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Mulher-Maravilha e o aprendizado da potência

Mulher-Maravilha e o aprendizado da potência

Ana Flavia Gerhardt - 8 de junho de 2017

Este texto contém spoilers de Mulher-Maravilha. Para ler a nossa crítica sem spoilers, clique aqui.

No topo escuro de uma torre, em meio à noite cortada por rajadas de metralhadoras e explosões de bombas, uma mulher e um homem duelam com armas superiores em letalidade àquelas usadas na guerra paralela à sua batalha particular. A mulher, porém, está convencida de sua superioridade bélica porque traz consigo a espada que, segundo seu povo, é a única arma capaz de destruir seu oponente, e assim destruir todo o mal que ele tem causado. Só que, para seu absoluto terror, a tão poderosa arma simplesmente se dissolve no choque contra a mão de seu inimigo; com ela, desaparece não apenas sua chance de vitória, mas também a última trincheira das crenças que alimentou durante toda a vida e trouxe àquele mundo estranho, frio, em que não há em nenhum lugar a nítida distinção entre bem e mal com que foi acostumada a pensar o mundo, na segurança iluminada de seu lar.

O desaparecimento da espada pode lhe ter trazido perplexidade e terror, mas a mim, espectadora e feminista, o que trouxe foi alívio, porque o grande ponto complicado na construção da personagem Mulher Maravilha e seu mundo de origem era o fato de que, num mundo em que as mulheres reinam vivendo a sua potência de vida em plenitude, honra e força, com valores distanciados dos preconceitos de gênero, raça etc. que sustentam as sociedades ocidentais, paradoxalmente o grande elemento a instituir e garantir um mundo de justiça e paz era um símbolo fálico. Ao vê-lo desaparecer nas mãos da heroína, reconheci naquele momento a sua virada para a descoberta de si mesma, descolando-se do mundo de onde veio e colocando-se cada vez mais íntegra e constituída, pronta para caminhar pelo mundo sem mais se machucar com as incoerências que, ao contrário do que muita gente acredita, não estão em Ares, nem em deus, nem no diabo, mas sim em nós, e que, se nos tornam maléficos de uma maneira que chega a ser assassina, é parte do que nos impele a construir, junto com os outros ao nosso redor, relações baseadas em valores éticos e respeito. “Eu escolho o amor”, ela diz, consciente de que, ao enunciar essa frase, está na verdade escolhendo a contradição inerente ao humano; está escolhendo o verdadeiro conhecimento, que nada mais é do que o conhecimento acerca dessa contradição. Nem cabe perguntar se essa escolha é boa ou ruim, porque, de fato, não há outra escolha a fazer.

O seu oponente não é seu único professor de vida. Diana contou com dois outros ensinadores preciosos a lhe apontar os caminhos de conduta que sustentam nossa lucidez diante da contradição que testemunhamos no mundo e também em nós. Durante a infância, seu exemplo foi sua tia e preceptora Antíope, encarnada na simplesmente deslumbrante e gigantesca Robin Wright, que, já com mais de quarenta anos, portanto fora dos padrões etários das estrelas de Hollywood, floresceu artística e politicamente em House of Cards e neste momento é uma das figuras mais representativas das conquistas femininas no show business, ao reivindicar e receber salário igual ao seu companheiro de cena na série que também produz. Robin Wright é o melhor casting do ano, porque não tem como a gente admirar sua poderosa e sábia Antíope sem mesclar isso à importância da atriz na mídia atual. O que a personagem significa na vida de Diana assume uma clareza cristalina em um rápido momento do filme, em que o rosto de Robin/Antíope aparece na tela por menos de um segundo, mas que é tempo suficiente para revelar em completude as suas mais profundas convicções: cavalgando para a batalha, Antíope não faz ideia do que vai acontecer, se vencerá, se perderá, mas o importante é estar na luta, é se envolver nela com corpo, mente e coração, e ser capaz desse envolvimento, sentir-se inteira para lutar pelo que acredita e defende, é a única coisa que realmente importa, porque é a única coisa que está em nossa mão construir. Eu não tenho palavras para descrever meu sentimento quando vi essa rapidíssima imagem, nem para segmentar a quantidade de significados que se combinaram em minha mente ao reconhecer ali o brilho da verdadeira Arte, como provocadora da verdade que existe em nós e que muitas vezes teimamos em esconder até de nós mesmos. Ver alguém viver essa verdade com a beleza e compreensão que Robin Wright assume me fez chorar no cinema, porque o que vi na tela corresponde a todos os meus sentimentos e projetos de vida mais caros. Robin Wright é realmente uma das mulheres maravilha da contemporaneidade.

Seu segundo ensinador é Steve Trevor, vivido por Chris Pine, outra escolha feliz de elenco, porque se trata de um ator que temos visto fazer escolhas de trabalho bastante felizes, e tem conseguido sustentá-las de forma amadurecida e consciente, como por exemplo no importante filme Hell or right water. Depois de encarnar à perfeição outro herói em Star Trek, emulando encantadoramente o icônico James Kirk, Pine entrega em Mulher Maravilha um personagem que reúne as qualidades dos papeis que tem interpretado: a leveza em lidar com a vida e a capacidade de construir amizades sinceras, aliada ao entendimento de que está tratando de questões e sentimentos complexos, e com ações que envolvem graves consequências. O que resulta dessa receita é uma interpretação cativante, que em nenhum momento sai dos trilhos na sua escolha de registro, mas que, ao mesmo tempo, é extremamente expressiva, e para isso Pine reúne, além do seu próprio talento e experiência, o trabalho da diretora Patty Jenkins, que mantém seu rosto em primeiro plano, acentuando a beleza e a maturação que o tempo tem proporcionado ao ator. Trevor também é um personagem que ensina a Diana que o importante na vida é o que fazemos seguindo nosso coração e desejo, mas no caso dele isso ocorre de maneira mais contundente, porque sua fala surge nos momentos de crise da heroína, quando ela tem de lidar com os problemas de forma imediata e, por isso, precisa de respostas igualmente imediatas. Mas penso que isso não seria possível se durante a vida ela já não tivesse contado com outra figura que lhe indicasse as direções certas. Até porque o aprendizado de ensinamentos tão importantes às vezes nem cabem numa vida. Tanto é que, para muitos, nem todos os ensinadores do mundo são suficientes para que elas aprendam essas lições tão fundamentais.

À personagem Diana, por sua vez, cabe assimilar e superar as inevitáveis crises existenciais provocadas pelas incongruências que testemunha – e a guerra, sabemos, é palco de todas as incongruências que existem. Como se trata de um filme de super-heroína, isso, claro, se acompanha de eventos catastróficos, em que as habilidades da princesa vão ficando cada vez mais evidentes, na medida em que também se evidenciam para a próprio personagem, trazendo-lhe autoconhecimento, autoconfiança e serenidade em relação ao seu próprio poder. No século vinte e um, é assim que se constrói um herói, e finalmente a DC parece ter entendido que não dá mais para fazer blockbuster com personagens sem contradição e sem motivações e elementos substanciosos que sustentem suas ações e desencadeiem crises e mudanças. Na magnífica trilogia do Batman dirigida por Christopher Nolan, baseada em conflitos existenciais do protagonista e de seus oponentes, isso foi feito com genialidade; no caso de Mulher Maravilha, também deu muito certo, porque essa contradição não é apenas interna ao processo de autodescoberta da personagem, mas diz respeito ao tempo do mundo em que ela irrompe, que é um tempo de injustiça e desigualdade ainda maiores do que as que vivemos hoje, em que o discurso da inferioridade da mulher (sustentado em bases tão ridículas que nem vou enumerá-las aqui) também era o que baseava inúmeras instituições bem como a formulação de leis. É música para meus ouvidos a fala de Diana comparando determinada profissão socialmente feminina à escravidão; é um deleite para meus olhos ver sua perplexidade diante do machismo e da exclusão da época, que para a sociedade da época eram coisa natural, mas que já estavam desmascarados na mente e na ação de muitas mulheres, daí sua luta histórica por rupturas, pela qual muitas deram a vida, e pela qual seremos eternamente penhorados, homens e mulheres do século vinte e um. É nossa tarefa de vida, em todas as nossas ações do cotidiano, não deixar que os tempos obscuros que já chegaram desqualifiquem a libertação que as feministas do passado nos proporcionaram. Mesmo que, como me lembra a queridíssima Yasmine Evaristo, o feminismo em Mulher Maravilha se localize na discussão das mulheres brancas do início do século vinte, de forma alguma ele deve ser desmerecido, porque seus princípios podem muito bem compor a interseccionalidade que precisa necessariamente caracterizar a discussão sobre preconceito no tempo em que vivemos.

Algumas das críticas que ouvi sobre o filme dizem respeito ao despreparo de Gal Gadot para viver personagem tão emblemática. Para nós, brasileiros, essa ideia fica mais aparente porque Gadot se assemelha bastante à atriz global Ísis Valverde, que tem construído sua carreira sobre a imagem de menina jovem, bonita e tola. Mas, no caso de Gadot, não vi nada que desabonasse; me agradou não apenas a escolha da atriz como também seu figurino, distante do uniforme horrendo e americanófilo da Mulher-Maravilha da década de setenta. Notei em especial um elemento que marca a diferença antes-e-depois da autodescoberta de Diana, que no caso diz respeito à constatação das contradições do mundo e das pessoas mesclada à apropriação dos próprios poderes. Enquanto habitante de Themyscira e nos primeiros tempos no mundo “aqui fora”, Gadot conferiu à personagem uma fala um tanto rouca (aliás algo que Ísis Valverde também faz), que vai aos poucos dando lugar a uma dicção mais decidida e limpa, à proporção que a personagem amadurece.

O bonito detalhe da voz de Diana é mais um dos componentes interessantes do filme de Patty Jenkins, uma escolha perfeita para um filme sobre uma mulher potente, como potentes somos nós todas as mulheres, que precisamos em algum momento reconhecer nossa própria potência neste mundo em que já nascemos em desvantagem por causa de nosso gênero, e por isso precisamos não apenas conquistar, mas também celebrar ao máximo nossas conquistas. De seu turno, Mulher Maravilha e Patty Jenkins são duas conquistas que precisam, e muito, ser celebradas, porque é mesmo uma maravilha de filme, não apenas no que traz de enredo e narrativa, que são o enredo e a narrativa da vida de muitas mulheres, mas também com sequências extasiantes, que me fizeram chorar mais de uma vez no cinema (que, a propósito, estava lotadíssimo, o que é extraordinário para uma segunda-feira no interior do RJ, e absolutamente silencioso – nem celular ligado percebi; quem é cinéfilo sabe o que isso representa): a cena inicial com todas as mulheres vivendo sua potência, que já citei aqui, é lindíssima, e já dá o tom do filme, rompendo a tela e nos impregnando de energia; a cena do front é um espetáculo para os olhos e para o coração; entre tantas cenas de coragem heroica que temos visto no Cinema, essa em especial emociona por também trazer uma coragem moral que anda rara no mundo, e nos convida a perseguir aquilo que transborda na personagem. Uma coisa linda de se ver, cuja grandiosidade precisa ser vista no cinema.

Bom, este texto acabou falando de personagens e aprendizados, e seria só de louvação, não fosse um trio de vilões tão inferior aos seus heróis. Outra lição dos blockbusters de arte (copio essa maravilhosa expressão do excelente crítico e grande amigo Filippo Pitanga) é a de que não dá mais para fazer filme com vilão ruim, com atores ruins. Grandes vilões como Anthony Hopkins, Alfred Molina, Meryl Streep, James Spader, Alan Rickman, Oscar Isaac, Kathy Bates, Heath Ledger, Tom Hardy, Glenn Close, Mads Mikkelsen, Charlize Theron, Tom Hiddleston, Katherine Keener, só os que lembro agora, já são História suficiente para não errar mais nisso. Os vilões de Mulher Maravilha são tão desproporcionais aos seus heróis, tão monocromáticos e overacting, que nem vou tomar o tempo do leitor (e já tomo muito, estou ciente disso) com eles. O que resta ao espectador é torcer para que eles desapareçam logo da tela e deem lugar ao que realmente interessa, que é o arco narrativo de Diana, princesa de Themyscira, seus encontros com pessoas maravilhosas e seu aprendizado da potência.

E esse arco termina como começou, amarrando o círculo perfeito das narrativas de primeira grandeza: no início do filme, vemos uma pequena e fofa Diana ávida por se lançar no mundo, mas conseguindo apenas se lançar no penhasco que lhe ceifaria a vida, não fosse a mão protetora de sua mãe para segurar seu ímpeto heróico/suicida. Ao fim do filme, a Diana que se lança no vazio já é uma pessoa plenamente consciente e apropriada do alcance de seu poder, por isso o que vemos não é sua queda, mas sim seu voo autônomo e repleto da potência aprendida com os melhores mestres e as mais árduas lições.

Eu gostei imensamente de Mulher Maravilha e me emocionei com o filme, sobretudo pelo fato de que as ideias que apresenta e discute já estão presentes em outros filmes, porque são ideias fundamentais para que as pessoas se constituam e construam o letramento de si mesmas – tarefa que produz sofrimento, mas também lucidez e integritude. A história de uma mulher que opta por romper com crenças equivocadas para ser e viver plenamente o que está destinada a ser não é apenas história de super-heroína; pertence a todas as mulheres, que trazem em si tudo o que pode um ser humano, mas que, por tudo que se inventou no mundo para sufocar a potência e provocar a paralisia, podem passar a vida sem reconhecer em si mesmas o que são e o que fazem de bom e de potente. Esse reconhecimento é necessário e urgente não porque o mundo precisa de bondade e potência, mas porque isso está em nós, faz parte de nós: uma vida guerreira, plena de prazer em guerrear. Precisamos de obras como Mulher Maravilha para ajudar a despertar nas mulheres, e em todas as pessoas que precisam ter isso despertado, esse sentimento.

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