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Terra Selvagem

Terra Selvagem

Matheus Fiore - 10 de outubro de 2017

O roteirista Taylor Sheridan ganhou notoriedade após seus trabalhos nos elogiados Sicário: Terra de Ninguém e A Qualquer Custo. Em 2017, então, o americano decidiu alçar vôos mais altos, e, além de assinar o roteiro, tomou a direção de seu mais recente projeto, Terra Selvagem. Um erro comum do roteirista que se arrisca na direção é não compreender que o script é apenas o ponto de partida da obra. Para construir um filme, há de se fazer uso dos recursos audiovisuais por ele proporcionados. A narrativa consiste na união de todos os elementos a fim de contar a história. Como dizia Roger Ebert: pouco importa o que o filme diz, o que importa é como o filme diz. Sheridan, infelizmente, não compreende isso, e tem com Terra Selvagem uma obra narrativamente pedestre, que depende em demasia do script para funcionar – e pior: encontra nele erros imperdoáveis.

Durante o inverno, em uma reserva indígena em Wyoming, nos Estados Unidos, o caçador Cory Lambert (Jeremy Renner) encontra o corpo de Natalie Hanson, uma das moradoras da reserva. A pedido da agente do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen), Cory se junta a ela e à força policial local a fim de desvendar os mistérios que circulam a morte da jovem.  A trama tem, em sua primeira parte, um bem-vindo clima de suspense. Conforme acompanhamos Cory, Jane e cia nas investigações, temos aqui e ali pistas do passado do protagonista, sua relação com sua ex-mulher, seu filho e com os outros moradores da reserva indicam que o personagem também teve sua própria tragédia pessoal.

Os planos abertos que exaltam o vazio da paisagem da reserva são uma escolha interessante do diretor de fotografia Ben Richardson. O excesso de neve e o trabalho de som, que enaltece os sons da natureza, são importantes para criar o clima desolado do ambiente. Quando adentramos na reserva pela primeira vez, há um plano específico que traz a bandeira dos Estados Unidos içada de cabeça para baixo, funcionando para transformar aquela região em um “novo oeste”, uma terra sem lei, onde, aos poucos, descobrimos que todos são angustiados pelo passado. Aliás, angústia é o sentimento que domina o elenco: com exceção da outsider Jane, todos os personagens trazem em seus semblantes a melancolia e, por seus diálogos, revelam sutilmente algum trauma, o que é essencial para que todos os envolvidos na investigação tenham uma motivação pessoal para ajudar a resolver o caso.

O problema de Terra Selvagem é o eterno laço com o texto. Sheridan nunca tenta estabelecer climas se não pelo texto ou pelas atuações. Não há uma variação nos enquadramentos, não há o uso de cores para sugerir sensações, não há uma mudança de ritmo a fim de dar impacto às cenas mais aceleradas. O momento mais cinematográfico da obra surge pela montagem, justamente para mascarar uma trama extremamente previsível e repetitiva, digna dos dias mais esquecíveis do Tela Quente, na TV Globo. Nesse momento, a quebra de linearidade da narrativa existe para que o espectador possa absorver o impacto da cena seguinte, mas, pela simplicidade da trama, o resultado é uma cena extremamente expositiva, que revela todo o mistério acerca do crime – e sem trazer nada de novo.

Taylor Sheridan obtém sucesso ao criar personagens interessantes, como o pai vivido por Gil Birmingham, que por meio de sua atuação introspectiva e carregada, protagoniza alguns dos mais intensos momentos da obra. Nem os esforços do bom elenco salvam, porém. Terra Selvagem traz uma trama previsível e óbvia, sem nunca utilizar as técnicas do cinema para dar o mínimo de originalidade à narrativa. Se como roteirista o talento de Sheridan é enorme, como diretor, ainda há muito o que aprender, ou o destino de seus próximos projetos será mesmo o Supercine ou a Tela Quente.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2017.

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