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4:44, de Jay-Z

4:44, de Jay-Z

Nathan Amaral - 28 de janeiro de 2018

Shawn Carter, Jay-Z, é mais do que uma lenda: ele é o porta-voz de uma geração de rappers que, ano após ano, perde espaço para a estética musical e visual de um mundo bem diferente do que o daqueles que, como Bob Dylan descreve no épico “It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)”“were bent out of shape from society’s pliers”.

Ouvir, então, o que (e como) Jay-Z teria a dizer após quatro anos de relativo sumiço da cena (uma quase meia década que, em termos musicais, foi modificada principalmente pelos movimentos titânicos de “Yeezus (2013)”, “The Life Of Pablo (2016)”,“To Pimp A Butterfly (2015)” e a consequente explosão do TRAP ou, como conhecido, o mumbling rap) seria, no mínimo, obrigatório.

E o que Jay-Z entrega é um diálogo entre homem e personagem cuja audição e estudo é obrigatória para qualquer um que aprecie arte e sociedade: “4:44” é um disco de duas metades, simétricas como as de um filme do Wes Anderson, viscerais.

Se, em 2011, o título de sua colaboração com Kanye West era “Watch The Throne”, “4:44”, seis anos depois, facilmente pode ser descrito como os diários escritos pela visão periférica conferida pelo trono.

Na primeira metade do disco, de dez faixas, simbólicas na escolha (e com alguns extras disponíveis apenas na versão do serviço de streaming que Jay-Z é dono, Tidal) o homem, Shawn Carter, arranca o rapper e despeja todas as angustias que o cercam, tanto confissão quanto lição, tanto testamento quanto eulogia.

“Kill Jay-Z” inicia o disco com uma sirene que pouco lembra a de Kendrick Lamar em “XXX.”, e sim um outro Kendrick, bem mais novo, em “m.A.A.d. City”: 

“ ‘Seem like the whole city go against me
Every time I’m in the street I hear
“Yawk! Yawk! Yawk! Yawk!”
“Man down
Where you from, nigga?”
“Fuck who you know, where you from, my nigga?”
“Where your grandma stay, huh, my nigga?”
“This m.A.A.d city I run, my nigga’.”

Auto-ódio, angustia, perda, ansiedade, as consequências do sucesso atacam o fluxo de consciência de Shawn Carter ao pronunciar a morte daquela persona que o trouxe ao topo do mundo ao custo de destroçar a vida das suas relações emocionais.

Jay-Z entrega um dos versos mais reais da cena nessa música ao falar sobre as consequências da sua infidelidade, endereçadas diretamente em “4:44”, “in the future seein’ other niggas playin’ football with your son”.

“The Story of O.J.” combina os sentimentos deixados pela abre-alas para nos dar uma lição formidável sobre historiografia: a relação perigosa e viciante entre minorias e o poder sanitarizador do dinheiro. O.J., com sua pegada lenta entre samples de Nina Simone e um piano de lounge, é confirmadora da clarividência que o próprio rapper (mais tarde, ao assumir novamente sua persona, na segunda metade do album, em “Family Feud”, ele a compara com a de Micheal Corleone, de “O Poderoso Chefão”).

“Smile”, faixa mais longa do disco com seus arrebatadores cinco minutos, é uma das mais belas já produzidas no gênero. Jay-Z tece bordados de vulnerabilidade com flashbacks e reflexões sobre escolhas e sobrevivência, citando diretamente sua mãe, Gloria Carter, que precisou viver boa parte de sua vida escondendo o fato e a subsequente frustração de que era lésbica para poder ter uma vida, um teto, para ter paz.

“Smile”, o mantra da música, pode tanto ser visto pela perspectiva otimista de que as coisas continuarão a melhorar e darão certo ou como a gota de veneno no canto da boca da hipocrisia da sociedade, que nos obriga, constantemente, a esconder nossa realidade para atender às suas expectativas, principal e agravante diante de nossa condição socioeconômica. Gloria Carter empresta sua voz em um sample para coroar a música ao seu final, recitando alguns versos. “love who you love because life isn’t guaranteed.”

“Caught Their Eyes”, antecessora à crux do disco, “4:44”, é onde Jay-Z mira na indústria fonográfica. Com uma construção mais leve e colaborando com Frank Ocean o rapper constrói linhas entre entender a realidade do “jogo”, como chamam o cenário da indústria fonográfica e cultural do rap/hip-hop/trap, e ver pela sede de poder daqueles que a dominam.

A metáfora com a morte de Prince e a natureza de sua cor de assinatura, o roxo, cor abundante nos imperadores romanos e altamente relacionada com o poder de monarcas durante a história, são mais provas da escrita impecável e realista de Jay-Z em “4:44”, tendo Frank como um contra-peso poético sobre as consequências da avareza.

“4:44” é, literalmente, destruidora. No ID, um dos principais mentores de Kanye West, demonstra sua influência absoluta com a forma como tece a sample de introdução, a voz de Hannah Williams corta pelos alto-falantes como se bíblica, e dá espaço… à verdade. A maior arma de “4:44”, tanto música quanto disco, é exatamente a verdade. Se no começo deste disco nos perguntamos o que alguém como Jay-Z, com treze álbuns de estúdio em sua carreira, como já anunciado por sua capa, tem a oferecer para a cena, a resposta é a verdade.

Jay-Z endereça elementos de seu crescimento e de sua personalidade, presentes em cada uma das músicas anteriores, para explicar o maior escândalo de sua vida: seu histórico de infidelidade com Beyoncé. Mais do quê uma música que se aproveita de uma história de tablóide, de um homem em sua posição de poder utilizando-se de uma sede incansável por mais para luxúria e riqueza, “4:44” é uma obra magistral porquê explode como um clímax de storytelling em nossos ouvidos.

Somos preparados para ela, somos preparados da primeira faixa ao primeiro segundo dessa música para tirarmos nossas próprias conclusões. Se Twitter e Facebook se inundam de épocas em épocas com artigos e debates sobre sexualidade e fidelidade, eis, então, a contribuição do rap para a história.

“I apologize, our love was one for the ages and I contained us
And all this ratchet shit and we more expansive
Not meant to cry and die alone in these mansions
Or sleep with our back turned
We supposed to vacay ‘til our backs burn
We’re supposed to laugh ‘til our heart stops
And then meet in a space where the dark stop
And let love light the way”

Hannah Williams encerra o primeiro ato de um disco que, se aleijado, já seria clássico.

Não existe tempo de digerirmos tudo que foi dito, da sirene suicida ao piano melancólico às confissões de sua infidelidade, em “Family Feud” somos transportados por um Jay-Z totalmente diferente que parece responder, como na fase maníaca de um surto bipolar, afundando Shawn Carter novamente e nos emprestando a segunda metade dessa visão periférica.

Aí estão as décadas de serviço e de cultura à música que ajudou a disseminar por todo o mundo, aí estão os comentários precisos e as novas verdades, não mais sobre si, mas sobre sua perspectiva na cultura. O homem dá lugar ao personagem: o empresário, o monarca, o absoluto que já viu muito mais do quê todos os jovens juntos jamais verão.

Essa visão é confirmada pelo sample explosivo de Bam, com Damien Marley, filho de Bob Marley, onde Jay-Z rechaça toda a carga emocional e a vulnerabilidade da primeira metade do disco. Bam é incendiária, demonstrando todo poder de fogo do rapper diante das novas gerações.

A trinca que finaliza o disco, “Moonlight”, “Mercy Me” e “Legacy”, seguem a linha de reafirmação de sua história até os dias atuais e as possibilidades do seu futuro.

O destaque nessas músicas está para o trabalho nas batidas de No ID, e em versos voltados diretamente para o trap music, como:

“We stuck in La La Land
Even when we win, we gon’ lose
Y’all got the same fuckin’ flows
I don’t know who is who
We got the same fuckin’ watch
She don’t got time to choose
We stuck in La La Land
We got the same fuckin’ moves”

Como em “Smile” a ambiguidade de “Moonlight” é um dispositivo na escrita de Jay-Z. Ele pode estar apenas declarando o seu lado da cena, diante do trap, como os verdadeiros vencedores e produtores reais da cultura negra, alheios às sanitarizações do mercado, mas também é possível observa-la como uma preocupação sobre a cena e a cultura em geral, criticando trabalhos que se voltem apenas para os mesmos temas e a mesma simplicidade e falta de criatividade como pejorativos para a cultura e o seu futuro diante do mundo.

De todas as palavras possíveis para sumarizar a importância e experiência de 4:44 as melhores estão impressas na própria capa do disco:

“ESSE É O SEU DÉCIMO-TERCEIRO ALBUM”

Como um cartão de visitas de uma verdade maior que seus fatos, em letras negras contrastando um fundo cor de pêra, “4:44” é simples, direto e clássico como o minimalismo de sua capa.

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