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15h17 – Trem para Paris

15h17 – Trem para Paris

Matheus Fiore - 7 de Março de 2018

Nos últimos anos, Clint Eastwood tem se dedicado a trabalhar, em seus filmes, os novos “heróis americanos”. Bem distantes do conceito mitificado do herói yankee, que se consolidou durante o período do Destino Manifesto, quando os estadunidenses em geral acreditavam ser alguém escolhido por Deus para colonizar e catequizar as terras, os heróis de Eastwood são humanos. Clint faz questão de por, antes do heroísmo, a falibilidade e a fragilidade de seus heróis, explorando os valores familiares e as visões cívicas e religiosas dos personagens. Se, em “Sniper Americano”, de 2014, o diretor nos mostrou o herói desde sua construção até sua queda – e aqui não faço juízo de valor sobre as visões de heroísmo de Eastwood, apenas comento o resultado cinematográfico de seu projeto -, imprimindo um elemento trágico à trajetória de Chris Kyle, em “Sully – O Herói do Rio Hudson” Clint parece estar mais interessado em trazer o heroísmo como um evento de minutos – e que redefine a vida de todos os envolvidos.

Em “15h17 – Trem para Paris”, o diretor reconta a história do trio formado por Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos. Amigos desde a infância, os três americanos estavam viajando pela Europa quando acabaram reféns de um terrorista marroquino, Ayoub El-Khazzani, que embarca com uma metralhadora e trezentos cartuchos de munição em um trem que ia de Amsterdã a Paris. Os amigos conseguiram impedir o ataque de Ayoub e tornaram-se heróis. A obra é baseada no livro “The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Soldiers”

O diretor decide transformar a jornada do trio protagonista em uma peça do destino, como se todos os elementos que formaram Spencer Stone como cidadão tivessem surgido para prepará-lo para a rápida ação de contenção do ataque terrorista. Para isso, Eastwood inicia a narrativa trazendo o trio já no trem – e, vale lembrar, as versões adultas de Spencer, Anthony e Alek são vividas não por atores profissionais, mas pelos próprios rapazes -, mas logo salta para a infância sofrida deles.No segmento em que narra a infância dos rapazes, a sua história depende excessivamente de clichês para funcionar, como professores rígidos, colegas que praticam bullying e mães superprotetoras.

Pela falta de uma intenção clara durante boa parte da metragem, “15h17” muitas vezes flerta com o gênero comédia escolar, de forma que o retrato da infância dos personagens se torna algo banal, já que apenas acompanhamos as rotinas do trio e meio a uma ou outra cena “engraçada”. O instinto protetor presente nos rapazes quando adultos, por exemplo, em momento algum é sugerido quando o filme retrata sua infância; apenas o apreço de Spencer por armas de fogo é algo realmente presente e relevante. Por ser a parte mais ficcional da obra – isto é, não trazendo nenhum dos rapazes envolvidos, apenas atores interpretando suas versões mirins -, a infância teria espaço para trabalhar melhor a formação da psique dos heróis, algo que o roteiro de Dorothy Blyskal nunca tenta, mantendo a preferência por trazer as crianças fazendo malcriação ou brincando. Não há drama, não há dilemas, não há uma construção de visão de mundo para nenhum dos personagens, apenas cenas rotineiras e esquecíveis.

Já quando trabalha a vida adulta, em que os personagens têm seus rumos profissionais definidos, “15h17” apresenta uma estranha mudança no tom, passando de uma espécie de coming of age para um road movie, e mostrando, de forma totalmente aleatória e desinteressante, os passeios feitos por Spencer e seus amigos pela Europa antes do dia do atentado. Diálogos que não levam a nada e uma câmera que tenta imprimir um tom documental – que não funciona, já que, na realidade, o que vemos é uma ficcionalização de um acontecimento real -, enquanto o trio revive os passos de suas viagens tornam a narrativa não só desinteressante, mas desgastante. Há sempre a impressão de que estamos apenas aguardando um grande evento enquanto assistimos a algo sem valor.

Eastwood filma o trio o tempo todo em momentos extremamente banais e efêmeros, sem nunca trazer algo que acrescente ao objetivo de esculpir de Spencer, Anthony e Alek como heróis. A intenção parece ser estabelecer que o heroísmo dos rapazes seja quase um chamado espontâneo, mas o resultado é apenas a monotonia de discussões sobre “pau de selfies” e sobre a beleza moças vistas durante a viagem. As atuações dos protagonistas também não ajudam, já que a dificuldade em ler os diálogos é tanta que suas falas surgem de forma pausada, imprimindo até certa mecanicidade à narrativa. A escolha de unir o real e o fictício por meio das figuras que protagonizaram o evento na vida real tem seu preço: sem um roteiro mais destinado ao trabalho da psique dos personagens e sem nenhum esforço de composição de personalidade por parte dos atores, não há conexão emocional entre público e personagens e nem peso dramático nos acontecimentos, já que tudo acontece de forma fria e mecânica demais.

Todas as escolhas de “15h17” parecem ganhar sentido no final. A ideia de Eastwood é inserir o real no fictício para fazer o público perceber que o drama não é artificial, mas uma representação de um evento verídico, vivido por heróis de carne e osso. O cineasta parece se distanciar da típica mitificação hollywoodiana para, num meio termo entre ficção e documentário, ensaiar sobre como os heróis das telonas também existem no mundo real. A cena do combate entre o trio e o terrorista Ayoub El-Khazzani é ensaiada, mas o momento de consagração de Spencer, Anthony e Alek mescla a ficção com o real, como se, nessa obra, o heroísmo retratado por Eastwood transcendesse o Cinema.

O resultado, porém, não é satisfatório. A arte sempre foi a máscara que usamos para expressar nossas verdades. Se pelo menos “15h17” abrisse mão do uso dos homens reais e aceitasse que o mítico só é atingível pelo uso de máscaras, talvez o resultado cinematográfico fosse melhor. “15h17 – Trem para Paris” não é um bom filme. É tecnicamente pedestre e falho por, ao tentar misturar ficção e documentário, escolher o pior dos dois mundos. Como ficção, a obra fracassa por basear-se em clichês e ser narrativamente dispersa; como documentário, é falha por trazer uma visão extremamente limitada dos eventos que cercam o atentado ao trem ocorrido em 2015. Como exercício artístico, porém, o esforço de Eastwood é louvável. Mesmo que não obtenha sucesso, é sempre interessante ver um cineasta consagrado que, aos 87 anos, ainda experimenta a relação entre forma e conteúdo no Cinema.

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