fbpx

Ajude este site a continuar gerando conteúdo de qualidade. Desative o AdBlock

A Feiticeira Viúva

A Feiticeira Viúva

Redação - 11 de junho de 2018
Por Arthur Salles

Vencedor do principal prêmio no Festival Internacional de Cinema de Roterdã de 2018, “A Feiticeira Viúva”, longa de estreia do realizador chinês Cai Chengjie, é uma inventiva articulação entre filme de estrada e drama fantástico, percorrendo vilarejos rurais do norte da China enquanto capta a dura realidade e tratamento imposto à sua protagonista. É a partir de uma ótica observadora, e intervencionista em certos momentos, que o longa dita os rumos dessa curiosa jornada.

Wang Er Hao (Tian Tian) casou-se três vezes. Todos os matrimônios foram destruídos por tragédias acometidas a seus maridos. Devido a tal retrospecto, seus conhecidos e habitantes de pequenas comunidades próximas passam a olhar com superstição e temor a jovem viúva. Após bizarros acontecimentos partirem dela, a forma de tratamento e relação com seus antes detratores é transformada, passando a ser uma via de mão dupla entre interesses e necessidades – tanto da protagonista quanto dos aldeões.

“A Feiticeira Viúva” é competente na difícil tarefa de conciliar tantos elementos em uma obra, ao mesmo tempo, tão particular e comunicadora, apropriando-se levemente de alguns gêneros e subgêneros populares (além dos já citados fantasia e filme de estrada, o longa se arrisca em variadas situações de humor). Apesar de sua vigorosa composição visual, o determinante aqui é o acompanhar das desventuras da dupla (Er Hao é seguida por seu jovem cunhado), marcadas pela astúcia e necessidade de sobreviver em meio à uma tóxica sociedade.

Expressando sua feminilidade pelos feitiços e rituais concebidos, Er Hao ganha vantagem em ocasiões normalmente determinadas pela afirmação machista, como o filme trata de observar já em seus primeiros instantes. Logo, a precaução inicialmente envolvida pela viúva toma forma a partir de si como principal arma, a fim de superar a subjugação em que se encontra. O receio é atravessado pelo respeito, e finalmente pelo medo, após a jovem concluir que não há nada de errado com severidades.

A aproximação que “A Feiticeira Viúva” toma para si transita de forma nebulosa entre o real e imaginário, interiores ou exteriores à visão da protagonista. O efeito surtido por isso se adequa à mecânica que o filme compõe, como observação e criação: assim como os personagens encontrados ao longo do caminho, o espectador não chega a ter um esclarecimento quanto à natureza do que é empregado por Er Hao. Além disso, são constantes as visões e delírios, resultados da culpa e desamparo, vistos somente por ela (e mais uma vez a abordagem que Chengjie traduz em suas imagens é hábil ao retratar e demarcar possíveis distinções, alternando o ponto de vista entre a xamã e o seu pequeno cunhado).

O desenrolar de cada nova interação é visualizado pela paciente câmera do diretor, estilizada pelo predominante preto e branco. Privilegiando a oralidade, tais encontros são delineados para além da força de seus diálogos (enriquecidos pela veia cômica do filme), mas em muito pela exploração das expressões de seus intérpretes e o ambiente que os cerca. Praticamente todas as cenas em que a protagonista se vê como refém de requisições absurdas dependem dessa observação para seu pleno funcionamento narrativo, cedendo espaço a desdobramentos físicos e emocionais dos atores (a cena em que Er Hao enfrenta um casal se dá como melhor exemplo).

“A Feiticeira Viúva” trata seus temas urgentes com maturidade e sobriedade – lançando mão de recursos criativos a fim de organizar sua divertida, trágica e comprometida constatação e enfrentamento da subjugação feminina, ressignificando relações de poder por meio de idealizações próprias. O caráter discursivo e abrangente nunca ofusca, contudo, o desenvolvimento de sua personagem, aderindo-se organicamente à progressão da trama e sua construção como poderosa ficção.


Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival Olhar de Cinema de 2018.
Para conferir mais textos da nossa cobertura, clique aqui e vá até o final da página.

Topo ▲