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Alt-J – Relaxer
Nota:

Alt-J – Relaxer

Mario Martins - 8 de junho de 2017

Você faz um som com seus amigos, decide montar uma banda, mas você está atrasado para isso. Já se passaram sete anos desde o novo milênio, os gigantes ícones e lendas dos mais diversos gêneros já se consagraram. Tudo o que for feito daqui pra frente será visto como cópia, plágio ou influência. É uma época em que se fala em inovação, usando figuras históricas como motivação. O que fazer? Primeiro é necessário escolher um nome que já reflita a diferença que seu grupo irá fazer. Nas equações matemáticas, o delta (∆) é usado para ilustrar mudança, sendo assim, batize a banda com os comandos Alt + J, que irão reproduzir o símbolo graficamente, quando digitados no teclado de um iMac.

O próximo passo é fazer jus ao nome sonoramente, encontrando alguma peculiaridade que não necessariamente nunca tenha sido usada, mas que ao se ouvir, seja diretamente associado ao seu grupo. Mas se isso já estiver automaticamente ligado a uma identidade na melancólica melodia de seu vocalista, ignore esta etapa. Vocês ensaiam nos quartos do alojamento da Universidade Metropolina de Leeds, localizada no norte da Inglaterra. Não se pode fazer muito barulho por conta dos outros alunos, portanto, suas primeiras músicas não poderão contar muito com um kit de bateria ou um baixo elétrico. Foque em um som mais orgânico, acústico.

Nasce assim, Alt-J (∆). Tendo Gus Unger-Hamilton –aluno de inglês e literatura na universidade- e Joe Newman, Gwil Sansbury e Thom Green –alunos de belas artes-, a banda rapidamente encontrou legitimidade em meio ao Indie Rock e Folk britânico. Por que destacar os cursos acadêmicos dos integrantes? Já chegamos lá.

O álbum de estréia da banda -não considerando o EP homônimo chamado de ∆ – , An Awesome Wave, foi lançado em 2012 e já trouxe as gigantes faixas “Tessellate”, “Breezeblocks”, “Taro” e “Matilda”. Toda a coletânea merece prestígio, mas destaco essas por sua forte popularização entre os fãs e o forte simbolismo que elas acompanham, seja ele poético ou audiovisual. Apesar de não ser uma banda virtual, podemos comparar os videoclipes do Alt-J com os da banda Gorillaz pelo fato de serem​ totalmente planejados e dirigidos com intenção em refletir uma linguagem da canção. Não irá se encontrar uma simples gravação da banda tocando, senão ao vivo. E assim como eu mencionei na análise do álbum Humanz (leia nossa crítica aqui), os clipes do Alt-J também deveriam ser considerados curta metragens. Pela fotografia, uso de cores, slow motion, efeitos especiais, montagem e linguagem poética. Veja abaixo o clipe de “Tessellate”, todo ambientado dentro do quadro A Escola de Atenas, um dos mais famosos trabalhos de Rafael Sanzio (curiosamente o mesmo quadro de onde foi tirada a arte da capa do cd duplo Use Your Illusion, do Guns N’ Roses).

E se formos dissecar as letras das canções, não faltará referências. Usando as faixas mencionadas, vemos a história do fotógrafo de guerra Robert Capa contada em “Taro” (em homenagem a Gerda Taro, companheira de Robert e também fotógrafa). “Matilda” é inspirada em uma cena do filme O Profissional (1994), tendo as falas do longa no refrão “This is from Matilda” . E “Breezeblocks” conta com o trecho “Please don’t go. I’ll eat you whole. I love you so.” em sua parte final, com uma alusão ao livro infantil Onde Vivem Os Monstros, de Maurice Sendak. A banda traçou um paralelo com a fala dos monstros, ameaçando comer o protagonista para que ele não fosse embora, com uma relação abusiva amorosa, onde somos capazes de machucar aqueles que queremos por perto. Mensagem totalmente explicitada através do clipe da música, que é contado de trás pra frente. Entenderam por que mencionamos os cursos acadêmicos dos integrantes da banda quando se conheceram? Então vamos continuar.

 

 No dia 2 de junho de 2017, o Alt-J lança seu álbum caçula. Relaxer trouxe 8 faixas, sendo 1 cover de “House of Rising Sun” do The Animals e 7 autorais inéditas.A saída de Gwil Sansbury deu uma mexida na estrutura de composição. Já com a primeira, intitulada “3WW”, fiquei perplexo com a sonoridade. Durante todo o verso, podemos ouvir uma nota Ré sendo constantemente tocada, contrapondo a leve percussão tribal e o violão tocando um também permanente riff com intervalo de 2ª maior, dando uma ambiência ritualística, por se tratar de nuances usadas em contextos religiosos de sociedades antigas, já que a atmosfera criada pela nota Ré no background permite moldar um território único, que o próprio ouvinte irá criar de acordo com sua imaginação.

Podemos ver o indie rock da banda no seu auge com “Hit Me Like That Snare”, fazendo o uso de sintetizadores, guitarra com overdrive e microfone com uma sonoridade chiada de rádio –muito usada por artistas do gênero- a música remete a um ambiente também de horror em algumas partes. Pitadas de gore e virtuosidade. “Deadcrush” nos traz um som mais digital, tendo a participação de Ellie Roswell, vocalista do Wolf Alice que também contribui com os vocais em “3WW”. “Pleader” realça o instrumental orquestral arranjado pelo próprio Alt-J e executado pela Orquestra Metropolitana de Londres, nos trazendo melodias típicas do New Wave , remetendo até mesmo à cantora Enya em algumas partes. “Last Year” é a melancolia relaxante do cd -descrevendo mês por mês de um ano de dificuldades- impulsionada com a delicada voz de Marika Hackman, que já havia trabalhado com o grupo em seu álbum anterior. “Adeline” além de ter sido uma das mais elogiadas em redes sociais, traz o trip hop em forma de confissão acústica.

Mantendo o alto nível de composição, os britânicos continuam grafando seu delta em nossas expressões e oferecendo material de qualidade em Relaxer. Ouso dizer que a maestria do grupo os torna um dos maiores gênios da atual cena musical, sendo altamente subestimados. Obtiveram destaque no Brasil somente após participar da edição do Lollapalooza 2015. Aos poucos, o devido crédito vai sendo dado. E cá entre nós, espero que eles continuem com seu discreto sucesso longe das mídias globais e trilhas de programas de baixa categoria. Que o apoteótico e revolucionário trabalho do grupo possa ser devidamente degustado por aqueles que merecerem tamanha sensibilidade e intensidade, ou seja, todos nós.

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