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O Filme da Minha Vida
Nota:

O Filme da Minha Vida

Matheus Fiore - 3 de agosto de 2017

Em seu terceiro filme como diretor, Selton Mello já possui alguma bagagem e conforto para ter suas próprias ferramentas para contar histórias – o impulso vital de um diretor de cinema. Em parceria com Walter Carvalho – um dos maiores diretores de fotografia da história do cinema brasileiro, então, é normal que O Filme da Minha Vida seja um deleite visual e narrativo do começo ao fim. Adaptado de Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármet (autor de O Carteiro e o Poeta) este novo projeto de Mello conta a história de um jovem professor de francês, Tony Terranova (Johnny Massaro), que nunca superou o abandono de seu pai, Nicolas (Vincent Cassel) e ainda anseia por seu retorno à pequena cidade do interior do Rio Grande, onde Tony o aguarda com sua mãe, Sofia (Ondina Clais Castilho).

Desde os primeiros planos do filme notamos o talento de Walter Carvalho. A fotografia salta aos olhos pela capacidade de enquadrar diversos elementos em distintos pontos de profundidade, como também pela belíssima tonalidade sépia que permeia a obra. A escolha de tons ressalta a atmosfera saudosista que acompanha o longa. E esse saudosismo, acertadamente, não está presente só nas cores, mas também nas relações de memórias dos personagens,como a moto que Tony repetidas vezes encara na garagem de sua casa, mas não demonstra interesse em pilota-la. O veículo deixou de se tornar um meio de transporte e tornou-se apenas uma ferramenta que conecta o protagonista às memórias de seu pai. E nem só ali está presente o saudosismo do personagem principal. Há, por exemplo, a janela que, ao encarar, o jovem automaticamente transporta-se para sua juventude, ao ponto da obra retratar Tony na mesma posição em que está, mas interpretado por uma criança.

A saudade do pai se faz presente também no psicológico do personagem. A formação como professor de francês é uma clara referência à nacionalidade do pai que o abandonara. É curioso notar, portanto, que sempre que uma canção acompanhar os sentimentos de Tony, esta música será cantada em francês, ilustrando pelo som o elo entre o professor e seu desaparecido pai. Já quando a música é utilizada com outros personagens, é comum que ouçamos canções em língua portuguesa ou inglesa, já que trata-se de um filme ambientado no Brasil.

Notável também é o elo nostálgico do elenco de apoio com o passado. Luna (Bruna Linzmeyer), por exemplo, diz para sua irmã que “o tempo parou” enquanto ela esteve ausente, deixando clara sua vontade de reviver tempos passados, quando a caçula ainda estava acompanhada de sua irmã mais velha. Há também a relação de Sofia, a mãe  de Tony que fora abandonada por Nicolas, que recusa-se a seguir sua vida e não remove sequer a aliança do dedo, mesmo consciente do abandono que sofreu. A relação ainda ganha um viés cômico quando explorada por meio de Paco (Selton Mello), o tio “conservador” do jovem protagonista que chega a afirmar que “nada substituirá o rádio” e que “a televisão é passageira”.

Infelizmente, esse tom cômico não flui tão bem quando exacerbado. Funcionando como centro dramático em alguns momentos, o personagem de Paco acaba tendo uma sequência de piadas no segundo ato que quebra o ritmo do filme e enfraquece justamente a revelação mais importante de O Filme da Minha Vida. No meio da projeção, começa a pesar também a necessidade do cinema brasileiro de ater-se ao texto de forma literal, sem espaço para interpretação. O resultado é um conjunto de atuações  extremamente esquemáticas e engessadas, que pouco acrescentam à trama, além de não desenvolverem seus personagens por torná-los genéricos.

Mas se o apego ao texto é uma marca negativa do cinema brasileiro que não é superada aqui, não podemos dizer o mesmo do som. Um elemento imprescindível da arte audiovisual, o som do cinema nacional não costuma receber um capricho como o visto aqui. Desde a equalização e tratamento das vozes à criação de sons diegéticos, tudo contribui para o impacto das cenas, existindo até uma transição de música extra-diegética (não presente na história mas presente na narrativa) para diegética (presente na história e na narrativa), que ressalta, inclusive, como a imaginação de Tony se materializa em seu dia-a-dia.

Um dos mais fortes elementos do longa para criar o elo entre a história e o espectador é a fantástica atuação de Johnny Massaro. Desde os olhares inocentes e infantilizados que expressam sua admiração por uma figura feminina às cenas mais obscuras, nas quais o jovem ator está sempre cabisbaixo e inquieto, Tony acaba sendo um protagonista de fácil identificação por sua pureza e honestidade. No momento mais impactante do filme, porém, o roteiro volta a impedir a obra de alçar voos mais altos ao não mostrar sentimentos mais impulsivos diante da clara decepção do protagonista com suas descobertas. A transição de ódio para aceitação é justa, mas muito breve para que o terceiro ato do longa possua um impacto dramático.

Com seus deslizes e acertos, O Filme da Minha Vida é uma obra honesta e pura, que se destaca pela candura de seu protagonista e pela beleza estética proporcionada pelos incríveis enquadramentos do diretor de fotografia Walter Carvalho. Uma obra que, além de alavancar o diretor e o ator protagonista para um novo patamar, são uma bela adição ao rico repertório da atual fase do cinema nacional, que vem mostrando cada vez mais vontade de diversificar. Aqui, então, temos como resultado um belíssimo filme sobre saudade, crescimento e afeto, que, pela condução leve e intimista de Mello, torna-se uma doce viagem ao mundo de Tony Terranova.

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