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King: Uma História de Vingança
Nota:

King: Uma História de Vingança

Matheus Fiore - 6 de agosto de 2017

Desde o sucesso do excelente Busca Implacável, de 2008, filmes de ação sobre investigações envoltas em prostituição, violência e tráfico protagonizados por heróis “invencíveis” que derrotam legiões de criminosos ascenderam na indústria. Além das muitas – e fracas – continuações da própria saga de Liam Neeson, tivemos versões genéricas como O Protetor, Sem Saída Desconhecido. Variando um pouco a fórmula (mas mantendo a premissa do protagonista implacável que, sozinho, enfrenta a mafia inteira), chega à Netflix, então, King: Uma História de Vingança, filme americano de 2016.

Protagonizado por Chadwick Boseman (o Pantera Negra do Universo Cinematográfico Marvel) e dirigido pelo belga Fabrice Du Welz, King: Uma História de Vingança acompanha o sul-africano Jacob King (Boseman), um suposto taxista que chega na América em busca de sua irmã desaparecida, Bianca. Ao descobrir que Bianca se envolveu com traficantes, Jacob acaba tendo que enfrentar o mundo do crime em busca de respostas sobre o desaparecimento de sua irmã.

O diretor Fabrice Du Welz até que introduz bem a obra. A cena inicial, na qual o protagonista é interrogado pelos responsáveis pelo visto para entrar na América, é a mais rica do filme. Utilizando closes no protagonista, Du Welz deixa clara sua determinação ao mesmo tempo que cria uma atmosfera sufocante. Além disso, a escolha de não mostrar os rostos de quem o interroga também ajuda a fragilizar e vitimizar o personagem, que demonstra sentir-se em território hostil desde o começo da projeção – algo muito semelhante ao que Brian De Palma faz na abertura de Scarface.

A hostilidade do território se faz presente em todo o primeiro ato do filme. Não só nos diálogos nos quais o protagonista deixa clara sua intenção de encontrar sua irmã e voltar para casa, mas também pela escolha de utilizar sempre uma profundidade de campo pequena, deixando os cenários sempre desfocados, fazendo com que a figura de Jacob pareça sempre recortada do plano. A mesma elegância não está presente nas cenas de ação, porém. Além das coreografias duras e confusas, a câmera tremida e o excesso de cortes torna difícil a tarefa de compreender a geografia dos combates, que em certo momento, parecem ser tratadas como o foco do longa.

No roteiro, King encontra seu calcanhar de Aquiles. As ferramentas para desenvolver a trama são excessivamente preguiçosas, do nível “caiu um cartão de memória dessa caixa que traz a solução de todos os meus problemas”. Além das resoluções mágicas, a obra tenta criar um peso na busca de Jacob por sua irmã que não se sustenta, pois não há desenvolvimento nenhum na relação deles. É difícil sentir empatia pelo protagonista que está desesperado em busca de respostas quando não fazemos ideia do quão próximo de Bianca ele era.

Não ajuda o longa o confuso trabalho de montagem, que, em certo ponto, chega a saltar de uma cena noturna para uma diurna sem qualquer sinal de passagem temporal, dando a impressão até que a equipe técnica simplesmente esqueceu de inserir o filtro noturno na parte final do segmento. Ainda prejudica o resultado final a vã ideia de inserir um pequeno plot twist nos derradeiros momentos, que nada acrescentam à história de Jacob e ainda provocam inúmeros questionamentos que, inevitavelmente, levarão o público a detectar um punhado de furos de roteiro.

King: Uma História de Vingança soa mais como uma inútil tentativa de lucrar em cima de um gênero que, nos últimos dez anos, teve destaque. A incompetência técnica e a frieza dos personagens, porém, impede que qualquer ideia do longa tenha o mínimo impacto. Sem foco, sem graça e sem criatividade, a obra mais parece um projeto escolar do que um filme.

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