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Life e o trabalho interpretativo de Robert Pattinson

Life e o trabalho interpretativo de Robert Pattinson

Ana Flavia Gerhardt - 23 de novembro de 2017

No último Festival de Cannes, o filme Bom comportamento (título original: Good time) recebeu grande atenção do público e da crítica por conta do caprichado trabalho de direção dos irmãos Josh e Bennie Safdie (este último integrando o elenco com notável atuação) e, sobretudo, pelo protagonista desenvolvido por Robert Pattinson, ator conhecido do grande público pela participação na quadrilogia Crepúsculo.

Em Bom comportamento, que recebeu crítica de Matheus Fiore, Pattinson impressionou pela performance complexa e absolutamente entregue de um rapaz que vive nas esferas sociais marginais de Nova Iorque. No filme, Connie, o rapaz, passa uma noite infernal tentando a todo custo encontrar dinheiro para pagar a fiança do irmão com déficit cognitivo, que, por sua culpa, acabou preso após um assalto frustrado. Ainda sendo (sem propósito, a meu ver) comparado ao inacreditável Edward Cullen de Crepúsculo, o ator vem trilhando caminhos artísticos merecedores de atenção, com escolhas profissionais acertadíssimas e não limitadas ao protagonismo, como em Z – A cidade perdida,  de James Gray, também discutido por Matheus Fiore e por mim. Antes disso, crítica e público já haviam notado um Robert Pattinson diferente em filmes como Cosmópolis, de David Cronemberg (2012), e A infância de um líder, de Brady Corbet (2015).

O argumento de que Pattinson age assim para apagar da memória de cinéfilos e críticos seu início de carreira me parece insignificante perto da constatação de que os inúmeros recursos expressivos que ele tem demonstrado em cada trabalho falam por si. Por essa razão, não estarei preocupada aqui com Edward Cullen, mas sim com o que veio depois, para evidenciar que, dois anos antes de Bom comportamento, com o filme Life: um retrato de James Dean, dirigido por Anton Corbijn, o ator já se encontrava em um patamar diferenciado de maturidade artística e técnica.

A desconstrução de James Dean

Life relata alguns dias da vida de James Dean (Dane DeHaan) na companhia do fotógrafo Dennis Stock (Robert Pattinson), entre o lançamento do filme Vidas Amargas (East of Eden) e o início das filmagens de Juventude transviada (Rebel without a cause), em 1955. Reconhecido por Hollywood como grande promessa, Dean foi mostrado por DeHaan, na primeira metade do filme, como um pós-adolescente entediado e preguiçoso, demonstrando desprezo pelo mundo de glamour que o rodeava e pelas pessoas que viviam nele. O encontro com Stock, que manifestou o desejo de realizar um ensaio fotográfico sobre ele para a Revista Life, e os dias que passaram juntos executando esse trabalho dão espaço a DeHaan para oferecer, na segunda metade do filme, um outro James Dean: uma pessoa afeita a sentimentos pessoais ternos e verdadeiros e a práticas simples de vida – família, ações conjuntas, rotinas cotidianas.

Na vida “real”, o resultado disso é um maravilhoso acervo fotográfico que ganha ainda mais significado quando a gente assiste ao filme e passa a supor que a feitura das fotos guarda por trás uma história de encontro entre duas pessoas bastante distintas, mas que cultivam em comum a preocupação em atribuir sentidos verdadeiros para a Arte. Ver um Dean humanizado e distante da figura de rebelde imaturo e incompreendido que o Cinema dos anos cinquenta vendeu é uma festa para os olhos e para o coração. Em qualquer escolha de imagens que eu faça para ilustrar aqui o ensaio de Stock, serei injusta; as duas fotografias que incluí neste artigo, uma logo abaixo e outra mais para o final, dizem respeito a momentos do filme que me tocaram especialmente. Mas recomendo fortemente ao leitor/leitora que presenteie a si mesmo(a) buscando na rede as muitas outras imagens que compõem o acervo do trabalho artístico de Stock.

A fotografia como artesanato.

É importante pontuar a diferença temática entre os personagens Dean e Stock, porque ela interfere de forma constitutiva nas escolhas de atuação de DeHaan e Pattinson. James Dean é uma pessoa para a qual o mundo teceu, ao longo das décadas, uma imagem precisamente contornada, e sobre o lendário ator quase tudo já se disse, portanto as pessoas que se interessarem por sua história precisam apenas coletar informações na internet, sem precisar elaborar muito sobre elas. Observar o trabalho de DeHaan é ter certeza da decisão do ator de desconstruir essa forte imagem, como acertadamente me disse um amigo em conversa sobre o filme. DeHaan, de início, entrega o que esperamos ver, que é o rebelde desatento às determinações e ameaças do estúdio, que tem algum trabalho em apagar as evidências de seu indisfarçável descaso com Hollywood e sua desobediência aos patrões. Em companhia de Stock e, principalmente, numa visita a sua cidade natal no interior de Indiana, DeHaan passa a encarnar um Dean ainda machucado pela perda da mãe e ansioso pelo carinho dos parentes ainda vivos, com quem é extremamente delicado e atencioso.

Vale, nesse sentido, notar que, em ambas as metades do filme, o personagem está se mostrando – na primeira parte, para o universo de vaidades de Hollywood, só encontrando alívio junto à namorada, e, na segunda, para a câmera de Dennis Stock. Mas, das duas personas que se colocam diante do nosso olhar e opinião, a que realmente cativa, pela autenticidade pessoal que emana, é aquela que as fotos de Stock eternizaram. A atuação sofisticada de DeHaan nos oferece uma leitura de James Dean como uma pessoa finamente inteligente, que sabia administrar a própria imagem a fim de transformar seu desejo de ser ator em algo que não o fizesse ser processado na máquina de fabricar e moer pessoas que Hollywood pode ser, como bem sabemos.

DeHaan/Dean: uma desconstrução em duas facetas.

A construção de Dennis Stock

Descrever um pouco do trabalho de DeHaan é fundamental para compreender a dimensão maiúscula do que foi realizado por Robert Pattinson em Life. Sua proposta foi a de conduzir o personagem Dennis Stock como uma pessoa num percurso contrário ao do James Dean de DeHaan. Se o filme retrata um Dean que vai desconstruir os estereótipos que a História definiu para o ator, Pattinson se vê diante da tarefa de construir uma pessoa, já que sobre ela não há registros de grande destaque fora do universo da fotografia. Esse trabalho é bastante desafiador, porque inclui a obrigação de fazer com que a figura de Stock se torne tão poderosa quanto a de Dean, que está no imaginário cinéfilo há décadas e por isso poderia facilmente engolir tudo e todos mais que estivessem no filme. A mágica da atuação de Pattinson está na opção, assumida também pelo diretor (ele também um fotógrafo, portanto sabedor do que significa estar fora do foco do público), de atribuir não pelo discurso, mas pelos gestos de atuação, uma rica história de vida ao fotógrafo Dennis Stock.

Stock/Pattinson fotografando e sendo fotografado: o contraste sombra-luz sinaliza um passado a ser apagado e a possibilidade de um futuro feliz.

A um só tempo, o trabalho de Pattinson confere a seu personagem uma complexidade pessoal análoga à de Dean, e justifica em plenitude o fato de Stock ter batalhado com determinação pela concordância do arredio ator em ser fotografado. Essa justificativa é importante porque, nessa batalha, o fotógrafo chega a abrir mão de oportunidades de trabalho interessantes e quebrar a promessa feita ao filho de estar com ele por alguns dias após longa ausência. Reitero que não são as falas do personagem que configuram sua história para nós, porque Stock a resume a duas ocasiões: casamento e filho antes dos vinte anos. A ferida existencial que compõe o arco do personagem se articula a seus atos para nos delinear com precisão que tipo de pessoa é Dennis Stock e por que ele merece ter sua história ligada à de uma figura gigante e icônica como Dean, e isso é manifestado quase exclusivamente no registro delicado, dolorido, mas contido, da atuação de Pattinson.

Por isso, ao ouvirmos de sua boca que insistiu em seguir Dean para atender aos próprios instintos, sabemos que essa razão não é suficiente. Há por trás dela um desejo de construir-se como artista e, com isso, assim como o reconhecidamente talentoso ator, singularizar-se em algo que representasse criação verdadeira, representasse um fazer acontecer. O que Pattinson confere de profundidade pessoal a Dennis Stock torna o personagem à altura de Dean, mesmo que este traga a carga histórica que já nos faz compreender sua grandeza antes mesmo de começarmos a assistir ao filme.

O James Dean real e o Dennis Stock de Pattinson em momentos de afeto – bela rima pensada por Anton Corbijn.

Pattinson deixa evidente que duas coisas fundamentais para Stock naquele momento eram reconhecer-se e ser reconhecido, sendo que uma era intrinsecamente dependente da outra. A profunda angústia que sente em estar na casa da família de Dean e ver tudo aquilo que ainda não pôde ter nem oferecer é manifestada no expressivo rosto de Pattinson, e isso dá um novo sentido ao ato de fotografar seu objeto de criação: ao capturá-lo em sua câmera, busca capturar um modo de construir uma pessoa que ele próprio deseja ser um dia: não famoso, porque não é esse o caso, mas constituído, autoconfiante e pleno.

A riqueza existencial que Pattinson confere ao personagem melhora-o, ratificando assim seu lugar de protagonismo em Life. Muito provavelmente, nas mãos de outro ator, esse personagem, como massa de modelagem, não teria sido investido da importância e complexidade que recebeu no filme. Um ator com menos recursos poderia não ter conferido ao personagem a memória sofrida, repleta de marcas de decisões equivocadas, que Pattinson nos leva a reconhecer com um olhar sempre melancólico, cansado e magoado, porém ansioso diante da oportunidade de se permitir uma segunda chance. Um ator com menos recursos transformaria Dennis Stock em mera escada para um momento-chave da história de James Dean.

A vida é um percurso

As atuações de Pattinson e de DeHaan são cruciais para estruturar o filme como a narrativa de duas vidas que estão seguindo num mesmo percurso mas em direções diferentes, sendo recortado o exato momento em que elas se encontram. Uma dessas vidas já está pronta e consagrada, sem preocupação com a opinião alheia, mas se debatendo contra as consequências funestas que a fama e a louvação trazem. A outra vida ainda está em fazimento, e busca o reconhecimento do mundo, mas também procura pelo próprio reconhecimento de si como uma pessoa cuja existência vale a pena, vale ser notada, e cujo trabalho vale ser elevado à condição de Arte.

Stock/Pattinson e Dean/DeHaan em ação.

A estrutura do filme erigida sobre duas vidas que em algum momento de seus trajetos se encontram – uma em desconstrução, outra em construção -, revela ainda a delicada, e talvez involuntária, polissemia do título em inglês: Life não é apenas a Revista estadunidense em que as fotos de Dean foram publicadas; life (vida) é o grande percurso que permite que duas pessoas sejam capturadas num instantâneo que retrata o exato momento de seu encontro e reconhecimento. E, mesmo estando elas em processos existenciais diferentes, o fato de se proporem percorrer o mesmo trajeto é uma condição favorável a que se modifiquem mutuamente e aprendam uma com a outra, na medida do possível.

Evidentemente, boa parte dessa precisão estrutural se deve ao roteirista Luke Davies, também responsável pela adaptação para Cinema de Lion: uma jornada para casa,  bem como à robusta atuação de Dane DeHaan como James Dean, que é o elemento a provocar o personagem Dennis Stock à autoavaliação. Contudo, o trabalho cativante e emocionado que Robert Pattinson realiza na composição de seu personagem lhe confere uma verdade tão consistente que nos leva a acreditar no talento e na importância do trabalho de Dennis Stock e torcer para que ele consiga encontrar-se como artista e pessoa, e tenha um futuro brilhante, o que de fato aconteceu. Essa crença se estende para os trabalhos futuros de Robert Pattinson, somando-se à confiança de que seus próximos filmes nos entregarão atuações ainda mais consistentes, inspiradas e amadurecidas.

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