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Planeta dos Macacos: A Guerra
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Planeta dos Macacos: A Guerra

Matheus Fiore - 1 de agosto de 2017

O alinhamento entre tecnologia e cinema vem se tornando cada vez mais tóxico entre os filmes mais populares. Em obras nas quais os efeitos são utilizados de forma a mascarar e sujar outros elementos da arte, como a atuação, a direção de arte e até a fotografia, a computação gráfica acaba se tornando uma cereja que atrai mais que o bolo. Na nova trilogia Planeta dos Macacos, porém, vemos algo diferente. Graças à tecnologia atual, somos capazes de ver longas onde símios não só protagonizam, como têm visual extremamente crível e detalhes de atuação tão ou mais complexos do que os de qualquer humano em tela. Como resultado, vemos um filme que consegue sugerir questões psicológicas e filosóficas em seu protagonista apenas por suas expressões faciais, o que por si só já é um marco na história da sétima arte.

Na terceira parte da saga prelúdio de Planeta dos Macacos, somos introduzidos aos conflitos finais entre os símios liderados por Caesar (Andy Serkis, brilhante) e os humanos liderados pelo implacável Coronel (Woody Harrelson). Agora, a gripe símia que começou a aniquilar a raça humana começa a demonstrar sintomas prévios à morte, como perda da capacidade de fala e demência, ao passo que, em relação aos símios, desenvolve sua percepção cognitiva, ampliando assim sua inteligência e capacidade de comunicação. Diante do iminente ataque militar que poderá ser o fim de sua tribo, Caesar decide, junto à sua família e demais companheiros, partir para uma região recém-descoberta, onde poderá recomeçar seu reinado em paz. Antes de ir, porém, decide vingar-se das mortes causadas pela tropa humana que o atacou.

Também diretor do antecessor, Planeta dos Macacos: O Confronto, o americano Matt Reeves faz escolhas semelhantes em A Guerra. Em ambos os filmes, as batalhas presentes nos títulos e nos materiais de divulgação acabam sendo elementos secundários, cedendo espaço para questões psicológicas e filosóficas muito mais interessantes. Aqui, tomado pelo ódio e pela sede de vingança, Caesar precisa lutar contra seus instintos violentos, que o assombram principalmente em seus pesadelos. É interessante como, desde sua primeira aparição, Caesar é retratado de maneira especial, desde a criação de expectativa retratando os olhares surpresos dos humanos que percebem sua presença, até os planos contra-plongée que destacam o respeito e o medo conquistados. Mas mais interessante ainda é ver como o próprio protagonista desconstrói isso, revelando-se sempre um personagem civilizado e consciente em suas escolhas.

Os dilemas morais de Ceasar e o peso de suas deliberações acabam sendo o tema central do filme. A todo momento, o protagonista se vê entre agir de acordo com sua vontade e ser líder e exemplo para seus descendentes. Dando relevância aos momentos de decisão e aprendizado, a direção acerta ao utilizar sempre um lento travelling que aproxima a câmera do rosto do protagonista, estabelecendo o impacto. A fotografia retrata de forma fantástica todas as nuances psicológicas do personagem: quando  por exemplo, está tomado pelo ódio e com a clara intenção de vingar-se de um símio que o traiu, Caesar o agarra e, enquanto sua potencial vítima é iluminada de forma natural, o protagonista tem metade de seu rosto oculto por sombras, indicando o surgimento de uma faceta mais sombria e tirana. Já quando se sente realizado e bem sucedido, o personagem é banhado por uma luz dourada, indicando seu heroísmo e sucesso.

Mas nada disso funcionaria sem a atuação de Andy Serkis, que entrega aqui o mais especial trabalho em toda sua carreira, não somente pela voz serena que, no fundo, esconde um enorme receio por um possível fracasso, mas também pelos olhares, que muitas vezes falam mais do que qualquer diálogo, sendo capazes de expressar tanto um espírito consumido pelo ódio quanto sentimentos de maior emoção, quando perde alguém querido. Serkis ainda é beneficiado pela direção, que, além dos já mencionados contra-plongées, utiliza muitas câmeras lentas para momentos nos quais o personagem se apresenta, criando uma atmosfera grandiosa e épica para o surgimento do líder símio.

Caesar é o destaque, mas há de se ressaltar também as presenças de Maurice (Karin Konoval), o braço direito do líder, e do coronel, militar que antagoniza Caesar no longa. Maurice funciona como o contraponto à brutalidade que consome Caesar, sendo sempre o ponto de equilíbrio e a voz da razão que impede que o protagonista se perca “nas trevas de sua consciência”, como diz o próprio personagem. Já o Coronel (Harrelson) demonstra uma megalomania que o torna um vilão típico de filmes de ação e que fica clara desde o primeiro encontro com o protagonista, quando ele diz que aquele momento é histórico. E Caesar, assim como o público, também é ciente dos delírios de grandeza do vilão, principalmente ao chegar em sua base e notar que seu inimigo riscou três vezes a palavra “história” na parede, dada sua obsessão por tornar-se uma figura histórica.

Planeta dos Macacos: A Guerra ainda brinca com nossa percepção de mundo ao fazer interessantes críticas socioculturais por meio de alegorias. A base militar que mais parece um campo de concentração, por exemplo, traz cenas de tortura dos macacos ao som do hino nacional americano, funcionando tanto para criticar a visão imperialista americana como para analisar a hipocrisia e a repetição dos mesmos erros ao longo da história da nossa civilização. É ainda mais irônico se lembrarmos que o Coronel, responsável por toda essa violência, tem fixação por ser um novo “Napoleão” e demonstra conhecimento histórico suficiente para saber que escolhas como as que fez estiveram presentes nos mais cruéis regimes da história da humanidade.

A dissonância cognitiva do Coronel ainda se torna mais alarmante em seus diálogos com Caesar, quando ele diz que, graças aos sintomas da gripe símia, os humanos estão “deixando de ser gente” por perderem a capacidade de fala. O que o personagem não percebe é que, ao torturar e buscar a aniquilação total de seres conscientes e inteligentes como são os símios do filme, já deixou sua civilidade e humanidade para trás há muito.  Não é à toa que todos os humanos da obra são tratados como uma grande manada acéfala e fadada a cometer os mesmos erros. Planeta dos Macacos: A Guerra revela-se um estudo humano irônico e sutil.

Fortalecendo as variações entre críticas culturais e sequências de ação, Matt Reeves demonstra um admirável domínio sobre as variações de tom de seu filme. Sendo dominantemente um drama de sobrevivência, A Guerra ganha também pitadas de aventura e humor, sem nunca destoar e sempre conseguindo manter a melancolia dos personagens por trás de cada piada dos alívios cômicos do filme. Um aspecto que ajuda a obra a manter-se sempre fiel à história de Caesar e a construção de seu mundo é a trilha sonora de Michael Giaccino, a qual, pelo uso destacado de tambores e de corais com lamentos humanos, constrói uma atmosfera apocalíptica e tribal que é perfeita para retratar um cenário que, ao mesmo tempo, representa a ascensão símia e a decaída humana.

Mesmo que em certo momento da projeção o filme perca o ritmo e passe a impressão de que a trama não está mais andando (muito por culpa da repetição dos mesmos elementos para fragilizar os símios e criar a vilania humana), Planeta dos Macacos: A Guerra fecha o ciclo da saga prelúdio do filme de 1968 com competência. Aliás, mais que competente, torna-se mais um grande marco na evolução tecnológica a favor da narrativa e da história e, também, uma fantástica análise de nossa civilização, de nossos erros e acertos e, principalmente, da nossa incapacidade de aprender com eles, sem deixar que a obra soe pedante ou moralista.

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