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O Apartamento

O Apartamento

Nathan Amaral - 4 de janeiro de 2017

O aclamado e premiado diretor Ashgar Farandi está de volta aos holofotes com um dos favoritos ao Globo de Ouro e Oscar de melhor filme estrangeiro da temporada.

O Apartamento (The Salesman, ou Forushande, em árabe) é a reafirmação de que a estética simples e envolvente de Farandi funciona com uma precisão assustadora em mais um filme carregado pela sutileza nas provocações de seu estrangeirismo.

Na trama somos apresentados a história do casal Emad e Rana Etesami, dois típicos Iranianos de classe média que terão seu casamento colocado a prova diante dos estresses e provações na busca por um novo apartamento para morar enquanto preparam-se para uma apresentação teatral do clássico de Arthur Miller, A Morte do Caixeiro-Viajante.

Para os já familiarizados com a obra de Farandi, principalmente com aquele que considero antecessor espiritual de O Apartamento, o vencedor do Oscar A Separação, de 2011, ou no francófano O Passado, de 2013, não haverão grandes surpresas: o distinto aroma de simplicidade mundana da direção de Farandi está mais presente do que nunca.

A película não conta com grandes proezas em sua edição ou montagem, rechaçando quaisquer efeitos especiais ou trilhas sonoras inorgânicas, para que o espectador seja transferido e envolvido a realidade de um Irã tão urbano quanto uma semana na casa de amigos de São Paulo ou Bogotá, tão palatável quanto se estes amigos estivessem lhe contado uma história que aconteceu com seus vizinhos e tão teatral quanto um filme com essas pretensões e execuções precisa ter para se apoiar.

Em outras palavras: a magia deste filme é ser um filme comum, num Irã comum e com pessoas comuns em uma trama comum. O que o faz totalmente incomum é o modo como seu enredo e sua montagem irão explorar as diferenças mais dolorosas e chocantes, como se estivéssemos anestesiados e pudéssemos ver o cirurgião abrindo nosso abdome com um bisturi lentamente, daquilo que nós chamamos de sociedade oriental versus sociedade ocidental – dos nossos valores e garantias morais e dos julgamentos instantâneos que fazemos ao outro.

Os elementos de apoio a essa expedição das inquietudes do espectador estão por toda a parte; seja na trama principal que se desenrola a partir da busca por um novo apartamento, seja na trama secundária e seus pequenos dilemas morais dos ensaios e da apresentação da peça de teatro, seja na maneira como o filme nos conduz a resolver mistérios junto as personagens sem nos presentear com a confortável onisciência tão comum no cinema ocidentalizado somente para que, ao final, estejamos entregues às suas angústias e inquietudes: O Apartamento nos conduz a onde quer e quando quer.

Vilões e heróis, bondade e maldade, estes conceitos são rechaçados e dilacerados pelo conjunto de variáveis complexas e erros sinceros que somente poderiam ser cometidos na nossa sociedade, urbana e interligada, à nossa maneira e com as consequências às quais estamos acostumados a conviver e, muitas vezes, utilizamos do cinema como entretenimento para escapar.

Queremos heróis e vilões, queremos certezas de que o bom e o mal existem e que podemos contar histórias que transcendam o espectro da arte para que o abraço confortável da previsibilidade nos envolva; queremos saber de dramas cuja solução tem apenas uma decisão, uma frase, e sob apenas uma justiça.

O que fazemos, então, quando o cinema nos joga um balde d’água fria e nos dá justamento o contrário?

Nós aplaudimos.

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