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Prophets of Rage

Prophets of Rage

Mario Martins - 14 de Maio de 2017

Prophets of Rage: Um comício sem partido.

Em plena geração smartphone, vi poucos filmando o show durante a apresentação. Em pleno governo Michel Temer, o show se finaliza à vibrante tremedeira da casa de “Fora Temer”. Em época de falsos messias, B-Real (Cypress Hill) entra no palco usando uma gutra árabe, figurino provocativo aos intolerantes religiosos.

A sirene marcou o início do show, o qual fez todos do Vivo Rio se dirigirem às pressas ao subsolo, quase como uma evacuação de ataque nuclear na cidade. A estrela vermelha já podia ser vista atrás dos amplificadores de Tom Morello. O público levantando o punho, sinal de luta e resistência, confirmava a ideologia trazida pelo Public Enemy -que sempre buscou o teor anti-racista estadunidense em suas canções- e pelo Rage Against The Machine, que vinha representado em peso por Morello, Tim Commerford e Brad Wilk (também integrantes do Audioslave).

O repertório trouxe diversas músicas do Rage e conseguiu encontrar espaço para canções autorais do Prophets, solo de bateria, uma grande homenagem ao hip hop com direito a um DJ no palco, um cover de White Stripes e uma colaboração com toda a banda de abertura, Rise Against. O poderoso hardcore punk de Chicago foi convidado a retornar ao palco na penúltima música do Prophets of Rage, o cover de “Kick Out The Jam” do MC5.

Sucedendo a execução de “Bullet In The Head”, antecedendo um improviso na guitarra e marcando o primeiro contato direto de Tom Morello com público, ele agradeceu em português a presença de todos e foi ovacionado ao dizer “freedom to Rafael Braga”, pedindo liberdade ao ex morador de rua -negro- que foi preso nas manifestações de 2013 por estar portando uma garrafa de desinfetante e condenado a 11 anos de prisão. Rafael teria sido futuramente acusado de tráfico de drogas e associação ao tráfico, o que ele afirma ter sido forjado por policiais da UPP da Vila Cruzeiro.

O fato de músicos internacionais estarem mais atualizados com relações públicas e políticas do que os próprios brasileiros, dá uma importância extra para o que o som do Prophets representa para nossa geração. A união do público pode ser ilustrada com pessoas parando em meio a um mosh (popularmente conhecido como “rodinhas” no Brasil), para levantar quem escorregasse ou caísse, evitando que fossem pisoteados. Sem contar no incidente pós show, o qual eu comprei uma cerveja e um fã esbarrou no banco que eu estava sentado, derramando todo o copo no chão. Ele pediu desculpas, sumiu por poucos minutos e depois retornou com uma cerveja nova para mim. Atitude talvez inesperada para aqueles que julgam tal público como agressivo, rebelde e hostil.

Essa análise não irá destacar a invasão alienígena anarquista que foi o show e o quanto “Morello is god”, isso já será dito por qualquer conhecido seu que tenha ido à apresentação. O texto foca na parte mais humana, de alguém que estava na pista para ver a variedade social daqueles que enlouqueceram enquanto o rapper do Public Enemy, Chuck D, se reclinava na grade para cumprimentá-los. A imagem que foi filmada e exibida nos telões, remeteu a uma entidade religiosa raríssima presente em carne e osso, que fez todos pacientemente se dirigirem até ele e esticarem seus braços para tocar nas mãos sagradas daquele que segurava o microfone e fazer do “profeta da ira” um mártir de guerra.

A banda vai além da qualidade sonora, representatividade social, importância política e integração pessoal. O Prophets of Rage é a hostilidade sofrida diariamente manifestada em peso. É a solidariedade de se pagar uma cerveja derrubada em tempos de propagação de discursos de ódio. É vestir a camisa de um jovem de realidade tão distinta, mas que foi vítima da mesma repressão governamental que atinge a todos. Resistência. Luta. Liberdade. Vida longa à união.

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