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Vida

Vida

Matheus Fiore - 18 de abril de 2017

O plano-sequência do primeiro ato que acompanha o esforço da equipe de seis astronautas para trazer à sua nave amostras da superfície de Marte talvez seja, nos 100 minutos da metragem do filme, o único momento em que os personagens conseguem trabalhar em conjunto e de forma racional. Curiosamente, a falta de perspicácia e inteligência que persegue os personagens de Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ariyon Bakare, Hiroyuki Sanada, Ryan Reynolds e Olga Dihovichnaya acaba sendo o elemento que possibilita o desenrolar da narrativa de Vida, um verdadeiro “remake informal” do clássico Alien, O Oitavo Passageiro.

Na simples história, acompanhamos a missão destes seis astronautas para levar à Terra as primeiras amostras da recém-descoberta forma de vida marciana (que um dos personagens batiza de Calvin). Tudo dá errado, porém, quando Calvin demonstra se desenvolver a cada hora até que, em certo momento, torna-se um organismo hostil e violento, que caça todas as formas de vida da nave para destruí-las, motivado por um poderoso mecanismo de sobrevivência. Em sua introdução, a obra tem grandes acertos. As cenas que trazem a equipe analisando a composição de “Calvin” são importantes, por exemplo, para estabelecer a inteligência, percepção e força do monstro que antagoniza o filme. Por meio de suas descobertas e estudos, David, Miranda e cia estabelecem para o público o espaço para desenvolvimento de todas as características que viriam a tornar o marciano um verdadeiro pesadelo para os humanos da obra.

Narrativamente o filme tem erros e acertos. Para começar, a opção de planos longos e de ângulos incomuns (para acompanharem a ambientação em gravidade zero) são importantes não só para dar realismo à nave, mas para criar uma sensação claustrofóbica (principalmente nos planos fechados nos rostos apavorados dos personagens), e de descontrole na situação. Notamos, por exemplo, que a única figura que sempre está em domínio no eixo da câmera, posicionada de forma confortável e verticalmente, é justamente Calvin, o antagonista. A nave sem gravidade acaba sendo a localidade perfeita para o terrível vilão trucidar suas vítimas. Por outro lado, ao expor demais alguns elementos para desenvolve-los mais tarde, alguns planos acabam tornando certas cenas do filme previsíveis. Ao inserir, entre os diálogos dos personagens, repetidos planos que mostram um rato em uma “gaiola”, fica óbvio para o espectador que, em breve, algo acontecerá com o roedor. E é triste constatar que tal problema seria resolvido por cortes simples na edição, que não tirariam mais que 10 segundos da metragem.

A fotografia do filme utiliza bem suas cores para potencializar os diferentes climas do filme. Na cena onde os personagens correm o maior perigo do filme, por exemplo, percebemos a presença de uma luz vermelha por todo o ambiente, trazida pelo sistema de alarme da nave. A cor, que aqui impõe perigo e violência, aumenta a tensão em uma das cenas mais intensas do clímax do filme. Já em outros momentos, o uso de uma forte luz azul clara acompanha a sensação de frieza e desolação dos personagens. Repare, por exemplo, na cena em que Miranda e David dialogam, como a iluminação anil intensifica a sensação de frio dos personagens, prejudicados pelo defeito no sistema de aquecimento da nave.

O filme, porém, tem baixos que enfraquecem demais o produto final. Se nas cenas introdutórias percebemos inteligência e senso de equipe nos personagens, a partir do primeiro problema envolvendo Calvin, todos na nave passam a se comportar como crianças. É triste constatar que 90% dos problemas dos personagens seriam resolvidos se estes parassem para pensar na melhor saída possível, podendo ter eliminado o problema do invasor já no primeiro conflito. É compreensível que o texto faça isso, afinal, é a forma mais óbvia de desenvolver a narrativa, mas não deixa de ser uma forma extremamente pobre e que utilizou pouquíssimos neurônios dos escritores Rhett Reese e Paul Wernick. Por outro lado, o texto acerta por, graças também aos bons momentos da direção, saber inserir os sustos das aparições surpresa de Calvin sem abusar dos jumpscares nem tornar tudo muito óbvio. O vilão sempre encontra um jeito de contornar e adiantar os feitos de seus adversários, tornando-se um monstro implacável.

O triste é constatar que a inteligência do vilão também varia de acordo com a necessidade do roteiro. Em um momento, Calvin é capaz até de localizar o sistema de proteção de um traje para destruí-lo e deixar sua vítima vulnerável. Em outro, o monstro alienígena é incapaz de diferenciar uma lâmpada de um ser humano. Tal impossibilidade de diferenciar chega a tornar-se um furo, pois não muito antes, o filme utilizou planos subjetivos com distorção de imagem para sugerir que o público estaria acompanhando o ponto de vista do vilão. Ora, se ali éramos capazes de entender tudo que estava em cena, por quê mais tarde não diferenciaríamos uma lâmpada de um ser humano? Há ainda grandes desperdícios no filme. No primeiro ato, por exemplo, nos é dito que um dos personagens começa a ver os efeitos de mais de 400 dias no espaço em seu corpo. Tal diálogo chega a sugerir que, futuramente, o personagem possa apresentar alguma insanidade ou qualquer outro problema. Incrivelmente, tal elemento é apresentado e… ignorado. Não há sequer uma menção de sua condição física no restante da trama.

Outro elemento que prejudica o filme é sua edição. Tendo pegado sinalização máxima nos Estados Unidos, não faz sentido que o filme poupe suas cenas mais sangrentas do público. A opção de Espinosa de não mostrar tanto os feitos de Calvin com suas vítimas até funcionaria, mas o diretor em momento algum trabalha bem o som e os olhares apavorados dos sobreviventes, que seriam os elementos responsáveis por cultivar a imaginação do público. As mortes sempre são cortadas rapidamente e sucedidas por mais cenas de desenvolvimento, o que tira o impacto de todas as execuções da obra.

Com seus erros e acertos, Vida ainda é um terror decente e acima da média, que sabe construir seu vilão, mesmo que para isso extraia muitas ideias do clássico Alien, O Oitavo Passageiro. É o típico caso do filme que depende muito do espectador “desligar seu cérebro”, pois mesmo que este tenha uma narrativa fantasiosa, as incoerências dos personagens e do texto são gritantes e tiram o público do filme. De novo, cabe enaltecer apenas as escolhas de plano de Espinosa para construir a imponência visual de seu monstro. Fora isso, talvez o grande trunfo do filme seja mesmo beber da fonte certa. Pelo menos serve para atiçar o público para a chegada de Alien: Covenant, que estreia poucos meses após.

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