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Sense8 – 2ª temporada

Sense8 – 2ª temporada

Gustavo Pereira - 9 de maio de 2017

Pablo Villaça escreveu, à época da primeira temporada de Sense8, que a série era “construída por, com e sobre empatia“. Eu extrapolaria esta análise para dizer que, uma vez conhecendo verdadeiramente a história de uma pessoa, é impossível não se apaixonar por ela. Não há gênero, cor, fé, classe social e distância capazes de impedir que, ao olhar para a alma do outro, vejamos o reflexo de nossa própria.

O elenco participou da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo em 2016: o material gravado entrou na série e foi importante para o desenrolar da história de Lito na segunda temporada

Isto dito, deve-se admitir que a segunda temporada da série criada pelas irmãs Wachowski em parceria com J. Michael Straczynski apresenta uma queda naquilo que J.R.R. Tolkien chamava de “aplicabilidade da obra”: um evento ficcional dentro da narrativa que pode ser interpretado como uma passagem na vida do público ou a um momento da História. Uma vez que os personagens foram apresentados, as regras principais do universo foram estabelecidas e a espinha dorsal da trama foi elucidada, Sense8 se torna mais parecida com uma série de ação tradicional. Em alguns momentos, remete inclusive a outras obras de Lana e Lilly Wachowski.

Um exemplo de certa preguiça narrativa: em dois momentos, Will se encontra com inimigos e, em ambos, se senta de frente para um ícone cultural, ouve uma preleção sobre este ícone, o que ele representa e como se aplica à conversa que está prestes a ter

O grande mérito de storytelling da primeira temporada foi contar oito histórias diferentes, em lugares diferentes, com protagonistas completamente diferentes e, usando elipses temporais, fazer com que a saga de um personagem preenchesse as lacunas das demais. O objetivo da produção era mostrar que todas as vidas, por mais incompatíveis que pareçam ser, tratam dos mesmos temas e, portanto, pessoas à primeira vista sem nada em comum são capazes de se entender perfeitamente. É uma mensagem mais do que correta, é necessária. No mundo globalizado em que as distâncias se encurtam a cada momento, um regresso para o comportamento tribal e hostil é mais notado a cada dia.

Ao unir os sensates, pessoas com capacidade de se conectar mentalmente a outras de seu grupo (o original “cluster” é um termo de computação), as histórias individuais enfraquecem em relação à primeira temporada. Seja por seus desdobramentos, como a nova empreitada de Capheus (Toby Onwumere substitui Aml Ameen e a “justificativa” para sua “mudança de visual” tem o mesmo ar cômico da troca da Tia Vivian de Um Maluco no Pedaço), ou pela guinada, como a do Wolfgang (Max Riemelt). As novas adversidades que cada um enfrenta ao longo dos 11 episódios são mais particulares, de difícil associação. Talvez por isso alguns diálogos sejam expositivos, deixando claras as intenções de quem os escreveu. Dois bons exemplos: quando Dani (Eréndina Ibarra) confronta sua família e quando Sun (Doona Bae) recorda uma lição aprendida com sua mãe.

Na “grande história”, que é a luta pela sobrevivência dos sensates contra a Organização de Preservação Biológica (OPB), é como se víssemos uma mistura de Heroes e Matrix, com toques de desenho animado. A ideia da “corporação do mal”, que está em todos os lugares e oprime os protagonistas de todas as formas possíveis, é boa. Mas as ameaças são tão imobilizantes que, de tempos em tempos, precisam ser ignoradas ou neutralizadas para que a narrativa não engesse. Sendo o mais genérico possível: um dos sensates que está sendo perseguido pela polícia encontra uma forma de “sair do radar”. Esta solução, além de um tanto quanto ridícula e muito conveniente para o roteiro, não se sustenta. Sendo objetivo, esse problema não seria resolvido tão facilmente. É algo que pode atrapalhar a suspensão de descrença do espectador. A noção de que existem outros sensates no mundo, vivendo incógnitos e se ajudando mutuamente, embora tenha muito potencial, foi pouco utilizada. Este é um dos maiores problemas em Sense8: guardar as coisas para usar depois. Alguns episódios se arrastam e muitas perguntas foram empurradas para a terceira temporada.

Primeiro momento em que cores vivas entram numa cena da segunda temporada, exatamente após uma vitória dos sensates

Há um esmero técnico visível em muitos momentos, associando personagens, locais e sentimentos a gamas de cores (isso facilita demais na identificação rápida de onde estamos e sobre quem estamos ouvindo), além da inegável expertise das Wachowski para filmar cenas de ação. Diferente de diretores como Ang Lee, que transforma lutas em danças, ou Zack Snyder, que corta como se não houvesse amanhã e não dá tempo para que se aprecie cada quadros, Lilly e Lana apostam em muitas rotações de câmera no próprio eixo, movimentos bruscos e alternâncias entre velocidades, para que momentos considerados por elas como importantes sejam vistos com mais ênfase e os demais entreguem coerência dinâmica. Sabemos onde algo começa e, mais importante, para onde aquilo vai.

O contraste entre as cores usadas para retratar Sun na cadeia e em liberdade é gritante: enquanto a cela vive numa escuridão azulada, fora dela a personagem é muito mais leve

O elenco principal está praticamente no mesmo nível (Onwumere não compromete de forma alguma a credibilidade construída por Ameen para Capheus), embora alguns atores tenham mais oportunidades para trabalhar seus personagens do que outros. Deve ter passado despercebido pela maioria, mas minha atuação preferida da temporada é de Miguel Ángel Silvestre, intérprete de Lito: quando sua mãe diz a ele “venha aqui, meu pinguinzinho”, ele se dirige até ela, claramente fragilizado, com os braços ligeiramente para trás, como as asas de um pinguim. É quando entendemos perfeitamente porque ele tem esse apelido carinhoso. Singelo, discreto e efetivo. Já o Suspiros de Terrence Mann, embora o estadunidense seja voluntarioso, parece uma versão pirateada do Agente Smith que o brilhante Hugo Weaving tornou no vilão mais repugnante – e ameaçador – do começo do século na trilogia Matrix.

Linguagem não-verbal em Sense8: quando o mestre de Sun diz que sua maior honra foi treiná-la e se curva, ela faz uma reverência ainda mais aguda, demonstrando que sua honra supera a dele

Sense8 vive um paradoxo: apesar de alguns diálogos claramente forçados, como as entrevistas de Lito e Capheus, alguém precisa dizer aquelas palavras. Enquanto Trumps ganharem eleições e Bolsonaros forem chamados de “mitos”, nunca será um exagero repetir que “rotular é o oposto de compreender”. Mas a série peca em valorizar a ficção mirabolante e dar menos ênfase exatamente àquilo que a tornou tão especial: a empatia.

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