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Other People: os heróis do cotidiano

Other People: os heróis do cotidiano

Ana Flavia Gerhardt - 15 de novembro de 2017

Assisti a Other People,  filme de Chris Kelly disponível na Netflix, pensando que, em todos os períodos da história da humanidade, o arquétipo do herói sempre foi fascinante para as pessoas, porque, ao apresentar a possibilidade de que alguém se situe ao mesmo tempo em dois mundos, o humano, espaço das contradições, e o divino, espaço do extraordinário, nos oferece a chance de sonharmos em um dia fazermos coisas extraordinárias, já que alguém com tantas contradições, assim como nós, também o fez.

No Cinema, as narrativas de super-heróis conquistam plateias de todo o mundo, trazendo não apenas a expectativa de vermos gente fazendo coisas extraordinárias para salvar a humanidade, mas também possibilitando, por meio de efeitos especiais que os profissionais do Cinema aprimoram continuamente, o espetáculo visual que é essas pessoas efetivamente fazendo coisas maravilhosas: voar em vassouras perseguindo dragões sobre castelos gigantescos, lutar contra ameaças alienígenas, ter força, sentidos, velocidade e inteligência excepcionais, mudar de forma e cor, e tudo o mais que a gente adora ver no Cinema.

Recentemente, as narrativas cinematográficas têm experimentado um salto de qualidade temática ao incorporarem, ao componente extraordinário que caracteriza o que há de divino no herói, o componente contraditório, que caracteriza o que há de humano nele. Eu particularmente aprecio demais quando essa integração é feita, e penso que os melhores filmes de herói têm surgido dela: Capitão América – Guerra Civil e Mulher Maravilha, este último já resenhado por mim, são dois exemplos de resultados excelentes dessa combinação.

Entretanto, a incorporação da contradição humana à narrativa cinematográfica sobre heróis ainda mantém nosso entendimento de que o que eles fazem de extraordinário está sempre na escala do além do humano, do mágico e do aceitável apenas com a absoluta suspensão de descrença.  Não situamos entre os heróis os que são capazes de enfrentar os difíceis desafios existenciais de toda pessoa – desafios que fazem a grande maioria recuar, acovardar-se e negar-se a agir. Ou seja, não estamos habituados a ver como heróis as pessoas comuns, que fazem coisas que situamos na escala do comum, porque, na nossa cabeça, a vitória no embate para superar as limitações físicas humanas nos torna heróis, mas a superação das contradições existenciais humanas não tem, aparentemente, esse poder.

Heróis não são outras pessoas

Dito com outras palavras, e bem no espírito que o título Other people suscita (e aqui abro uma gigantesca licença poética, já que o filme em nenhum momento sugere o que vou dizer), o que consideramos “other people”, em português “outras pessoas”, são os heróis capazes de fazer coisas extraordinárias; “other people” nunca são os heróis que superam e vencem os embates da vida cotidiana: sermos generosos, lúcidos, corajosos, quando é mais fácil e justificado sermos egoístas, insanos e covardes. Quase sempre julgamos que esses heróis são como nós. Mas não são. No enfrentamento das contradições humanas, há algo de grandioso que é possível apenas a poucos; poucos têm a valentia necessária para isso.

Este texto é sobre nosso herói David.

Mas é interessante notar que o Cinema tem espaço para esses dois tipos de herói. Assim como há categorias de filmes em que se destacam os heróis do extraordinário, também há os que dão visibilidade para os heróis do cotidiano, que no dia-a-dia estão aceitando encarar seus medos e inseguranças em função da necessidade de viver a vida, porque as alternativas para isso não são nada animadoras. Aliás, não ter outra opção é algo que aproxima os dois tipos de herói que estou mencionando aqui, porque a premência e inevitabilidade da luta, qualquer que seja ela, é algo que está na narrativa de ambos. É o que nos ensinam  Geraldo Casalli, herói eternizado pela coluna de Elio Gaspari na Folha de São Paulo, e, mais contundentemente, Helley Abreu, a heroína que salvou mais de vinte crianças de um incêndio criminoso em Minas Gerais.

Chris Kelly, roteirista e diretor de Other People, notabilizou-se como redator do programa de TV Saturday Night Live, e de fato tem construído carreira como pessoa de televisão.  Sua prática como escritor se mostra bem evidente no filme, já que nele não podemos reconhecer grandes intervenções pessoais de direção. A única exceção a isso é a recorrência do enquadramento do protagonista David (Jesse Plemons) sempre separado das pessoas mais próximas e do público por algum obstáculo físico, a fim de se evidenciar a dificuldade do personagem em enxergar formas de transpor barreiras pessoais: a cortina do banheiro que o separa do ex-namorado; os batentes de porta que o colocam em cômodos apartados do resto dos membros de sua família (o que torna bastante significativa a cena final); sua imagem atrás de portas semicerradas.

Por conta da discreta direção de Kelly, Other People passou pelo do Festival de Sundance sem grande destaque, mas acabou sendo disponibilizado na Netflix, o que permite que mais pessoas possam reconhecer suas qualidades como o filme de herói, que, a meu ver, é. E vou explicar.

David, o herói do cotidiano

David é um roteirista (alter-ego de Kelly?) que sai da casa de sua família em Sacramento, Califórnia, para Nova York a fim de cursar a universidade e depois tentar a vida em algum humorístico de TV. Mas as coisas não vão bem, porque ele não consegue emplacar nenhum roteiro, seu namoro termina e, o pior de tudo, sua mãe (Molly Shannon) contrai um câncer raro e incurável. Sem trabalho e sem namorado, David acaba retornando a Sacramento para cuidar da mãe em seus meses terminais. Concretizando de vez o retrocesso existencial que seus fracassos sinalizam, David se viu tendo de passar uma temporada na cidade com a qual nunca se identificou e na casa onde viveu uma adolescência difícil de menino gay nunca aceito pelo pai. Além disso, é obrigado a enfrentar a imensa dor e impotência de ver a mãe indo embora aos poucos. Isso tudo amargando o desemprego e a dor de cotovelo pelo fim de um relacionamento de cinco anos.

David é um herói porque, mesmo com todos esses revezes ao mesmo tempo – e a gente sabe que só uma dessas coisas é capaz de jogar alguém no chão deixá-la lá por anos – não se deixa esmorecer e continua a escrever roteiros e se candidatar para os programas que lhe interessam. Ele sequer cogita a possibilidade de permanecer em Sacramento depois que a mãe morrer, porque é incapaz de se conformar com a condição momentânea em que se encontra durante o tempo de sua vida que o filme recorta. E, o que penso ser mais importante, não deixa de escrever, de criar, o que significa, para quem escreve, o sentimento de que está conectado firmemente à vida, mesmo com tantos movimentos de morte a seu redor.

David e a pessoa mais importante de sua vida: sua mãe.

Pelo enredo, Other People lembra muito James White, de Josh Mond, mas ao contrário: James também precisa cuidar da mãe terminal, mas, diferentemente de David, é uma pessoa infantil e irresponsável, que mal consegue dar conta de si mesmo, quanto mais de outra pessoa. David segura na mão a compressão do que significa a convivência terminal com a mãe. Mas James não consegue se dar conta da dimensão existencial implicada no fato de que estar com alguém amado nos tempos finais de vida, malgrado a dor imensa que isso  traz, é um privilégio, já que todos os laços, diálogos e sentimentos poderão ser vividos em plenitude, enquanto há tempo para isso. James cuidava da mãe por obrigação, e ela para ele era mais um fardo do que propriamente uma possibilidade de viver afetamentos que ficarão para toda a vida.

O que vemos em Other People é David abraçando com gravidade a tarefa que se impunha a ele e, ao mesmo tempo, buscando investir nas práticas que, a seu ver, ainda lhe davam um sentimento de continuar existindo: a tentativa de criar novos roteiros e a busca de novas companhias afetivas. O insucesso nesses movimentos se devem não apenas à contingência trágica de ver a mãe, mulher antes cheia de energia vital, indo embora lentamente – os repetidos passeios pela praça do bairro evidenciam como ela se enfraquecia mais e mais. Se devem também a ele reconhecer que tinha muitas questões pessoais que precisavam ser trabalhadas, como por exemplo os fatos de que não poderia ter expectativas em relação à aceitação do pai sobre sua orientação sexual, e de que talvez não fosse um roteirista tão bom quanto desejava.

Família é assim: estamos juntos, apesar de.

A grandeza heróica de David está em que, como todo herói, ele soube colocar suas contradições em segundo plano em função de um propósito e de um desafio maior: lidar com a inevitável partida da mãe, que, pelos movimentos e gestos espontâneos de aproximação que ambos trocavam, era a pessoa mais importante da sua via. Não posso deixar de imaginar que o processo de morte da mãe de David foi para ele uma espécie de gravidez ao contrário: uma mulher engravida e se prepara por nove meses para o resto de sua vida na presença de uma nova pessoa. O tempo de David com a mãe foi a preparação para o resto de sua vida sem ela. Ao fazer isso, ele cumpriu o destino do herói, que é o de comparecer quando a vida chama, e provar sua grandeza diante desse chamado.

Porém, assim como quem aguarda um bebê chegar, David também não faz a menor ideia do que acontecerá depois com sua vida, mas as histórias heróicas que guardamos com carinho em nossa memória nos fazem desejar que ele continue sua saga com o movimento pessoal de compreender e enxergar a própria grandeza em plenitude. Isso é o que ainda falta ao personagem David e a tantos heróis que conhecemos, e é o que esperamos que eles um dia alcancem.

Other People está disponível na Netflix e pode ser assistido aqui.

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