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“AmeriKKKant”, de Ministry

“AmeriKKKant”, de Ministry

Mario Martins - 15 de março de 2018

À medida que denunciar e/ou protestar contra algo tornou-se “mimimi”, é possível observar os reflexos desse novo pensamento traçando um paralelo com o cenário musical no Brasil. Com o movimento “ostentação”, que visa e endeusa a demonstração de riqueza e bens materiais, a música passou a ser uma ferramenta de escapismo, isto é, curtir para esquecer os problemas. E se no período da ditadura militar (cujo fim foi celebrado com música na primeira edição do Rock In Rio) era proibido realizar protestos de forma explícita, obrigando os artistas a se expressarem através de metáforas e duplo sentido, hoje, em plena democracia, parece ter se perdido o gosto de explicitar críticas sociais artísticas. Mas graças a Dio, nós temos o metal. Ou melhor, temos o Ministry.

Sendo uma mensagem direta ao atual presidente estadunidense, “Amerikkkant” não só faz referências a falas de Donald Trump, como também utiliza samples com sua voz, satirizando por completo sua postura e comportamento com chefe de estado. O álbum se inicia com a faixa “I know words”, que cumpre uma função de introdução ao violento e bruto protesto que está por vir. Podemos ouvir uma chuva de violoncelos que trabalham com uma cadência semelhante a do compositor Hans Zimmer (trilogia Cavaleiro das Trevas e Dunkirk). Também torna-se importante destacar que o predominante tom de New Metal que será dado ao longo de todo o CD, se inicia aqui, com arranhadas de DJ que nos remetem à artistas como Slipknot e Linkin Park em seu início de carreira.

 

 

“I remember waking up on November 9, 2016
And feeling a little bit nauseous
It felt like descending into a bottomless pit on a high speed rail
Careening head first into the unknown”
“Lembro-me de acordar em 9 de novembro de 2016

E me sentindo um tanto enjoado

Sentia-se como descer em um poço sem fundo em um trilho de alta velocidade

Caindo de cabeça no desconhecido”

 

 Twilight Zone” já chama atenção por sua duração. A 2ª faixa de “AmeriKKKant” tem 8 minutos de duração, um feito raro se compararmos com a música contemporânea. Além de ter um riff de guitarra com pegada meio épica, podemos ouvir gaitas ao fundo, que ao contrário de seu uso no folk, aqui possuem uma intensidade mais caótica, quase como se fossem sirenes de evacuação. Como pode se observar, o conteúdo da letra não mede esforços, trazendo inclusive a data de posse de Trump e a associando com adjetivos de repulso.

O uso de material externo, musicalizado junto ao instrumental, seja de vozes e sons do cotidiano torna-se uma ferramenta ainda interessante em “Victims of a Clown”, ajudando com o formato sujo e insano que a banda claramente demonstra passar. Contudo, o uso excessivo desses samples torna-se cansativo, uma vez que todas as vezes que se execute a música, você seja obrigado a escutá-los novamente. Funcionam perfeitamente como introdução e prelúdio, como foi o caso com “I know words”, mas a técnica vai se tornando batida e cansativa ao longo de “AmeriKKKant”.

É interessante analisar o uso dos samples em “TV 5/4 Chan”. Que ao longo de seus breves 54 segundos, faz uma crítica sonora à indústria do armamento e serve de passagem para a canção seguinte, “We’re tired of it” (nós estamos cansados disso). Sendo essa a faixa que mais conta com vocais, a pegada thrash clássica nos remete a uma essência Slayer, onde o instrumental se mantém padronizado e a voz emite melodias que às vezes acompanham o tempo da pallhetada da guitarra, às vezes simplesmente fazem o que querem.

“Wargasm” apesar de fazer uma jogada interessante com as palavras “war” + “orgasm” (guerra e orgasmo), não nos oferece nada específico, podendo ser claramente confundida com outras músicas de “AmeriKKKant”. O uso de backin’ vocals é utilizado como ferramenta de manipulação, uma vez que usa a repetição de trechos da letra como se fosse um comício político, uma ideia sendo propagada. O fato do compasso quaternário simples ser mantido e muito bem aproveitado com os tons da bateria, nos passam uma nuance de formação, como uma grande marcha.

O álbum vale como exercício de protesto e manifestação, características herdadas do punk e o movimento da música-atitude. Uma lembrança de que a arte também é campo de luta e resistência, além de apreciação e entretenimento. O Ministry poderia facilmente ter investido mais em sua sonoridade e menos em links externos (sonoramente falando), já que em certos momentos é mais fácil ouvir o discurso transmitido por rádio do que os instrumentos em si.

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