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House Of Cards – 5ª temporada
Nota:

House Of Cards – 5ª temporada

Matheus Fiore - 1 de junho de 2017

Enquanto assistia à quinta temporada de House Of Cards, me questionava o porquê da Netflix não lançar os episódios semanalmente, como faz com Better Call Saul. Esse questionamento surgia de mãos dadas à minha enorme vontade de analisar cada episódio da série, como fiz apenas com o primeiro. Mas lá para o sétimo ou oitavo capítulo, a resposta era óbvia na minha cabeça: essa temporada não é pensada como uma série, mas como um longo filme. No máximo dividido em duas partes complementares, no melhor estilo Kill Bill. É mais fácil constatarmos isso se lembrarmos que, em boa parte dessa temporada, boa parte dos grandes acontecimentos não fecham os episódios, mas sim os dividem, estando no meio de cada um. As divisões, então, são apenas uma formalidade do marketing. Incerto quanto ao que eu afirmo? Procure pelos nomes dos episódios. Não achou, né? Sigamos.

Indo ao que interessa, esta pode não ser a melhor temporada da série (ainda considero a segunda), mas sem dúvidas é a que mais faz jus ao nome e à abertura do programa. Como o professor e especialista em linguagem Fábio Rockenbach havia analisado em sua palestra para o Conacine, a abertura de House Of Cards representa nada menos do que a inexorabilidade de Washington. O tempo passa, as pessoas vem e vão, mas a estrutura fica. Diante de todas as vitórias e derrotas humanas, o sistema político permanece concreto. Aqui começamos acompanhando a reta final da eleição presidencial de 2016. Frank e Claire Underwood tentam manter-se na casa branca e, para isso, precisam derrotar Will Conway nas eleições. Enquanto se organizam para vencer, os Underwood vêem o surgimento de novos aliados e adversários no xadrez político que permeia a Casa Branca.

O primeiro episódio (o único que dissequei no site) é o destoante da temporada. Ali, o forte uso da linguagem do cinema não só “resume” tudo que a série desenvolverá em seu quinto ano, como também dá muitas pistas de como os personagens se comportarão ao fim da temporada. Percebemos no plano que abre o ano, por exemplo, como a câmera constrói a máscara da honestidade, a ilusão e segurança que permeia toda a série. Mas há ali uma conexão com justamente o último frame da temporada. O rosto de Claire está em destaque, sozinho. A vice de Frank almeja vôos mais altos e, ao longo da temporada, vemos seu crescente desejo por poder.

Daqui em diante, spoilers lhe aguardam. Leia por sua própria conta e risco.

Mas, agora que comandam o país, os Underwood não terão apenas adversários, mas figuras ocultas que almejam o poder tanto quanto eles. São eles Jane Davis, secretária especialista em relações internacionais que utiliza seus conhecimentos para se aproximar de Claire (e exercer a função que a mesma exerceu sobre a ex-primeira dama) e Mark Usher, um conselheiro político que ajudou Conway em parte de sua campanha. A série encontra dois jeitos de estabelecer o desejo por poder destes personagens. O primeiro pode parecer um pouco óbvio, mas além de criar uma bela rima visual (vide imagem abaixo), estabelece o início de um novo ciclo na série.

Se na primeira temporada vimos Frank acenando para nós da parte frontal da plateia do discurso de posse do presidente Walker, agora vemos Usher ocupando o mesmo espaço na posse do presidente Underwood. Ainda há espaço para uma pequena ironia. No discurso de Walker, a câmera faz um sutil movimento para a esquerda para exibir Frank, membro do partido democrata (visto como um partido de esquerda). Já na cena embaixo, a câmera se move para a direita até alcançar Usher, que é conselheiro do partido republicano (visto como um partido de direita). A sutil diferença aponta como, tirando formalidades, as inclinações e ideais políticos das peças pouco importa no jogo de xadrez de House Of Cards.

Como disse, a série encontra duas formas de adiantar para seu espectador o desejo por poder de Usher e Davis. Reparem que, quando estes personagens vão até a sala oval aconselhar ou discutir assuntos com os Underwood, eles costumam apresentar medidas que os colocam contra a parede e, em momento  algum, demonstram fragilidade ou insegurança diante de Frank e Claire. E mais que isso, a dupla sempre encerra os diálogos com frases fortes e sai da sala sem olhar para trás, justamente o que Frank fazia. Mas, por assistirmos a série do ponto de vista dos Underwood, sempre tivemos acesso às suas reações posteriores, quando enquanto falava com a câmera ele nos contava que por trás de suas palavras, havia malícia e incerteza. Com User e Davis, provavelmente não é diferente.

Quanto à troca de poder entre Frank e Claire, a série dá ainda mais pistas. A partir da segunda metade da temporada, a série constantemente nos mostra a fragilidade física de Frank, seja na cena onde ele deita no chão com fortes dores nas costas enquanto sua esposa, sem perder a classe, dialoga observando-o caído, seja nas conversas em que outras figuras da casa branca demonstram preocupação com o fígado do presidente. Há também diálogos que expõem a necessidade do povo americano de ter novos rostos na política, cansados dos corruptos óbvios de sempre. Claire, então, é uma possibilidade (e por que não Mark Usher?).

Frank caído, com dores, aos pés de Claire.

Há também momentos em que a série faz sugestões mais sutis, como na primeira cena do segundo capítulo. Ali, Francis brinca com um software que utiliza duas imagens de rostos para formar um terceiro. Mas, ao mexer com o programa, Frank faz algo curioso, leva de uma versão com seu rosto predominante à outra com o rosto de Claire predominante. Uma clara pista dos rumos que a série toma ao longo da quinta temporada, quando Claire ascende ao poder  e encerra o ano como presidente dos Estados Unidos.

E se ainda há alguma dúvida de que o roteiro e a direção construíam o planejamento de Claire para assumir o poder, esta é obliterada já no terceiro episódio, quando, no dia antes da eleição que veio a definir o novo presidente, o casal Underwood se reúne em um cinema caseiro para ver seu filme favorito: Pacto de Sangue, clássico do mestre Billy Wilder que conta a história de um corretor de seguros que, manipulado por uma esposa gananciosa e insatisfeita, é convencido a ajuda-la a orquestrar a morte do marido para herdar sua riqueza.

E no meio de tantos toques de direção brilhantes, há ainda espaço para a fotografia se sobressair. Para começar, os planos que acompanham Frank se impondo diante de algum subordinado ou aliado em certos momentos o fazem em círculos, mostrando como o presidente envolve e domina as pessoas à sua volta. O uso da luz também é fantástico, principalmente quando as cenas trazem personagens derrotados, como Conway e o próprio Francis em certos momentos. O uso de baixa iluminação no ambiente, deixando apenas o desenho de silhuetas, luzes ambiente ou até pequenos feixes de luz externa à ambientação retratada, criam verdadeiros calabouços narrativos. Quanto mais escuro o ambiente onde o personagem se encontra, mais difícil é dele reagir. Impressiona também que, a partir dos primeiros sinais da queda de Frank, que a série passe a utilizar uma iluminação alaranjada na sala oval, representando o crepúsculo de seu governo. Principalmente quando Claire assume o “trono”, mais um sinal de que ela trará a queda do próprio marido. Uma outra interpretação possível e tão válida quanto é que, com Claire, o ambiente ganhe vida, enquanto com Frank, seja frio e morto.

O figurino não fica muito atrás e também tem suma importância não só em estabelecer o clima dos personagens como em nos dar indícios do final da série. Quando Frank revela seu grande plano para Claire, por exemplo, mesmo que ele funcione, ela se sente presa, excluída, por ter sido tratada como uma peça do esquema. Tal sentimento é refletido em seu figurino, que emula as barras de uma prisão. Se pensarmos no jogo de xadrez que é House Of Cards, então, não é difícil imaginar que, a partir dali, Claire flertaria com um rompimento com Francis, algo que já foi sugerido no passado mas nunca concretizado. Faltava o gatilho.

Mas se a linguagem da série mostra estar em seu auge, o programa às vezes comete pequenos deslizes, principalmente em seu texto. As reviravoltas e dança das cadeiras da Casa Branca excedem o limite do crível e tornam-se um pouco inverossímeis. Faltam também alguns elementos que justifiquem certas atitudes de certos personagens, como a devoção irrestrita de Doug, que pode ser cimentada por uma paixão oculta por seu chefe, mas nunca é sugerida ou desenvolvida verbalmente nem por imagens. Apesar de ótimos, os episódios finais passam uma impressão de que Francis é inteligente demais e seus inimigos burros demais, permitindo que seus planos sejam executados facilmente por trás das cortinas.

House Of Cards não chega a surpreender tanto e, às vezes, flerta com caminhos excessivamente irreais. O espectador mais atento notará todas as pistas relacionadas à conclusão dadas pelo roteiro e pela direção ao longo dos episódios, mas a série é feliz ao fazer do trajeto até o final o grande deleite do público, proporcionando uma obra-prima da televisão. Depois de cinco temporadas, finalmente começamos a ver o mundo político da série girar, e o simbolismo da abertura do seriado se mostra presente na narrativa. O tempo de Frank está acabando enquanto Claire ascende ao poder, mas quem disse que o trono permanecerá com ela por muito tempo? Agora nos resta aguardar mais dolorosos 12 meses.

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