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Aos Teus Olhos

Aos Teus Olhos

Matheus Fiore - 9 de Abril de 2018

Um instrutor de natação começa seu dia de trabalho. Após acompanharmos uma aula descontraída e animada, na qual o protagonista se diverte com seus alunos, está criada no professor de natação Rubens (Daniel de Oliveira) uma imagem angelical. Rubens é o modelo de adulto no que diz respeito ao seu relacionamento com criança, faz cada um dos pequenos nadadores se sentir confortável e amado. Ao fim da aula, Rubens vai ao vestiário, onde encontra um colega de trabalho. Lá, Rubens comenta sobre a beleza de uma adolescente momentos e é repreendido pelo amigo. A obra segue, e a cena seguinte é Rubens em casa, transando com sua namorada. Com esses três momentos apresentados seguidamente, “Aos Teus Olhos”, obra de Carolina Jabor. cria inocência e candura para seu personagem principal, justamente para, logo depois, romper com essa imagem ao trazer Rubens em cenas que exalam malícia e sexualidade. A ambiguidade do sujeito está estabelecida.

“Aos Teus Olhos” acompanha a vida de Rubens, muitas vezes utilizando planos-sequência fixados às costas do personagem quando este chega à piscina, mostrando o quão confortável ele se sente no seu emprego. Não seguimos, porém, Rubens como professor, e sim como peça central de um suposto caso de abuso. Um de seus alunos, o menino Alex, de apenas nove anos, contou para sua mãe que Rubens o chamou em um canto e lhe deu um beijo na boca. A partir de então, o roteiro desenvolve os desdobramentos do caso, desde a reação dos colegas de trabalho até os pais de Alex, o envolvimento da polícia e as ramificações do caso nas redes sociais.

Muito comparado com o excelente “A Caça”, de Thomás Vintenberg, “Aos Teus Olhos” pode ter premissa parecida, mas segue por um caminho bem diferente. Enquanto a obra protagonizada por Mads Mikkelsen trabalha a onda de acusações de pedofilia que segue o professor, a protagonizada por Daniel de Oliveira deixa o abuso como pano de fundo para outras discussões. O foco não é discutir a culpa ou inocência de Rubens, mas sim a forma como todos os envolvidos no caso reagem à situação.

O efeito Rashomon gerado pela impossibilidade de chegar-se à verdade reflete nas escolhas estéticas do filme. O domínio do azul, presente desde os figurinos até nos cenários da obra, aos poucos cede lugar ao cinza, que materializa a incerteza que ronda o caso. A acusação gera uma situação complexa, que exige cautela de todas as partes envolvidas. A personagem que melhor retrata essa necessidade de ponderação é a diretora da academia, Ana (vivida por Malu Galli), que em uma atuação memorável pelo peso que dá a cada diálogo e olhar. Malu sempre age de forma hesitante ao responder ou se posicionar no caso, o que imprime cautela à personagem.

Carolina Jabor dirige Daniel de Oliveira no set de Aos Teus Olhos

Além de Ana e do restante do elenco, que está uniformemente bem, quem se sobressai e domina a narrativa é o Rubens de Daniel de Oliveira. Sabendo flutuar entre a candura e a malícia apenas pela forma como impõe sua voz ou movimenta seu corpo, Daniel constrói um protagonista tão fascinante quanto complexo, sendo praticamente impossível compreender a psique por trás de tantas nuances. É digno de elogio, também, como Daniel nunca cede aos exageros, algo que seria uma muleta muito coerente para construir um personagem injustiçado ou pressionado. Há, sim, exaltação, mas, de forma inteligente, o protagonista nos poupa de gritos e reações violentas exacerbadas.

A construção dos planos de “Aos Teus Olhos” é belíssima. Quando retratado com seus alunos, Rubens é constantemente fotografado no centro do plano, sendo a referência visual do enquadramento, bem como a referência moral das crianças, que o escutam e admiram. Quando passa a ser acusado de pedofilia, Rubens ainda é enquadrado no centro, mas há mudanças. Em boa parte dos momentos, por exemplo, Rubens ocupa apenas o terço inferior do quadro, como se estivesse diminuído, impotente diante da avalanche de acusações que pairam sobre ele. Essa construção imagética é essencial para estabelecer o clima opressor que sufoca o protagonista, que muitas vezes ouve e apanha calado.

Rubens passa a ser pressionado, tanto pelos pais quanto por seus colegas de trabalho, que cientes da persona maliciosa e cheia de desejo que reside por trás da máscara de professor dócil, não sabem o que achar da situação, quanto pelos pais dos seus alunos, que reagem instintivamente e consideram o protagonista culpado mesmo que não haja prova do crime. Até a pressão sobre o protagonista é bem estabelecida visualmente, graças ao uso de planos que trazem o personagem de Daniel de Oliveira centralizado entre dois armários, como se estivesse, aos poucos, sendo esmagado pelo julgamento precoce, sendo estes silenciosos, existentes por meio de olhares e apontamentos, ou declarados, existentes nos ataques verbais e físicos.

Mais interessante ainda é ver como a diretora Carolina Jabor encara a situação. Ciente da complexidade do caso, a cineasta opta por não fazer seus próprios julgamentos, o que rende planos lindos, como quando Rubens é visto de dentro da piscina, fazendo com que a água distorça sua imagem, o que simboliza o quão indecifrável se tornou o personagem. É, afinal, um caso extremamente líquido (é até irônico que o título em inglês de “Aos Teus Olhos” seja “Liquid Truth”, que podemos traduzir como “verdade líquida”), o que torna qualquer ação impulsiva imediatamente equivocada – não só os que apontam dedos para Rubens, mas também sua namorada, que defende sua inocência.

“Aos Teus Olhos”, portanto, distancia-se muito de “A Caça” e mostra ter personalidade. Enquanto o longa dinamarquês foca na impossibilidade dos coadjuvantes de terem certeza quanto a inocência do protagonista, o brasileiro utiliza essa inerente incerteza como palco para discutir os preconceitos e desejos “justiceiros” daqueles que não acreditam na inocência de Rubens. Apesar de ter um suposto pedófilo no centro da trama, “Aos Teus Olhos” é muito mais sobre como a sociedade reage a essas situações, e sobre como meias-verdades e ações irracionais podem custar muito mais do que o emprego de um professor de natação.

É um filme que documenta um dos males de seu tempo: os linchamentos virtuais. Além de artisticamente belo, é engajado em fazer seu público rever a forma como lida com casos tão delicados quanto o da trama. Não é à toa que a água, elemento seminal para que Rubens exerça seu trabalho, aos poucos perde espaço no filme, que se torna mais seco e acinzentado. É consequência de um caminho que Rubens não escolheu, mas foi obrigado a trilhar. O brilho nos olhos do professor desaparece, e por ter sido declarado culpado antes mesmo de ser julgado, resta a Rubens viver sob desconfiança.

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