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Por que Cersei é tão fascinante?

Por que Cersei é tão fascinante?

Ana Flavia Gerhardt - 5 de agosto de 2017

Este texto contém spoilers sobre a trama da série Game of Thrones

Neste momento, milhões de pessoas em todo o mundo empreendem uma viagem no tempo e no espaço. Eu entre elas, preciso dizer. Essa viagem, já sabemos, se interromperá daqui a algumas semanas e retornará ano que vem, parando de vez em sua última estação. Quem viu, viu. A quem não viu, restam os downloads e as reprises da HBO.

Claro que estou falando da viagem anual a Westeros, uma terra ao mesmo tempo dentro e fora da Terra, um grande país dividido em sete reinos, com seus reis subordinados a O Rei, o Senhor do trono de espadas amalgamadas pelo fogo implacável dos dragões. Retifico: neste momento, em princípio subordinados à Rainha, mas em luta sangrenta, ora entre si, ora aliando-se para apoiá-la ou derrubá-la.

Durante os seis últimos anos, o trono de Westeros trocou de dono algumas vezes, por conta de trágicos acontecimentos que os fãs conhecem muito bem. Em torno dele, sempre existiu e fluiu a figura de Cersei, próxima o suficiente para monitorar quem nele se assentava, mas longe demais para um dia ocupá-lo. Ora, por conta das tragédias todas, algumas indiretamente provocadas por ela própria, Cersei agora é a dona da parada toda.

De certa forma, o trono de Westeros é uma espécie de justo prêmio pela proteção devotada que Cersei lhe dedicou por décadas, por estar convicta de que ele pertencia por direito a seus filhos. Por eles, seria capaz de dar a própria vida bem como arrancar a vida de quem os ameaçasse, como afirmou várias vezes, e efetivamente fez. Por várias temporadas, seu arco dramático delineou uma pessoa que se debatia em uma dupla amarra: a de ter nascido numa família nobre e rica, e a de ter nascido mulher. Em virtude dessas duas condições, Cersei não era senhora de sua própria vontade, tendo de invariavelmente curvar-se a destinos ditados por seu pai, que usava a ela e aos irmãos em nome da manutenção dos privilégios e do poder de que sempre gozaram. Durante os últimos anos, vimos Cersei tentando preservar aquilo que podia resguardar de sua dupla e trágica sina: seu útero. Abortou os filhos que não eram do homem que amava, garantindo com isso o fim de uma dinastia à qual pertencia aquele que a estuprava regularmente. Melhor vingança, numa terra em que se vale o que vale um sobrenome, impossível. Com essa estratégia, além de outras, Cersei nos mostrou, ao longo das temporadas de Game of Thrones, que há muitas coisas para matar: pessoas, ideias, descendências.

O problema, e aí reside a questão que alimenta a personagem mais rica e interessante de Game of Thrones, é que, no caso dela, proteger os filhos significa proteger – e enfrentar – um reino inteiro, e isso é muita coisa para uma pessoa só, ainda mais uma pessoa que não confia em quase ninguém. Obviamente, não dá para manter a lucidez numa situação dessas.

Neste momento da trama, Cersei defende a si e ao lugar de poder que ocupa com unhas, dentes e veneno, sem nem ela mesma parecer ter muita clareza sobre por que o faz, em comparação com sua desafiante na luta pelo trono (a única que ficou, depois de todos os outros terem perecido). Mas temos a certeza de que ela só sairá de lá morta – e talvez nem assim, em se tratando de Game of Thrones. E essa é a questão que faz com que a personagem passe da condição de interessante para a de fascinante: entre outros aspectos, a apenas aparente falta de sentido no apego de Cersei ao trono tem feito com que o público da série por todo o mundo a idolatre e a eleve ao posto de protagonista, mesmo partilhando espaço com outras duas ou três figuras igualmente importantes para a história e para seu futuro como rainha.

Que fascínio é esse que Cersei exerce sobre nós, fãs de Game of Thrones?

Penso que alguns motivos são determinantes para este momento maravilhoso da personagem, que é um dos fatores a posicionar Game of Thrones entre os primeiros lugares no ranking das melhores séries televisivas de todos os tempos. O primeiro deles é necessariamente a atuação de Lena Headey. A atriz era desconhecida do grande público quando a série começou, e foi publicamente amadurecendo sua visão sobre o personagem, compreendendo sua complexidade de maneira mais profunda, legitimando seus motivos por meio de uma atuação provocadora, e com isso tornando Cersei e a si mesma uma das figuras mais discutidas das redes sociais nas últimas semanas. Headey conferiu uma antítese interessante ao rosto de Cersei: sua boca sempre traz um leve sorriso de prazer, mas seus olhos manifestam a gigantesca dor acumulada pelas perdas, frustrações e decepções de uma vida inteira. Sem um vestígio de overacting, seu rosto transborda de forma linda e evidente a riqueza da personagem, que viveu dividida entre, de um lado, o luxo e a distinção que sua posição social conferia, e, de outro, todas as privações e humilhações que teve de suportar para mantê-la.

Lena Headey inspira em nós o sentimento de nunca querermos viver a vida de Cersei, porque é clara a sua infelicidade por ter vendido barato sua vida em troca de conforto e abastança. Lena Headey construiu uma mulher extremamente resiliente, capaz de suportar tudo, avassaladora em seu desejo de vingança, e em cujo discurso e cujas intenções acreditamos piamente. Merece todas as honras e prêmios que virão por aí, mas seu lugar já está eternizado entre os grandes atores da dramaturgia televisiva.

Outro motivo importante, a meu ver, é o fato de Cersei ser mulher, mas não nos oferecer respostas fáceis quando nos perguntamos se ela age como age por ser mulher. A propósito, neste momento, o enredo da série oferece uma situação rara para os padrões geralmente machistas das tramas de séries e filmes, que é um lugar de imenso poder disputado por duas mulheres, ambas em condições equivalentes de conquistá-lo definitivamente. Não vemos no horizonte  do programa quem mais possa igualá-las em vontade e poder de fogo e possa entrar na disputa pelos sete reinos. Todos os homens que tentaram conquistar Westeros já estão devidamente neutralizados, de forma que o jogo dos tronos se resumiu a elas, porque, diferente deles, elas conseguiram resistir e eliminar todas as tentativas de destruição. Mas não tenho visto textos que exaltem uma suposta potência feminina inspiradora para as meninas e mulheres adultas baseada em Cersei e Daenerys, como se fez (até eu fiz, neste artigo) com Diana Prince, a Mulher Maravilha, por exemplo. Não tenho notícia da fabricação de bonecas Cersei e Daenerys. Por que esse silêncio? Que tipo de poder é esse que está sendo disputado em Game of Thrones, que não atrai ninguém? O que faz com que nos sintamos fascinados e fascinadas por alguma coisa que nem numa realidade paralela queremos para nós?

As razões de Daenerys para ocupar o trono nós já conhecemos. Sabemos que ela se plenificará sendo rainha de Westeros. Sabemos que se faz longas reflexões sobre que tipo de governante deverá ser se sair vitoriosa, o que deve fazer para ser justa e trazer o bem ao povo – aliás, reflexões que qualquer candidato a qualquer cargo precisa se fazer. Mas Cersei não manifesta alimentar esses pensamentos. Seu espírito está sempre povoado de rancor e estratégias de guerra, para as quais ela tem mostrado talento superior até ao de seu irmão, o proscrito e notoriamente brilhante, um dos desafetos de quem ela jurou se vingar. Mas de fato não sabemos para quê ela deseja permanecer no poder, e as razões por ela enunciadas no primeiro capítulo da atual temporada sinceramente não me convenceram. Por que ela não larga as tretas todas para os Targaryen e não vai para alguma praia viver em paz com o homem que sempre amou e a quem agora tem a chance de pertencer para sempre? Ora, ela não precisa ser rainha para fazer o que quiser, é só dar uma banana para as famílias espalhadas pelos pontos cardeais de Westeros e viver anônima e feliz gerando novos filhos para o bem de si mesma, e não de uma dinastia qualquer. Por que impõe sobre o amante provas de amor que fazem afundar a ambos num abismo de perdição de si mesmos, que pode ao fim separá-los definitivamente?

Talvez seja porque ela própria não saiba como viver de maneira diferente. Não sabe como viver sem ter o poder como elemento constitutivo de seus pensamentos e ações; portanto, não sabe recusá-lo. Está presa a uma armadilha que, de tanto em que esteve nela, agora termina por ser sua própria artífice. Dentro da armadilha, e por não saber como sair dela, descobre meios de continuar a estar nela e, com isso, obter prazer e gozo, ao impor sofrimento a quem assassinou sua filha, tornar-se uma grande general de guerra e preparar-se corajosa e determinada para enfrentar os três dragões e o que mais vier. Cersei conquistou nosso respeito por assumir de vez seu destino e cumprir a promessa de se sacrificar por uma dinastia, antes real, agora fictícia, que lhe roubou a juventude e felicidade e, agora lhe tira também a percepção de que sua própria vida lhe escorre pelos dedos. Quanto mais Cersei luta com tudo o que está a seu alcance pelo poder de Westeros, mais seus paradoxos de tornam evidentes, e mais humana ela se torna. Ela é para nós muito real – estou aqui, por exemplo, falando dela, como se ela fosse real, mas é porque ela se parece muito com muitas pessoas que conheço. E essa empatia é algo que adoramos, mais e mais. Porque, vamos combinar, como é chato gente sem paradoxo.

Por tudo isso, sabemos que Cersei perecerá. Quem permite que seu lado pior e mais negro vença não tem como sobreviver. Mas, até lá, torceremos, fascinados, por ela, a acarinharemos em nossa mente, nos alegraremos com suas vitórias, e lamentaremos suas derrotas, como temos feito a cada episódio em que Game of Thrones nos transporta no tempo e no espaço. E que pena que será só até o ano que vem.

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