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A importância de Philip Glass no cenário musical e cinematográfico

A importância de Philip Glass no cenário musical e cinematográfico

Mario Martins - 22 de setembro de 2017
Philip Glass

(Quarto de espelhos na exposição da artista minimalista Yayoi Kusama)

O movimento artístico conhecido como minimalismo, por ter ocorrido em uma temporalidade recente (ao final do século XX), acabou afetando não só as artes plásticas, a pintura, a música e a arquitetura, mas também a tecnologia, o design e a gramática.

Consistindo na “simplicidade” estética, no que diz respeito à complexidade de sua técnica, podemos atribuir o conceito minimalista desde ao  formato da carroceria dos atuais carros de fórmula 1, que não costumavam ser montados em uma peça única, até ao gênero da música eletrônica, que busca a repetição constante de trechos com função de tema e explora as possíveis variações de acordo com o desenvolvimento dos compassos. Philip Glass, apesar de ter repulsa pela nomenclatura, é, sem sombra de dúvidas, um compositor minimalista. Talvez a associação com os DJ’s atuais o incomode, ou, quem sabe, a limitação da palavra para definir  um artista que se consagrou ao longo de sua carreira lançando  cds com as mais diversas participações (destaca-se Björk, Ravi Shankar, Yo-Yo Ma e Uakti), trilhas sonoras para o cinema, óperas, concertos de câmara e sinfonias.

O que então viria a singularizar a obra de Glass, de modo que não vejamos semelhança entre suas composições e a música eletrônica? Algo chamado de Modalismo, que se baseia em um sistema musical baseado em modos, isto é, uma forma específica de organizar os sons. Teremos dois tipos:

 

  • Modalismo Arcaico (pré-tonal) -> Não possui um sistema de harmonização, pelo simples fato de possuir somente uma voz. Pode ser exemplificado com o canto gregoriano, o cantochão e a música medieval.

 

  • – Modalismo Contemporâneo -> Exemplificado nos compositores do início do século XX e no jazz dos anos 60 e 70.

No final do século XIX, houve a chamada “crise tonal”, em que todas as progressões e estéticas musicais estavam se tornando previsíveis (bem parecido com o que estamos vivenciando hoje em dia).  Visando percorrer o caminho contrário à previsibilidade musical, houve compositores como Richard Wagner, que usou as tensões musicais de forma mais livre e apostou no cromatismo,  e compositores que acabaram apostando no retorno aos modos de tipo medieval. Temos Claude Debussy, que teve suas obras classificadas como impressionistas, e Maurice Ravel, pianista cuja influência sobre Philip Glass é notável. Veja o trecho a partir dos 2:22 de uma peça de Ravel e um recente ettude para piano, de Glass. (Clique no hiperlink para assistir aos vídeos e comparar as obras). Basta conhecer os trabalhos para notar compositores influentes e influenciados: é possível notar a presença de Philip Glass nas músicas de John Williams, Danny Elfman, Yann Tiersen, Antônio Pinto, e, ao mesmo tempo, reconhecer o quanto Chopin, John Cage e Arvo Pärt estão presentes na sua estética.

Philip Glass

Já tendo contextualizado a ligação de Glass com o modalismo na música erudita, deixemos um pouco de lado o contexto histórico sonoro e comecemos a falar sobre cinema. Formado na Juilliard School, seu primeiro contato com trilhas sonoras teve forma no filme Chappacqua (1966), em que Glass contou com a contribuição de Ravi Shankar, e ambos ajudaram a moldar aquilo que muitos fãs do filme chamam de “cenas de jazz psicodélico” (olha o modalismo do jazz arcaico aparecendo novamente). Porém, sua maior influência no universo cinematográfico viria com o primeiro filme da trilogia Qatsi, do diretor Godfrey Reggio. Koyaanisqatsi (1982) foi um documentário experimental, em que não há qualquer tipo de narração, elenco ou linha temporal. A narrativa se dá através da interpretação que o espectador possui com a sequência de imagens e a trilha de Philip Glass. O uso de vozes e o instrumental que dialoga diretamente com o movimento e iluminação do filme, certamente se tornaria um marco no cenário de trilhas destinadas originalmente a películas de cinema. Vale ressaltar que a trilha foi usada nas cenas do nascimento do Dr. Manhattan, em Watchmen (2009).

Sendo defensor da causa tibetana, Philip Glass fez a trilha do filme Kundun (1997) de Martin Scorcese, sobre a vida de Dalai Lama, trabalho que foi especial não só profissionalmente, mas também de forma pessoal para ele. Para o currículo, vieram também os filmes Powaqqatsi (1988), Show de Truman (1998) – que usou fragmentos das trilhas de Mishima e Powaqqatsi – , Naqoyqatsi (2002), A Janela Secreta (2004), As Horas (2002) , Notas Sobre Um Escândalo (2006), sendo os dois últimos mencionados indicados ao Oscar pelo seu trabalho, O Ilusionista (2006), O Sonho de Cassandra (2007), de Woddy Allen, e O Quarteto Fantástico (2015).

Ligação de Philip Glass com o Brasil

Tendo gerado polêmica com a cantata nomeada Itaipu, de 1989, Glass foi altamente criticado por ambientalistas por fazer menção à usina hidrelétrica, que foi construída durante a ditadura militar e gerou drásticos danos naturais, entre eles, a submersão de uma inteira floresta nativa. O músico trabalhou com o grupo instrumental brasileiro Uakti, um dos maiores nomes do minimalismo no Brasil, que era conhecido por utilizar instrumentos criados pelo fundador do grupo, Marco Antônio Guimarães, tendo feito parceria com eles em todo o disco “Águas da Amazônia”. Após uma visita à Rocinha em 1997 , Philip escreveu a peça orquestral “Days and Nights In Rocinha”.

No cinema nacional, Glass trabalhou no inusitado Nosso Lar (2010) após um grande interesse no roteiro, que foi enviado pelo diretor Wagner de Assis, que também fez o convite para que ele trabalhasse na produção de toda a música do filme. Em entrevista, Wagner afirma que Philip Glass ficou extremamente instigado com relação ao pós-vida e realizava ligações telefônicas questionando sobre tal assunto. Além disso, o compositor também trabalhou no filme Jenipapo (1995), que contava com Julia Lemmertz e Marília Pêra no elenco e abordava os conflitos de terra no interior do país, o que – pasmem – para aquela época já era um grande problema, que continua sem muita solução. A diretora Monique Ganderberg, que dirigiu Jenipapo, está atualmente envolvida em sua turnê de comemoração aos 80 anos do músico, com a divulgação de seus estudos pessoais para piano, que ele afirma terem dois propósitos: acrescentar seu acervo de música solo de recital e exercitar sua evolução no instrumento.

Glass realizou uma apresentação no Rio de Janeiro na semana passada, no dia 14 de setembro de 2017, tendo tido como convidados os pianistas brasileiros Heloísa Fernandes e Ricardo Castro.

Philip Glass

Foto tirada por mim durante a apresentação no Rio, em que Philip Glass aparece de azul

Na metodologia do filósofo William Hamilton (1788 – 1856), antes de qualquer explicação teórica, dos fatos e das ocorrências psíquicas, há a descrição imediata do fenômeno, isto é, a percepção que se tem no momento. A arte não só é manifestação pessoal do artista, como também sugere, conscientemente ou não, que o espectador tire sua própria emoção, conclusão, reflexão. É irrefutável que todo o trabalho de Philip Glass sempre buscou traduzir não só suas emoções e técnicas, como também buscar a relação com o espectador/ouvinte, elemento essencial para a arte, independente da época.

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