesmo tempo. Ocean não trata apenas da ambiguidade:trata de expandir todo o conceito que envolve sexualidade e desejo.

Ocean é o cantor introspectivo de toda uma geração. Suas músicas são recheadas de toques de seda que vão da nostalgia e da memória à pura brutalidade de uma sexualidade latente e da solidão. Os temas de Ocean são os temas daqueles que conviveram com os mesmos fenômenos que ele, com as mesmas dores e as mesmas alegrias o que o eleva do espectável ao consumível. Ocean se aproxima de Bowie e Björk porque sua música tem tato e sua estética visual tem audição. Dos carros antigos aos caminhos montanhosos que a mixagem de sua voz caminha o ouvinte pode inalar o que ouve e o que vê, como fumaça.

O curioso, irreverente e desafiador fato sobre a arte de Ocean, e o que a torna incomparável e cheia de alma, é que inalar e tocar não significam conhecer. A ambiguidade de Ocean não apenas seduz: ela nos distancia da fonte, tirando qualquer necessidade de sentirmos sua música por seus olhos ao invés dos nossos.

Sua sonoridade é pronominal e embaçada, o que significa que um de seus maiores temas, a sexualidade, é subjetivado.

O que não é uma característica única: posicionar discursos sobre os limites e as definições da sexualidade no campo do subjetivo, no pop, vem ganhando adeptos como Harry Styles. O que Ocean faz de diferente é retirar o tema da psicossomática de seu pseudônimo: como Bowie, Ocean explora a ambiguidade sexual para envolver e seduzir aqueles dispostos à entrar em seu campo magnético, para satisfazer os desejos e fantasias e dar nome aos pronomes que inquietam e fazem o peito estourar de seus ouvintes.

Diferente de Bowie Ocean não utiliza nenhuma estética visual concreta para conseguir esse efeito. Não há o vestido de The Man Who Sold The World ou a maquiagem pesada da época de Diamond Dogs, não há projeções físicas públicas. O sexo em sua estética é visão da própria desconstrução na projeção da sexualidade.

Ocean substitui a sexualidade pelo desejo, longe da sanitarização dicotômica de ser x ou y e adentrando a introspecção pura do que é desejar. Uma forma irreverente de lidar com as semióticas da hétero, homo ou transexualidades, reclamando poder não ao que se é mas ao que se quer.

Como em Deleuze-Guatarri, Ocean nos convida a um mundo onde nossas máquinas de desejo (máquinas-desejantes) sejam livres para seu desenvolvimento, para que ele vá além das limitações do édipo psicanalítico: além da culpa.

Ao entramos em contato com uma linguagem, aberta ou subjetivamente, sexual, estaremos em mais um processo de produção dos significados mentais (filosóficos, metafóricos, culturais, artísticos) e psicológicos carregados na relação entre artista e espectador. Principalmente na música e, de forma urgente, principalmente na música contemporânea, rechearemos a relação com o que somos e ouvimos. A linguagem é política.

A produção desejante humanista produz, naturalmente a pessoa. Não como fonte produtora e reprodutora de novos materiais mas como material em si produzido e mastigado e modificado pelos sistemas que o regem. Por muitos momentos somos levados apenas ao lugar de agente e reagente dos processos que perpassam os fenômenos da sexualidade, perdendo nossa ligação como agentes próprios – nos tornando mais um conjunto de adjetivos do que uma fonte de adjetivos.

Ocean, mais do que se aproveitar e lucrar com esta condição, a dissolve, se aproximando do contato pleno com experiências sem frustração alguma. Como nas linhas de Solo:

“One time/We too loud in public/ Then police turned down the function/Now we outside and the timing’s perfect (…) Forgot to tell you/Gotta tell you how much I vibe with you (…) But blow me and I owe you/Two grams when the sunrise” e

“But you gotta hit the pussy raw though/ Now your baby momma ain’t so vicious/ All she want is her pickett fence / And you protest and you picket sign / But them courts won’t side with you/Won’t let you fly solo”

A voz de Ocean dá o tom, sútil e livre de ansiedade ou pressa, de que este é mais do que um conto sobre um homem ou uma mulher, um homossexual ou heterossexual ou transsexual: este é um conto sobre uma pessoa, seus desejos e suas frustrações. Na narrativa meticulosamente abstrata, o uso pronominal é aberto e a instrumentalização dá espaço para posicionar o cantor como… um cantor. Como o que ele quer ser, o que deseja ser.

Na sedução de Frank Ocean não há permissões usurpadas pelo preconceito, desconstrução ou dogma. Não há entrada, centro ou zona de conforto. Não é preciso estar vestido porque não há julgamento em seus versos. O desejo é ambíguo porque ele é o que quer ser.

A ambiguidade de Frank Ocean seduz porque é libertadora, um lápis de cor universal na aquarela da sexualidade.

Topo ▲