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Pabllo Vittar | Especial Mês do Orgulho LGBT

Pabllo Vittar | Especial Mês do Orgulho LGBT

Mario Martins - 27 de junho de 2017

Chegou. Preparada para atacar. O grave bateu e ela quicou. Foi K.O.

Jogando bem na sua cara, Phabullo -ou, para o grande público, Pabllo-  é o nome da mais nova diva da cena musical brasileira. Vindo do mesmo estado de Zeca Baleiro, Alcione e João do Vale, um dos agudos mais escutados do Spotify ficam cada vez mais destacados pela mídia. O mesmo país que teve a região nordeste atacada no período de eleições de 2014 tem uma estrela maranhense. O país recorde em homicídios LGBT é detentor da artista drag queen mais escutada do mundo. A brasilidade do carnaval elegeu o trabalho de um jovem agredido e humilhado na adolescência, como hit.

“Visibilidade é o termo utilizado pela meteorologia para indicar a medida da distância que uma luz pode ser claramente percebida através do ar.” Ainda há uma dificuldade em perceber a importância do uso dessa palavra no nosso cotidiano. Se passamos por tempos nublados de intolerância, o tempo há de os abrir aos poucos com representatividade e luta, as maiores armas de qualquer grupo de minorias. E antes de ler sobre a carreira de Vittar, é necessário compreender que um homem negro na presidência inspira uma sociedade reprimida por décadas. Uma personagem feminina no papel principal de um universo cinematográfico de quadrinhos inspira jovens a serem heroínas. Uma figura queer no topo das paradas, dá a rejeitados sociais motivo para continuar.

Pabllo teve de lidar com a rejeição desde o nascimento. Seu pai biológico abandonou sua mãe grávida dele e de sua irmã gêmea Pâmela. Apesar de nascer na capital, Pabllo passou parte de sua infância e adolescência no interior do estado, onde ele viria a fazer parte de eventos LGBT locais cantando e fazendo performances. Começou a cantar profissionalmente aos 19 anos, mas foi aos 21 que ganhou destaque com um de seus clipes, os quais ele produzia de forma descontraída com a ajuda de amigos, mas, ao se mudar para Uberlândia, pode contar  com assistência profissional de produtores, fazendo sucesso na internet.

 

O clipe, que atualmente tem mais de 14 milhões de visualizações, seria apenas mais um que o faria ultrapassar, em número de visualizações no YouTube, RuPaul, famosa pelo reality show “RuPaul Drag’s Race”, que até então era detentor do título, com o videoclipe de “Sissy That Walk”. Após o boom de diversos clipes, Pabllo foi convidado a fazer parte da equipe do Amor & Sexo da Globo, substituindo o músico Leo Jaime como artista do programa. Há muitos comentários pela fama de Vittar se dar pelo fato de ele ser drag queen. O ”hype” –termo usado para destacar o exagero na promoção de uma obra, artista ou produto-  pode ter origem pelo simples fato de o público estar realmente se identificando ou apreciando o que está sendo vendido. Imagine atribuir a fama dos Jackson 5 apenas ao fato de eles serem negros? Ou a de Elton John por desde cedo assumir abertamente sua homossexualidade?

Pabllo Vittar não tem apenas talento em sua voz; tem carisma, atitude, respeito ao público e até identificação vocal. Abaixo você vê a participação dele na música do trio Major Lazer junto com Anitta. É extremamente fácil reconhecer o momento em que Pabllo entra na música. Sua voz tem presença, e, por ele ser um contratenor, seu alcance vocal chega a notas agudíssimas, se nos lembrarmos que se trata de uma voz masculina fazendo falsetes.

 

 

Em vez de atribuirmos sua fama à imagem ou orientação sexual, vamos imaginar que o sucesso e a rentabilidade de carreira de Vittar tenham vencido qualquer tipo de preconceito. Não é sempre que temos um artista dono do hit do carnaval que não desaparece. Pabllo é um exemplo de representatividade LGBT, que ultrapassa as barreiras da indústria musical. Vai saber em quem se tornaria Itaberli Lozano, de 17 anos, que era constantemente ameaçado e ofendido pelo tio por sua homossexualidade e que futuramente foi assassinado com três facadas no pescoço pela própria mãe? Vai saber em quem se tornaria Rafael Barbosa, de 14 anos, que era frequentemente vítima de bullying por costurar roupas para sua bonecas e que foi encontrado morto a caminho da casa de sua avó? Vai saber em quem se tornaria o menino Alex, de OITO anos, espancado até a morte pelo pai somente pelo fato de gostar de lavar a louça, dança do ventre e não gostar de cortar o cabelo?

Talvez Rafael teria sido um costureiro de fama internacional. Alex, um talentosíssimo dançarino com um belo cabelo comprido ,assim como Wesley Safadão, e Itaberli, o próximo Pabllo Vittar. A infância e adolescência foram interrompidas pela intolerância, assim como a vida é diariamente. A grande vitória de um LGBT é estar vivo e não fazer parte do clipe #1 do Youtube no dia de seu lançamento.

Não espere um conhecido seu morrer para ser contra a homofobia; seja todo dia.

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