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O Planeta dos Macacos (1968) e as camadas de temporalidade

O Planeta dos Macacos (1968) e as camadas de temporalidade

Ana Flavia Gerhardt - 1 de agosto de 2017

Existem algumas frases de efeito que repetimos ao longo da vida sem nos darmos ao trabalho de compreender de fato o que elas significam; se nos dedicarmos a essa tarefa, veremos que na maior parte das vezes elas não têm o menor sentido. Uma dessas frases bobas é a que diz, sobre alguém ou algo, que esse alguém ou algo está à frente do seu tempo.

A frase não tem sentido porque considera todas as coisas como estando em um contínuo temporal unidirecional e, digamos, pró-ativo (= antônimo de retroativo), como se o tempo como algo que está num movimento apenas para a frente fosse a única maneira que temos para pensar sobre ele. E não apenas isso: ela parte da falsa pressuposição de que, assim como o tempo, as pessoas todas também estão se movimentando numa mesma direção pró-ativa, e numa mesma velocidade. Essa ideia é falsa sobretudo porque é contraditória: ao tratar do tempo como algo que se desloca, se direciona somente para a frente e leva as pessoas e as coisas a inexoravelmente se movimentarem da mesma maneira, traz, nessa imposição, algo de estagnação e imutabilidade, já que não podemos fazer nada além de nos movermos de forma igual e, assim, pensar de forma igual, acreditar de forma igual. Nessa perspectiva, a realidade é sempre uma só, e nosso pensamento, por sua vez, é sempre igual. Nada mais equivocado.

E fica mais equivocado ainda se pensarmos naquilo tudo que se conquista no presente e que no futuro acaba sendo perdido, o que indica que vivemos em um eterno ciclo de ampliações e retrações, fazendo com que nosso presente seja a repetição de uma série de antigas formas de viver e pensar, algumas melhores, mas outras bem piores do que as que temos agora. Duas notícias da semana passada são muito exemplares disso: o governo brasileiro sancionou uma lei que permite às pessoas transgênero utilizar seu nome social no CPF, e o presidente Trump proibiu que pessoas transgênero se alistem nas forças armadas estadunidenses. Essas notícias podem ser entendidas, respectivamente, como, de um lado, um passo à frente na história, e, de outro, a revogação de uma conquista social, portanto, um retrocesso histórico. Mas é possível pensar que o aparente avanço é na verdade uma conformação legal a uma das inúmeras formas possíveis da relação do ser humano com o seu gênero, algo que existe desde os primórdios da humanidade. Por sua vez, o aparente retrocesso é a negação, por determinados grupos, da legitimidade dessa prática. E, como já vimos várias vezes, nada impede que num futuro próximo tudo isso troque de lugar.

Um outro fato concreto: neste momento, no Brasil, em que se aproxima o momento das candidaturas para presidente, nossa tragédia é que o que há no cardápio como prováveis candidatos são pessoas que se situam em camadas temporais que nada têm a ver com o século XXI: em 2018, muito mais do que escolher um presidente, teremos de escolher em que tempo queremos viver: na revolução industrial, nas capitanias hereditárias ou no velho testamento. Não porque não haja políticos afinados com o século XXI, mas sim porque, para a nossa desgraça, neste momento eles andam com a popularidade em baixa, por razões que bem merecem outro artigo.

Avançarmos ou retrocedermos, mais que um fato, é um sentimento. Ao mesmo tempo em que imaginamos estar avançando em ideologias, leis e tecnologia, temos certeza de que o mundo está decadente, que a sociedade está deteriorando, que a violência está aumentando, que a linguagem e a Arte estão empobrecendo. Por isso, já faz tempo que alimento a convicção de que nunca saímos nem sairemos do lugar, e que, em vez da horizontalidade do tempo, o que de fato existe é a verticalidade das temporalidades. Camadas sobrepostas de temporalidades: passado, presente e futuro num só espaço. Essa ideia não é original; muitos historiadores já pensam assim.

Por consequência, ao se reconceptualizar o tempo, necessariamente se há de reconceptualizar também o espaço: já que não se compartimentalizam os tempos, também não se poderá falar de espaços diferentes, em que um materializa o que entendemos como aqui, como real, em comparação com um outro lugar supostamente irreal e inverossímil. Isso reforça o conceito de realidades distópicas, porque o distópico é sempre aquilo que funciona como um espelho, para que, através da invenção de uma alteridade espácio-temporal, enxerguemos a nós mesmos sem a camuflagem e as justificativas do nosso contexto. Reforça também a ideia de que não existe qualquer realidade objetiva, que seja mais básica, mais real e mais material que as outras: todas as realidades que o ser humano pode pensar existem por si e são igualmente legítimas a partir do momento em que são pensadas. Não é a concretude física que as legitima, mas sim as suas condições de pensabilidade.

Para quem gosta de Arte e de falar sobre Arte, penso que não há outra alternativa para falar do tempo e do espaço senão tendo em mente a coexistência vertical das camadas do que vivemos e do que ainda haveremos de viver, já que o que pensamos como outro tempo e lugar é algo que já está aí, pelo menos em ideias. Para filmes como O planeta dos macacos, de 1968, essa atitude é, a meu ver, a que pode capturar significados mais fidedignos para uma obra que provou sua importância não apenas no que traz de problematizador sobre o ser humano e a sociedade ocidental, mas também nas sequências que motivou na TV e no Cinema, às vezes com menor qualidade, às vezes com exemplares de importância equivalente, caso dos três últimos filmes, o mais recente prestes a ser lançado. Este texto é uma tentativa de justificar a potência narrativa de O planeta dos macacos, que o mantém em nossas mentes até hoje, a partir do fato de que ele se ajusta soberbamente à percepção de que tempo e espaço são, em grande medida, construções humanas.

Pode parecer paradoxal, mas o primeiro filme O planeta dos macacos, adaptado da obra de 1963 do francês Pierre Boulle, traz muito mais elementos da discussão em Ciências Sociais e Filosofia do século vinte e um do que a trilogia mais recente, que aborda um tema filosófico importante surgido nos primórdios da humanidade, quando começamos a pensar seriamente sobre nós mesmos: o que nos torna humanos e únicos em relação às espécies que compartilham conosco mais de 95 por cento do genoma. O filme estrelado por Charlton Heston, entretanto, abarca temas que atualmente são caros a quem problematiza as perspectivas identitárias de entendimento das categorias, estratificações, preconceitos etc. que vamos construindo em sociedade.

Lá está o macho estadunidense heterossexual branco de olhos azuis, que inicialmente se submete ao domínio dos que naquela sociedade lhe são superiores hierarquicamente, mas que gradativamente se impõe como líder estratégico sobre todos, reafirmando a excelência de sua genética. O republicano Charlton Heston é a perfeita escalação para o cético Taylor, astronauta que partiu numa viagem espacial sem volta por desilusão com o mundo ocidental, incluindo aí as mulheres, às quais se refere com desprezo; sobre sua colega de tripulação, ele diz: “Garota adorável. A carga mais importante que trouxemos. Ela seria a nova Eva, com nossa ajuda, claro”. Cético, mas, como se espera de um macho alfa, sedutor, exercendo fascínio até nas fêmeas que não são de sua espécie.

Falando em machismo, ele também está lá, no descrédito dado às opiniões femininas: quando o casal de chimpanzés cientistas Zira e Cornelius precisa provar diante dos juízes a veracidade de suas descobertas sobre uma suposta civilização humana antiga, Zira, em mais de uma ocasião, incita Cornelius a fornecer as respostas e testemunhos que os salvarão da prisão por heresia, permanecendo em silêncio, mesmo tendo sido co-participante das pesquisas.

Está lá também a rígida estratificação social que separa em classes de valores diferentes as diferentes espécies. Todos os macacos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros, como pontua o próprio Taylor: no topo da pirâmide, os orangotangos, que se atribuem a elaboração, promulgação e aplicação de leis; num estrato intermediário, os chimpanzés, com poderes limitados; e, na base, os gorilas, que apenas seguem ordens. Cada grupo usa, à semelhança das mulheres de Gilead em The Handmaid’s Tale, roupas de cores diferentes, que salientam mais ainda seus lugares sociais.

Está também a religião que alinhava todas as outras ideias, elevando a espécie que a inventou à condição de povo escolhido; ratificando com explicações míticas a diferenciação que sustenta a estrutura social; sacramentando e prometendo a felicidade eterna àqueles que a abraçarem, da mesma forma que condena à danação presente e futura quem a questionar.

Evidentemente, O Planeta dos Macacos de 1968 não é o único filme das décadas intermediárias do século XX a suscitar problematizações que hoje ocupam largo espaço nas Ciências Sociais e na Filosofia, as quais se voltam para si mesmas e se repensam, reconhecendo que o mundo conforme o entendemos é apropriado por um determinado grupo de pessoas para ser imposto como verdade absoluta: um mundo imutável, universal e naturalizado; os discursos hegemônicos são vendidos como não marcados, sagrados, mas, após leitura atenta, se relevam elaborados sob a ótica de quem se colocou no centro de uma categoria e foi relegando à margem, por diversos meios, quem não cabia em seus padrões.

A distopia em O planeta dos macacos se baseia na manutenção dessa estrutura categorial, apenas invertendo as posições e colocando no centro da categoria aqueles que a Biologia situou na periferia, porém as bases que a sustentam continuam as mesmas. Mas não é difícil ver que se está falando de um mesmo mundo, que existe assim há séculos e que alguns sempre foram capazes de ver com clareza, porque se situam numa camada de temporalidade diferente da que está a maioria das pessoas. Da mesma forma que, ainda hoje, com tantas falas relevantes sobre isso, muitos ainda não são capazes de ver, sob o verniz das verdades absolutas, a imposição discursiva de um determinado grupo sobre todos os outros.

Não vejo como problema as diferenças temáticas entre O Planeta dos Macacos de 1968 e a trilogia, que aliás acho magnífica, e certamente comentarei aqui no Plano Aberto. Ou, em outras palavras: da mesma forma que O Planeta dos Macacos não é um filme à frente do seu tempo, a trilogia não é desconectada com o momento contemporâneo. O fato de a trilogia aparentemente não retomar os problemas que o filme de 1968 aborda não subverte a filiação com os questionamentos advindos da hipótese (e do desejo…) de dividirmos o planeta com outra espécie de cognição análoga à nossa. O diálogo sobre como seria uma sociedade construída a partir dessa convivência é tão importante quanto a especulação sobre a possibilidade de haver cognição desenvolvida em outro corpo que não seja o do Homo sapiens. Ainda não vi o capítulo final da trilogia, mas não me surpreenderei se lá essas duas questões estiverem presentes e articuladas. Os dois filmes que desenvolvem a história do maravilhoso personagem Caesar já forneceram subsídios suficientes para pensarmos sobre as contradições advindas do fato de que somos iguais a todos os outros de nossa espécie, mas ao mesmo tempo somos diferentes deles também. Essa constatação é que torna O Planeta dos Macacos, em conjunto, uma narrativa extraordinária, cuja importância a linguagem do Cinema evidencia ainda mais.

 

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