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I Smile Back e a dignidade como imposição

I Smile Back e a dignidade como imposição

Ana Flavia Gerhardt - 8 de agosto de 2017

Este texto contém spoilers do filme que descreve

Para lidar com o fato de que, na infância, seu pai saiu de casa sem dar explicação, Elaine (Sarah Silverman), já adulta, dá curso a um complexo processo de auto-destruição como justificativa para esse abandono, que seria mais ou menos assim: “se meu pai saiu de casa, deve ter sido porque eu era uma menina má, que não merecia nada de bom na vida; então vou me comportar justamente como essa menina má, já que, se meu pai achava isso de mim, deve ser porque eu sou mesmo”.  Assim, sua escolha pessoal é a de construir duas vidas paralelas: uma vida composta do cotidiano com o marido e os filhos, um lugar de perfeição, amor e felicidade familiar, e uma vida de perdição onde ela faz tudo errado, porque precisa transformar a herança paternal em verdade; precisa, com ações, manter a crença de que há algo ruim nela para ela ser abandonada.

É claro que o fragilíssimo equilíbrio que Elaine insiste em manter por ter escolhido viver em dualidade vai desabar a qualquer momento, e acaba desabando de vez quando sua vida secreta invade a sua vida pública de tal forma que impõe sua visibilidade, lhe marcando o corpo de vez e impedindo que sua história termine com alguma esperança. I smile back é justamente sobre esse processo de desabamento, e, nesse sentido, o título do filme é significativo, porque Elaine, na vida pública, usa o sorriso para esconder dos outros a tragédia pessoal diária que a arrasta para o inferno.

A direção canônica de Adam Salky a partir do ótimo roteiro de Paige Dylan e Amy Koppelman, embora destinada ao cinema, não traz nenhuma novidade para além do que normalmente vemos por exemplo em filmes para a TV, que é onde Salky tem majoritariamente desenvolvido sua carreira. Mas, como as nomeações evidenciam, a força do filme se sustenta na sua protagonista, interpretada brilhante e doloridamente pela premiada Sarah Silverman, que, com vinte segundos de atuação, já nos deixa evidente a dualidade insuportável que a personagem impôs a si mesma.

A atriz contribui de forma intensa para entregar a verdade do personagem como uma pessoa real, humana, afastando a possibilidade de que vejamos em Elaine qualquer vilania, ou de que a julguemos, ou de que acreditemos que é fácil a uma pessoa se apropriar de si mesma e optar por seguir sua vida na linearidade que os tempos contemporâneos nos exigem: sermos felizes, sorrirmos, ainda mais quando aparentemente nada nos falta, dinheiro, conforto, saúde – e fazermos isso o tempo todo, mesmo que o coração esteja dilacerado pelas dores recalcadas que nos recusamos a encarar.

Silverman nos faz torcer por Elaine e lamentar cada escolha errada que ela faz, sobretudo por não ouvir o que seu filho pré-adolescente lhe diz ao se apresentar em público mesmo sendo dominado por tiques oculares e, por isso, estar sujeito a sofrer o escárnio dos colegas: o sofrimento nos constitui, mas não precisa nos impedir de viver e fazer aquilo que é nossa escolha e incumbência nessa vida. É fundamental que aprendamos, já adultos, a reconfigurar as experiências da infância, porque manter a compreensão infantil dos acontecimentos da nossa vida é uma carga simplesmente impossível de carregar, já que distorce, quando não substitui de vez, as experiências importantes que a vida adulta pode nos proporcionar. É pesado demais – um peso que não raro se torna inviabilizador da vida adulta. Mas, infelizmente, Elaine está tão afundada da própria auto-piedade que não consegue ouvir o filho, e por isso termina por sucumbir àquilo que já definiu por sua conta como seu auto-vaticínio, do qual não pode escapar.

I smile back, muito acertadamente, não propõe soluções para existências como a de Elaine. Mas faz muito melhor: traz visibilidade e inteligibilidade a uma prática de existência e de subjetividade construída dentro da ideologia capitalista, embasada na necessidade de que as pessoas edifiquem para si o que o cientista social Jessé de Souza denomina dignidade, que é justamente o que para Elaine é tão difícil construir: uma existência inserida completamente nos padrões familiares das classes médias das sociedades ocidentais, mas sem uma verdadeira vida em comunidade; constituída não por afetos e cuidado mútuo, mas sim por regras desvitalizadas de comportamento, que a personagem resiste em seguir justamente por entrever nelas um processo de sujeição a um modelo fracassado que vitimou sua infância. Penso que, de certa forma, Elaine escolheu essa incompatibilidade, porque desde cedo compreendeu o que ela tem de falso, opressor e mascarador dos verdadeiros sentimentos, da verdade de cada um.

I smile back é um filme corajoso que recusa saídas comuns e não opta por nos oferecer qualquer conforto emocional ao seu final. É um filme para os que não têm medo de olharem para si mesmos com sinceridade de vez em quando.

 

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