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10 filmes premiados para o Dia do Orgulho LGBTQ

10 filmes premiados para o Dia do Orgulho LGBTQ

Ana Flavia Gerhardt - 27 de junho de 2018

28 de Junho é o Dia do Orgulho LGBTQ. A data foi escolhida para lembrar o dia 28 de junho de 1969, quando a polícia invadiu o bar Stonewall Inn, um lugar de encontro de pessoas gays em Nova York, com a intenção principal de amedrontá-las. A reação das pessoas à invasão foi inesperada: uma multidão cercou o bar e houve confrontos entre policiais e população.

Em função desse fato, nos dias que se seguiram outras manifestações aconteceram em toda a cidade. Hoje, elas são consideradas as precursoras das paradas LGBTQ, que congregam em todo mundo o sentimento de luta, alegria e orgulho, diante da opressão, da violência, do preconceito e das dificuldades que as pessoas LGTQ têm de enfrentar diariamente em todas as sociedades.

O Cinema notabiliza o orgulho LGBTQ com filmes maravilhosos que têm sido premiados em grandes festivais e pelas mais festejadas Academias e Associações voltadas para a Sétima Arte. O reconhecimento que esses prêmios trazem turbina a importância artística e histórica desses filmes. Em 2017, essa importância alcançou uma das mais conservadoras Associações de Cinema, que é a Academia de Hollywood, com a premiação de Moonlight” com o Oscar de Melhor Filme.

O Plano Aberto reuniu dez desses notáveis filmes para festejar o dia 28 de junho em solidariedade aos grupos que, no mundo inteiro, lutam bravamente por mais direitos sociais para as pessoas LGBTQ e celebram com grande intensidade cada vitória alcançada. Todos eles foram agraciados com prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atuação ou Melhor Roteiro. Esperamos que, com eles, o espectador possa, ao mesmo tempo, se deleitar com obras artísticas diferenciadas e compreender um pouco mais as múltiplas facetas do universo LGBTQ.

A criada“, de Chan-wook Park (2016)

Vencedor de importantes prêmios de Melhor Filme de Língua Estrangeira no Ocidente, e também ganhador de prêmios de Filme, Direção e Atuação em Organizações Asiáticas de Cinema. O consagrado diretor Chan-wook Park entregou ao mundo um filme belíssimo visualmente, e extremamente erótico e ousado para os padrões ocidentais. O que vemos na tela é o amor entre duas personagens socialmente reprimidas por razões diferentes, que se encontram naquilo que afeta todas as mulheres do mundo: a objetificação e a opressão sobre seus corpos e seu desejo. A Coreia dos anos 30 do século passado envolve a narrativa que nos dá tempo suficiente para ficarmos encantados com a intensidade que salta da tela e nos faz reconhecer a grande potência das personagens e seu relacionamento caracterizado pela confiança e pela cumplicidade.

“Amor de fim de semana”, de Andrew Haigh (2011)

Numa época em que as vivências homoafetivas ocupam espaços sociais mais amplos que os guetos, e a angústia de compor um grupo social discriminado arrefece um pouco, abre-se espaço para a angústia íntima sobre quem se é. Tal angústia é o tema desse lindíssimo e impactante filme independente, muitas vezes premiado no Reino Unido: atualmente, assumir a própria sexualidade publicamente é tão importante quanto assumir a própria sexualidade para si mesmo. Por isso, é constante no filme o confronto entre ideias diferentes sobre como deve ser o comportamento social das pessoas LGBTQ num mundo hegemonicamente heteronormativo. Esse confronto é imprescindível para ajudar as pessoas a construir a coragem de estar diante dos outros, mesmo sentindo que sua homossexualidade está visivelmente exposta, como uma ferida aberta e latejante.

Azul é a cor mais quente“, de Abdellatif Kechiche (2013)

Filme que em Cannes recebeu a Palma de Ouro e os prêmios de Melhor Atriz para as protagonistas Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos. Um dos motivos para sua importância é o fato de ser uma história de amor com começo, meio e fim: no início, encantamento, descobertas, entregas as escolhas de vida comum. Depois, o convívio, os erros, as inconsequências, o sofrimento, o arrependimento, o fim e a vida que segue. Ou seja, uma história fora dos padrões de histórias com pessoas LGBTQ com finais trágicos e punições, algo de que muitos se queixam. A homoafetividade é um detalhe da narrativa: testemunhamos um casal, como tantos, comum. Se encontram na sorte grande do amor correspondido, da verdadeira paixão, mas também se desencontram nos diferentes planos de vida, e na forma como cada uma lida com isso.

“Brokeback Mountain”, de Ang Lee (2005)

Essa obra-prima, esse maravilhoso filme de um amor não consegue lugar nem tempo para ter a sua história, levou merecidamente os mais importantes prêmios internacionais de  Melhor Filme, Direção e Roteiro Adaptado, à exceção do Oscar de Melhor Filme. Uma das razões é o impacto causado pelo sentimento intenso e duradouro entre dois cowboys estadunidenses, justamente duas figuras que personificam a ideia do macho branco heterossexual. Mais de dez anos após o lançamento do filme, numa época em que o conservadorismo anda sem vergonha de dar as  caras, a história de Ennis Del Mar e Jack Twist, dois homens jovens e lindos se pegando na tela, num envolvimento sem escamoteamentos e sem medo de provocar desejo na plateia, ainda choca  muita gente, pela coragem em abordar um símbolo tão arraigado de masculinidade, e por fazer isso sem colocar equívoco sobre o amor que há entre os personagens.

“Carol”, de Todd Haynes (2015)

Consagrado em Cannes com os prêmios de Atriz (Rooney Mara) e Direção, Carol segue a linha de pensamento de alguns trabalhos de Todd Haynes: pessoas, na maior parte mulheres, que alimentam um desejo por viver a vida de acordo com sua vontade e de uma forma que lhes traz felicidade, mas que são reprimidas pelas normas sociais. Essa repressão recai sobre sua sexualidade, e o tratamento que Haynes dá a essa questão é sempre sutil, sempre delicada, e nada superficial. A divina Cate Blanchet é Carol, mulher de uma classe social privilegiada, mas imensamente infeliz. O encontro com Therese, vivida por Ronney Mara, afeta as duas de formas diferentes: Carol, já consciente de sua sexualidade e perdida num casamento sem sentido, sente em Therese acender a luz de um sentimento autêntico; Therese, por sua vez, descobre respostas para dúvidas afetivas e sexuais de uma vida inteira. A promessa de felicidade entre elas, que finaliza o filme, é um dos momentos mais bonitos do Cinema nos últimos anos.

“Felizes juntos”, de Kar-Wai Wong (1997)

Kar-Wai Wong foi agraciado com o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes em 1997 por esse filme apaixonante, que nos fala do amor intenso e impossível entre dois homens chineses numa Buenos Aires em que o tango tempera sua sofrência. A impossibilidade do amor entre eles não vem do fato de se tratar de um afeto socialmente interditado, mas sim de suas personalidades antagônicas: um deles é um espírito da noite, dos prazeres carnais e da aversão à rotina e ao método; o outro é um homem que busca estabilidades e afetos maturados pela convivência e pelo conhecimento profundo do companheiro. A incompatibilidade de gênios entre eles não impede, porém, de um considerar insuportável a vida sem o outro, embora também seja insuportável a vida juntos. Algumas cenas cativantes, cheias de amor e sentimento, nos lembrarão dos amores que desejamos e não conseguimos levar adiante, e esse é mais um detalhe a tornar esse filme inesquecível.

“Tangerine”, de Sean Baker (2015)

Mesmo tendo poucos longas no currículo, Sean Baker é um cineasta que disse claramente a que veio, e os prêmios que “Tangerine” recebeu em eventos de Cinema Independente provam isso. “Tangerine” é sempre lembrado pela ousadia técnica: o filme foi todo produzido com aparelhos Iphone 5. Mas não é esse o único detalhe que o singulariza: assim como em “Uma mulher fantástica“, que comento abaixo, Baker convidou pessoas transgênero para interpretar personagens que compõem um dos grupos sociais mais discriminados em todas as sociedades: os travestis que se prostituem para viver, circundados por cenários decadentes e miseráveis, pelo lumpesinato e pela hipocrisia que os estadunidenses se recusam a enxergar, insistindo na ilusão de que, em sua terra mágica da prosperidade, as chances de felicidade e justiça são dadas a todos.

“Traídos pelo desejo”, de Neil Jordan (1992)

o fim do século vinte, quando as problematizações sobre gênero ainda eram vanguarda, esse filme impactou o universo cinematográfico com uma força que justificada pelo fato de que tratar de homossexualidade e pessoas transgênero era uma raridade no Cinema mainstream e convencional. Mas qualidades intrínsecas justificam com folga o Oscar de Melhor Roteiro e o BAFTA de Melhor Filme que “Traídos pelo desejo” recebeu. E ainda é fascinante a história dos dois soldados que se apaixonam pela mesma mulher transgênero, arrebatados por um desejo capaz de abalar as estruturas de um grupo armado e poderoso como o IRA. O título original “The crying game” desaparece diante da maravilhosa versão brasileira, que revela exatamente qual é o grande afetamento do filme: a tese de que, na verdade, somos movidos pelas nossas paixões pessoais, sentimentos inconfessáveis e reprimidos: inveja, ódio, ressentimento e desejo, em suma. Que, eventualmente, nos traem.

“Uma mulher fantástica”, de Sebastián Lelio (2017)

Vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro de 2018, o filme chileno estrelado por Daniela Vega traz de significativo o fato de a protagonista, uma mulher transgênero, ser interpretada por uma atriz também transgênero. A grande visibilidade do filme intensifica as justas críticas a filmes com personagens transgênero encarnados por atores e atrizes cisgênero. Eles perdem a oportunidade de expressar de forma plena e verdadeira a intenção de encaixar-se no rol de obras cinematográficas realmente revolucionárias e subversivas. Não faz mais sentido, na segunda década do século vinte e um, que as coisas sejam diferentes do que foi oferecido por “Uma mulher fantástica“. A história e a potência da cantora Marina tornam-se palpavelmente robustas e autênticas com a atuação de Daniela Vega, que encarna uma personagem que acaba de perder o namorado e, para que possa homenagear seu corpo, precisa passar pelo preconceito brutal de sua ex-esposa e filhos.

“Vera”, de Sérgio Toledo (1986)

Anos antes da ampliação do diálogo sobre gênero e da própria popularização do termo transgênero, “Vera” trouxe para o debate sobre Cinema brasileiro questionamentos importantes e deixou os espectadores perplexos com a atuação poderosa de Ana Beatriz Nogueira como Vera/Bauer, que recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim. A contribuição de Ana Beatriz é um grande instrumento para suscitar a compreensão sobre o que significa nascer com o corpo errado. Ao afirmar-se homem, e convencer o público de que  realmente estava diante de um homem num corpo feminino, o personagem abre espaço para que reconheçamos a realidade das identidades transgênero e a opressão absolutamente desnecessária, mas nem por isso menos cruel, que pessoas que não se identificam com seu sexo sofrem na sociedade. Com esse reconhecimento, fica ainda mais escandalosa e absoluta a falta de justificativa de tanto preconceito em relação a comportamentos sociais que em nada afetam outras pessoas – antes as incomodam, porque revolvem repressões que elas não têm coragem de assumir, muito menos de enfrentar.

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