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Lana Del Rey – Lust For Life

Lana Del Rey – Lust For Life

Mario Martins - 24 de julho de 2017

In a lust for life, in a lust for life

Keeps us alive, keeps us alive”

 

De “nascida para morrer” a “desejo pela vida”, a tradução ao pé da letra dos títulos de seu primeiro e mais recente álbuns, desde que assina como Lana Del Rey, já ilustravam o contraste que estaria presente na personalidade de Lust For Life.

O primeiro single “Love” veio acompanhado do mesmo visual vintage com uma pegada meio hippie, ilustrando o desejo da juventude de forma mais pura e intensa. Se no clipe de “Born to Die” vemos uma batida de carro e a fatalidade como consequência de uma paixão livre, em “Love” vemos um casal se beijando em sua caminhonete –que curiosamente é a mesma da arte da capa do álbum- enquanto ela flutua pelo espaço. Que diferença, não? Tal mudança já poderia ser vista ao nos depararmos com Lana sorrindo, o que era comum vermos em entrevistas, shows e na relação com os fãs, mas dificilmente em suas obras audiovisuais. Ela pareceu querer quebrar a vibe de depressão artística dos anos 50 que vinha construindo e que foi altamente moldado pelo Ultraviolence, seu álbum de 2014.

Inclusive, suas bases instrumentais se assemelham ao álbum recém mencionado. Sua parceria com Dan Auerbach, vocalista do The Black Keys, conseguiu render uma nuance psicodélica e crua nas músicas as quais Dan participou da produção, ou seja, grande parte do álbum.

Em Lust for Life vemos a forte influência hip hop da cantora, que nos dá um material de instrumentos mais artificiais como beats de bateria eletrônica, o uso de mellotron –instrumento semelhante ao sintetizador- e guitarras recheadas de flanger, phase e tremolo (pedais de efeito), que ajudam a dar o caráter à la James Bond, típicos da ambiência noir em seu pop barroco. (Aliás, o que ta faltando para Lana Del Rey ser “bond girl” ou pelo menos ser chamada para cantar em uma canção original para a franquia?). O grande curioso é que apesar do instrumental extremamente artificial, o álbum num geral soa mais orgânico/natural, acredito que isso esteja diretamente ligado ao grande uso de reverberação nas linhas de vocal, dando extensão às notas das melodias e nos oferecendo uma sensação de flutuação, como nas músicas da cantora Enya.

Dentre as faixas que creditam a qualidade do álbum, destaco “Summer Bummer”, que conta com a presença do rap de A$AP Rocky e Playboi Carti, “God Bless America” que nos coloca dentro da mesma atmosfera que o Lighthouse Family gostava de nos levar. “Cherry” é incrivelmente decorada  com o clima de casino e casa na praia, lembrando a linha usada no álbum anterior, Honeymoon. “13 Beaches” é a típica música que nos faz fechar os olhos e criar um clipe subconsciente para tal, as notas agudas que fazem jus ao mezzo soprano de Lana junto com o bpm –batidas por minuto- baixo, nos transportam para um universo próprio, climatizando a sensação de flutuação mencionada anteriormente. “White Mustang” traz a essência Del Rey que estávamos acostumados a ouvir. Piano com intervalos de 1-5-7-4 (formato de acordes extremamente usado nas músicas populares de rádio) e letra sobre carro, vestido, amor e verão. “Coachella – Woodstock In My Mind” talvez seja a canção mais Born to die do CD e reforça o caráter hippie que vem sendo mais abordado e “Heroin” que não deve nada para a alta qualidade da cena do pop atual, batendo de frente com a sonoridade de artistas como Lorde, Shura, Florence + The Machine e London Grammar.

O que impede o álbum de ser uma obra prima de 2017?  O padrão “refrão que estraga música” que se repete ao longo do cd, e para ilustrar o que eu digo, basta ouvir as músicas que já haviam sido lançadas “Love” e a própria “Lust For Life” –onde nem mesmo Abel Tesfaye pôde salvar a irregularidade musical-  e “Tomorrow Never Came”, “Beautiful People Beautiful Problems”, “Get Free” e “When the world was at war we kept dancing” que tem o título comprido para não te fazer reparar no monótono verso, apelativa melodia e refrão enjoativo.

Há varias formas de se avaliar um álbum, seja pela quantidade de faixas boas, pela maneira em que o artista se renovou ou migrou de estilo mantendo a qualidade, pela comparação com seu último lançamento ou simplesmente se ele te convence a comprá-lo. Pois bem, visto que das 16 faixas, 9 me agradaram e que Lana vem renovando sua maneira de se apresentar, lançando um cd melhor que Honeymoon e que me deixou com vontade de tê-lo, três estrelas e meia pela fidelidade com os quesitos. Citando o refrão da 10ª faixa de Lust For Life, “Deus abençoe a América e todas as mulheres lindas de lá”, ou seja, Lana Del Rey.

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