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O Mensageiro: um filme sobre o que está além do humano

O Mensageiro: um filme sobre o que está além do humano

Ana Flavia Gerhardt - 9 de junho de 2017
O texto abaixo contém spoilers de toda a trama do filme

Já vou iniciar este texto recortando o lugar de onde escrevo: eu não acredito em deus ou qualquer outra divindade de qualquer religião. Por muitos anos tive religião e uma crença em algo divino, mas, ao longo da vida, e sob a força do que fui aprendendo em Filosofia e Ciências Humanas, fui pouco a pouco associando a crença em deus e numa outra vida pós-morte não apenas a um pânico do desconhecido e da extinção, mas também à recusa da humanidade em reconhecer a própria produção de injustiça e desigualdade, fabricando uma realidade fictícia em que uma determinada entidade se torna poderosa o suficiente para exercer a devida punição aos criminosos em geral – exploradores, genocidas, estupradores, ladrões, corruptos, e para premiar todos os infelizes que não puderam lograr a ventura e a saúde que a muitos foi possível na Terra.

Neste momento da minha vida, articulo necessariamente qualquer religião a uma complexa construção de subjetividade, que é constitutiva dos modelos econômicos hegemônicos em todos os tempos, e em que se supõe uma realidade futura, sustentada tão-somente pela fé, em que a pessoa excluída das esferas sociais privilegiadas gozará da felicidade que sua condição de semi-escravidão não lhe permite nesta. Isso sem contar que já estou convencida de que nenhuma religião pode tornar qualquer pessoa melhor, já que encontro hipocrisia e egoísmo, mas também grandeza e serenidade, em todas as pessoas, independente daquilo em que acreditam.

Mas isso não impede que eu me emocione profundamente com histórias que trazem a relação do ser humano com o infinito, o absoluto, com aquilo que é maior do que ele mesmo, sobretudo quando se deixa claro que essa relação é do ser humano consigo mesmo, e com a medida da sua habilidade em viver como pode o pouco de vida que lhe cabe diante da imensidão inimaginável ao seu redor – uma pequena parte habitável de um planeta gigantesco, dentro de um sistema solar maior ainda, de uma galáxia bilhões de vezes maior, de um universo trilhões de vezes maior. Tudo isso é muito, muito maior que nós, e o mero ato de falar sobre isso já é uma grandiosa ousadia, porque quem fala disso sempre estará tratando de algo que ultrapassa os limites não só da palavra, mas de qualquer outra semiose, seja no espaço, seja no tempo.

Essa ousadia é um dos componentes que mais me saltaram aos olhos ao assistir extasiada ao maravilhoso O Mensageiro, disponível na Netflix. De imediato, a discussão proposta pelo filme bem como o seu enquadre cinematográfico me pareceram ter um dedo de Terence Malick, cineasta também afeito ao desafio de abordar temas que sempre serão maiores do que tudo o que pudermos dizer e fazer. E, de fato, Malick participa como um dos produtores do filme, junto com Martin Sheen, mas o roteiro e a direção são do porto-riquenho Julio Quintana, em seu primeiro e promissor longa.

Quintana parece ser um herdeiro natural do trabalho de Malick, porém construindo um encaminhamento narrativo diferente, mas a meu ver necessário ao experiente cineasta, que tem trazido seguidamente trabalhos numa mesma linha condutiva, o que me fez perder o interesse por seus filmes mais recentes.  Em O Mensageiro, os diálogos são organicamente mesclados às reflexões de um dos personagens; isso permite que seu pensamento se ajuste ao desenrolar da trama com dados importantes para que possamos entender as motivações dos personagens e empatizar com eles, sem perder de vista a orientação do enredo em direção ao seu tema central, que é o vislumbre, quase sempre assustador, de algo maior que o humano.

E o que, no caso do filme, é esse maior? Justamente aquilo que extrapola nossa capacidade de negociação com a vida, e a morte, munidos dos instrumentos que ao longo da história da humanidade fomos amealhando como escudos para a luta inglória com o inevitável: quais sejam, a ideia de que deus não nos dará uma cruz maior do que a que pudermos carregar, nem qualquer dor que não teremos condição de suportar sob sua proteção e amparo; e de que tudo o que nos acontece, de bom e ruim, é porque deus assim quis, para nosso bem, para fortalecer nossa fé nele e numa vida eterna, em que nos encontraremos com os nossos queridos e viveremos felizes para sempre.

Em O Mensageiro, essa extrapolação vem como, literalmente, uma onda gigante que invade a porção mais junto à praia de um pequeno povoado à beira-mar em pleno horário escolar, destruindo uma escola e carregando, junto com o professor, todas as 46 crianças que ali estavam: filhos, netos, irmãos… todas as crianças daquele lugar. Pequenas vidas ainda em botão, inocentes, sem pecado e sem culpa. A tragédia coletiva faz com que a bondade e as promessas de deus, tão anunciadas pelos sacerdotes, e, claro, o próprio deus, deixem de ter qualquer valor para os seus sobreviventes.

Por isso, eles seguem sua existência devastados num luto que alcança uma dimensão visceralmente despotencializadora: não há mais prazer, nem afetos; não há mais alegria, não há projetos, nem renovação; os mais jovens vão embora, e os que ficam se entregam a uma melancolia sem fim, dispostos a não mais ter filhos, comprometidos entre si de não mais se conectarem à vida, e com isso ingressando, em sua infinita dor, já no outro lado, como se tivessem sido levados pela tsunami junto com seus filhos. E, obedecendo ao mandamento de a Arte não ser representação, mas revelação, o cenário retratado por Quintana também abraça a morte em vida escolhida pelos personagens: casas se despedaçando, roupas puídas, caminhos de pedras nuas; apenas o mar e o sol, em seus movimentos incontroláveis, permanecem revelando alguma vida.

O padre do lugar, por sua vez, torna-se inútil e abandonado, porque os habitantes da vila abandonaram deus, embora acreditem que foi o contrário, como o discurso religioso costuma propagar. E o motivo não pode ser mais legítimo: “se um homem mata uma criança, nós o condenamos à morte; mas, quando deus mata 46 crianças, nos dizem para louvá-lo”, diz uma das personagens.

Mas um fato abala o que foi contratado pelos habitantes do vilarejo: dois de seus jovens, um deles decidido a sair dali no dia seguinte, resolvem beber um pouco mais e caem no mar, afogando-se. Mortos, são trazidos para a vila, mas, depois de três horas, um deles acorda, e sua ressurreição acaba por ser vista pelos moradores como um sinal do retorno do que eles chamam de deus, mas que na verdade é o retorno da potência que eles não tinham condições de recuperar sozinhos, porque a religião tem esse poder de fragilizar as pessoas, incapacitando-as de buscar por si, e em si, o próprio desejo, e fazendo-as acreditar que agem sob o desejo de um outro.

As três horas passadas no mundo dos mortos tornam o rapaz uma criatura diferenciada aos olhos de seus vizinhos: é capaz de trazer saúde os moribundos; a sua simples presença é um evento especial; os objetos que usa tornam-se talismãs. Seu feito conduz as pessoas novamente à condição de seres desejantes, que é o destino mais importante e mais verdadeiro do ser humano. Até o padre é atingido pelo milagre de sua ressurreição, vendo nela uma forma de resgatar em todos a fé que até nele próprio morria, já que ele também não era capaz de encontrar dentro de si as respostas às indagações que todos os dias lhe eram feitas.

Entretanto, nada disso é verdade: o “renascido” é só um rapaz comum, com sua dor pessoal, culpas e frustrações. A constatação desse fato óbvio é o estopim da loucura que naquele lugar já estava instalada, em cada um de uma dada maneira, e Quintana acompanha a construção desse clímax com uma câmera em movimentos de intensidade crescente, capazes de evidenciar a profunda angústia, solidão, perdição e desamparo daquelas pessoas, que, submersas em sua dor e, sobretudo, no seu desejo de permanecer nela, tornaram-se tão crianças quanto aquelas que morreram, porque desejosas de um pai que lhes garantisse o lenitivo às perdas que a vida ingrata lhes impôs, e incapazes de reconhecer que juntas poderiam recuperar, um pouco que fosse, do sentimento que a onda levou.

O que se segue a essa explosão de loucura é o que transforma O mensageiro em um filme singular e imprescindível, o oposto absoluto a bobagens feito A cabana, e companheiro de obras significativas como Sete minutos depois da meia-noite, aptas a tratar da nossa vocação em construir alternativas de negociação com a vida, que por sua vez é parte da nossa vocação em reconhecer nossa verdadeira condição: navegantes em uma casca de noz, passíveis de submergir num mar repleto de perigos, num ambiente onde sequer conseguimos respirar.

Porém, o que nos impele a continuar navegando, mesmo conscientes das ameaças, mesmo em circunstâncias tão adversas, é também o que nos fortalece em nossa viagem. E é igualmente o que promove os encontros verdadeiros com nossos semelhantes, que nos trazem a interlocução e a lucidez capazes de nos fazer reconhecer que o que atribuímos à vontade de algum deus na verdade é o nosso próprio desejo de viver, de navegar, enquanto houver vida, enquanto houver mar, e enquanto houver quem deseje navegar junto conosco.

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