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Projeto Flórida

Projeto Flórida

Matheus Fiore - 11 de outubro de 2017

Filmado com um iPhone, Tangerine foi o filme que deu fama ao cineasta americano Sean Baker. Com seu longa de estréia, Baker pintou um retrato de parte da população mais marginalizada da sociedade americana – no caso, prostitutas e transsexuais. Em Projeto Flórida, o diretor e roteirista continua com a mesma ideia, e retrata as vidas de famílias que habitam os hotéis de beira de estrada nos Estados Unidos. No centro do longa está Moonee, menina de seis anos que, sem ter o que fazer por causa das férias de verão, perambula pelos entornos do condomínio enquanto sua mãe, a relapsa Halley, sai para curtir com a amiga ou trabalhar.

Como diretor, Baker assume uma postura quase de documentarista. A câmera segue seus personagens de forma leve conforme eles circulam pelo condomínio, o “Magic Castle” – que propositalmente lembra o parque da Disney, Magic Kingdom. Ao retratar as crianças, Baker opta por manter sua câmera sempre na altura da visão delas, o que permite que o espectador mantenha um ponto de vista infantil sobre todo o drama que permeia a obra – e que nos ajuda a ver a triste realidade da trama com um olhar infantilizado e, portanto, sem preocupação com a seriedade dos fatos.

Por manter sempre o escopo de Moonee e seus amigos, mesmo quando não estão em cena (note como algumas das cenas de Willem Defoe, por exemplo são contra-plongées, isto é, filmadas de baixo para cima, justamente para manter a coesão visual e o ponto de vista infantil), Projeto Flórida permite que todos os momentos nos quais as crianças fazem travessuras ou grosserias sejam retratados com humor. O tom cômico, inclusive, mantém-se presente mesmo quando as cenas retratam a irresponsabilidade de Halley, já que, sob a visão de Moonee, sua mãe é uma pessoa perfeita. Projeto Flórida, então, marginaliza a melancolia de sua narrativa, exigindo que o espectador note o que não é dito ou sentido diretamente, mas está lá de forma periférica.

Outro elemento que impressiona é a montagem (também assinada por Sean Baker). Há cenas inseridas pontualmente na narrativa que inicialmente não trazem significado. Aos poucos, porém, outros elementos da narrativa ajudam o espectador a “ligar os pontos” e, então, compreender o que aquelas cenas simbolizavam. É interessante perceber como o público só passa a ter conhecimento de um fato relacionado à essas cenas quando isto é exposto à criança, respeitando a ideia de que o público só vê Projeto Flórida sob o escopo da protagonista.

O roteiro é capaz de, ao mesmo tempo, respeitar e humanizar seus personagens sem nunca os expor ou humilhar, já que nunca navega entre extremos. Projeto Flórida é um filme que acompanha rotinas, não fatos chamativos. Nunca vemos Halley chorando, por exemplo, mas sabemos que a mãe solteira tem seus momentos de instabilidade emocional, já que sua filha comenta com os colegas que “sempre sabe quando adultos vão chorar”. Tal sutileza mantém-se por toda a metragem, já que os efeitos da criação relapsa e falha de Halley geralmente nos são expostos indiretamente. A intenção de Baker nunca é criar vilões, mas retratar uma camada marginalizada da sociedade americana e mostrar que, com seus defeitos e virtudes, todos são vítimas de um contexto cultural.

O que o script omite também é importante. O paralelo entre o “Magic Castle” (nome do condomínio) e o “Magic Kingdom” (parque da Disney) é inevitável – até porque, há na cena final uma clara simbologia que conecta os dois “Magics”. O condomínio de cor púrpura surge como a “Disney do fracasso social”, retratando o extremo oposto do que o reino da fantasia significa para os americanos. É o lar dos marginalizados, dos esquecidos e dos ignorados. É de uma melancolia enorme que o mais próximo que as crianças de Projeto Flórida possam chegar da Disney seja assistir, de muito longe, aos fogos diários que acontecem no parque. O reino “encantado” da América, aqui, mais parece uma dimensão paralela do que um lugar ao alcance dos personagens.

As torres do motel emulam as de um castelo, criando o triste paralelo entre os marginalizados e o reino "encantado" da Disney.

As torres do motel emulam as de um castelo, criando o triste paralelo entre os marginalizados e o reino “encantado” da Disney.

Nas ambientações, há uma polarização interessante. De um lado, as cenas ambientadas no lar de Moonee e Halley são retratadas sempre com planos mais fechados e pouca ou quase nenhuma iluminação. Quando há luz, é a da televisão ou a externa, que entra pela porta ou pela janela. Do outro lado, no condomínio e nas outras áreas pelas quais a protagonista passeia durante suas aventuras, a escolha é por planos mais abertos, com lentes grande angulares que expandem o quadro e deixam a fotografia externa ampla e limpa, aproveitando principalmente a natureza dos cenários – tanto com a luz do sol quanto com as plantas. Com isso, é estabelecido que a presença da mãe (que praticamente só está com Moonee quando em casa) é danosa para a criança, algo que Moonee não tem idade para compreender, mas todo o elenco periférico a ela, sim. Aliás, nem Halley tem consciência de seu fracasso como mãe, o que torna sua saga ainda mais trágica.

As lentes grande angulares também são importantes para por no plano o máximo daquela cidade. Desde os comércios falidos a estabelecimentos com títulos de intenso significado, tudo que há em cena acrescenta à narrativa. O condomínio nomeado “FutureLand” (terra do futuro), por exemplo, ganha uma ironia fatídica quando lembramos que esses personagens nasceram sob a promessa de estarem no país das oportunidades, mas viverem à margem da sociedade. Já os comércios com “Magic” – e demais palavras relacionadas aos parques de Orlando no nome – também intensificam a ideia de Baker, mostrando ao público como a parte marginalizada da cidade transpira uma visão falida e degenerada do mundo fantástico da Disney.

Em alguns momentos, Projeto Flórida expande a situação da irresponsabilidade dos pais até outros personagens – como o menino que está prestes a se mudar, e a única coisa que seu pai não coloca no carro são seus brinquedos. Com isso, Baker faz com que sua trama funcione tanto como a história de Moonee quanto como uma análise de uma camada marginalizada da sociedade americana. Sob esse escopo, é interessante a repetição de planos que trazem os adultos se comportando de forma desapropriada no fundo, desfocados, enquanto, próximos à tela, estão as crianças, observando tudo, evidenciando a influência comportamental exercida pelos pais sobre os filhos – o que sugere que o futuro que aguarda as crianças é semelhante ao de seus pais.

Projeto Flórida funciona principalmente pela naturalidade com que Sean Baker desenvolve sua narrativa. Os diálogos triviais e as cenas conduzidas apenas com câmera na mão dão um aspecto documental, o que permite que a obra seja divertida quando aborda os personagens brincando pelas ruas, e intensa quando retrata os perigos de ser criança em um mundo hostil, totalmente falido em seus aspectos sociais – bem como é com os econômicos. Projeto Flórida é mais do que bem feito; é um filme de rara sensibilidade e humanidade, que diverte e emociona sem apelos e com sinceridade. Uma obra que recusa o fantástico o máximo que pode, para escancarar o quanto o real é suficientemente duro.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2017.

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