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Gorillaz – Humanz

Gorillaz – Humanz

Mario Martins - 29 de abril de 2017

A Inglaterra já não nos deve mais nada. Nos deu o futebol, a internet, televisão, as leis de Newton, o telefone, Charles Darwin e Alan Turing (logo, nos deu o computador também). Ainda assim, a Inglaterra sempre presenteia algo a mais pro mundo. A contribuição para o mundo da música sempre foi eminente, desde a década de 60 os britânicos vem nos dando os pilares de grandes e influentes gêneros musicais. Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, Black Sabbath, The Who, Queen, Led Zeppelin, Sex Pistols e… Gorillaz! Se a banda de 1998 além de ser um dos principais nomes do trip rock, foi também a primeira banda virtual da indústria, ela merece sim ser mencionada junto outros artistas que criaram ou ajudaram a moldar os estilos musicais que conhecemos hoje, tendo inclusive feito um mix de todos eles em sua trajetória até aqui.

Fundada por Damon Albarn (também vocalista do grupo Blur) e o designer/autor de quadrinhos Jamie Hewlett (Tank Girl), a banda possui os membros virtuais 2-D, Murdoc, Russel e Noodle. Será sempre necessário pensar nas duas realidades para entender como a banda começou e de que maneira o virtual conversa com o real, seja influenciando o som, os clipes e o enredo da carreira do Gorillaz. Albarn e Hewlett já contaram a história fictícia da banda através do documentário Bananaz (2009) e do livro “Rise of the Ogre”, separando-a em quatro fases: Celebrity Takedown, Slowboat to Hades, Escape to the Plastic Beach e Do Ya Thing, que consequentemente iriam afetar o universo animado durante os futuros quatro álbuns da banda.

Tendo um evidente apreço pelo universo cinematográfico, o Gorillaz explicita sua paixão através de seus videoclipes -que mais deveriam ser considerados curta metragens- e até em alguns títulos de suas músicas, como é o caso de “Dirty Harry”, “Bill Murray”,  “Dracula”  e a talvez mais famosa faixa do grupo, “Clint Eastwood”. Seguindo um roteiro, os clipes são totalmente interligados entre si, mudando completamente de estilo a cada álbum e ganhando cada vez mais traços reais, que nos permitem se aprofundar nas obras. Usando como exemplo o clipe da música “Stylo”, que conta com a participação de Bruce Willis em uma perseguição de carros, podemos ver os personagens animados filmados em um mesmo ambiente de atores reais, carros com furo de bala e efeitos especiais adicionados nas cenas, fica mais do que claro que Gorillaz é puro cinema. A riqueza audiovisual da banda é tão esplêndida, que os traços inconfundíveis de Hewlett virarão uma série animada de televisão, com previsão de 10 episódios.

 

“Ah, don’t worry

It’s not against our morals

It’s legal tender

Touch, my friend

While the whole world

And whole beasts of nations desire

Power”

 

Rompendo o hiato de 6 anos, no dia 20 de janeiro (curiosamente um dia antes da posse do atual presidente estadunidense Donald J. Trump) o Gorillaz lança a faixa “Hallelujah Money”em participação com o poeta inglês Benjamin Clementine, também compositor. Possuindo uma letra que aborda uma realidade em que a cobiça financeira capitalista superou a humanização do próximo, a primeira canção do Humanz, não poderia ser outra. A banda anunciou pela primeira vez a tracklist do novo álbum no dia 23 de março, também liberando 4 faixas do mesmo, sendo elas: “Andromeda”, “Ascension”, “Saturn Barz” e “We Got The Power”. Já era possível fazer os links entre os videoclipes (mesmo alguns sendo não oficiais, apenas animações em ambientes dentro do clipe de “Saturn Barz”), mantendo a clássica fórmula trazida desde o Demon Days (2005).

Também houve uma novidade na arte nova dos membros da banda, tornando os traços mais realistas e trazendo –para alguns- a revelação de que Noodle na verdade se tratava de uma garota. Visto que a voz aguda e o figurino irregular da personagem mais popular em participação solo dos clipes da banda, sempre deixaram o visual andrógeno confundir muitos fãs.

Ao escutar Humanz inteiro, me surpreendi com comentários e críticas citando a quantidade de participações de convidados ou o som que não soava como “o bom e velho Gorillaz”. Ora, uma vez que o único membro fixo seja Damon Albarn –e que basta ouvir a melódica voz britânica para arremeter à estética e imagem do grupo- e que convidados vem sendo frequentes, fica claro que a identidade do Gorillaz é não possuir uma. É se reinventar a cada disco, explorar cada vez mais gêneros musicais, participações inesperadas e sonoridades mais exóticas. É fazer jus ao trip, deixando de lado às vezes o rock.  Afinal de contas, o que vale no final é fazer um bom aglomerado de canções, sem se prender a regras.

Essa é a grande riqueza da banda e do novo disco, o espaço que cada artista colaborador tem de deixar um pedaço seu nas músicas, como a pegada soul de Peven Everett em “Strobelite”, a raíz centro-americana nos vocais do jamaicano Popcaan em “Saturn Barz”, o hip hop do De La Soul em “Momentz”, o R&B de Kelela em “Submission”, o new wave da apoteótica Grace Jones em “Charger”, o restício do trap de D.R.A.M na eletrônica “Andromeda”, o indie pop de Kali Uchis em uma das mais dançantes faixas do disco, “She’s my collar” e por aí vai. Vale destacar que na música “We Got The Power” um dos autores da música é ninguém mais ninguém menos que Noel Gallagher, guitarrista e compositor do Oasis, banda rival do Blur de Albarn nos anos 90. Uma colaboração simbólica e histórica, que prova que “nós temos o poder” de fazer acontecer. Mais uma crítica política à desunião e a dificuldade de se relevar fatos ocorridos no passado.

O único erro do álbum foi ter criado expectativa demais. Ser o sucessor dos enormes Gorillaz, Demon Days, Plastic Beach e The Fall, depois de 6 anos sem lançamentos, gera uma pressão infame na produção de um novo cd. Os fãs talvez não estivessem esperando algo tão experimental e pessoal por parte da sonoridade do Humanz, que carrega a forte influência de cada convidado ao longo das 26 faixas (contando os interlúdios). Pessoalmente, confesso que me apaixonei de cara com “Strobelite”, “Busted and Blue”, “The Apprentice”, “Let Me Out” e “Sex Murder Party”, pela legitimidade melódica que cada uma apresenta, mas não descarto as que geraram estranheza, pelo contrário, trouxeram junto uma curiosidade de escutá-las novamente.

Os melhores álbuns que escutei na minha vida, não foram favoritados à primeira escuta. Acredito inclusive que bons CDs  sejam aqueles que necessitem de um certo tempo para ser completamente compreendidos. Quando digerimos algo rápido demais, podemos acabar enjoando. Aguardemos os videoclipes serem lançados e ver de que maneira eles dialogam com a sonoridade poética, social, crua, digital, rústica e natural do Humanz. Afinal um dia é muito pouco para degustarmos tanto conteúdo e qualidade. Amém, Damon Albarn.

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