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Aquaman

Aquaman

Apesar de divertido, “Aquaman” apresenta um rei que não tem interesse pelo próprio povo

Matheus Fiore - 11 de dezembro de 2018

É meio óbvio dizer que, sem reino, de nada serve um rei. O óbvio, porém, nem sempre é consenso. “Aquaman”, obra que adapta o famoso personagem dos quadrinhos, acompanha a jornada de Arthur Curry (Jason Momoa) para se tornar, além de um rei, um herói: Aquaman, o rei dos sete mares e salvador do povo atlante. Filho mestiço de uma rainha atlante com um simples faroleiro do mundo terreno, o herdeiro do trono de Atlântida tem como objetivo encontrar seu lugar no mundo e conquistar o trono do império submerso para, então, salvar a humanidade (tanto a terrena quanto a aquática) de uma possível guerra. Mesmo que divertido, “Aquaman” tem, além de problemas pontuais, um grande pecado: nem o público, nem o protagonista parecem ter ideia de quem é o povo que aguarda pela salvação do herói. Curry age por impulso ou guiado por terceiros, e parece nunca estar realmente interessado na jornada à qual adere.

Em sua estrutura, “Aquaman” não traz grandes inovações – e nem tenta. A clássica jornada do herói vestida com um amálgama de elementos de aventura e fantasia, fórmula que foi canonizada por um dos mais importantes blockbusters da história, “Star Wars: Uma Nova Esperança”, se faz presente desde o início. E, seguindo o formato do monomito, até que “Aquaman” é bem decente. O filme é, como se propõe a ser, um entretenimento tão bem humorado e colorido quanto banal. Porém, mesmo o entretenimento banal tem suas ambições. No caso, o heroísmo de Aquaman é colocado como um passo além de seu posto como rei. Momoa encarna um ser que precisa ser o símbolo da unificação entre dois povos.

“Aquaman” utiliza uma boa diversidade de cenários. A costa siciliana, a região do farol onde o pai do protagonista reside, submarinos, diversas locações do mundo atlante… Há, nesses múltiplos cenários, duas constantes, uma positiva e outra negativa. A constante positiva é que sempre há alguma sequência de ação bem coreografada e bem finalizada pelos efeitos digitais, e isso permite o dinamismo e o movimento da história, mesmo havendo, em vários momentos, excessos que só servem para imprimir uma assinatura estética zacksnyderiana. A constante negativa, porém, se sobressai mais: todas essas cenas parecem ocorrer em espaços mortos. Os únicos momentos em que o herói para seus afazeres para resgatar alguém são cenas do mundo terreno, o que faz com que os espaços atlante pareçam inabitados, se não por bonecos construídos digitalmente.

Aquaman é um herói que precisa salvar um mundo que não parece possuir cidadãos a serem salvos. Isso reflete diretamente na perspectiva do filme, que tem um olhar que sempre parte da nobreza. Atlantida e suas histórias nunca são vistas ou contadas de outro ponto de vista que não seja o de um rei, um príncipe, uma rainha… É um universo visualmente impressionante, mas tão elitizado que faz parecer que não há nada fora dos espaços mais burgueses. Um dos raros momentos em que vemos o povo atlante é quando este ocupa uma arena para ver… Um espetáculo protagonizado por duas figuras da nobreza. 

É sintomático, portanto, que, quando Aquaman finalmente assume o posto de rei, ele pergunte para seu interesse amoroso, Mera (Amber Heard), o que ele deveria fazer. Assim como o público, Arthur Curry nunca é devidamente apresentado ao que tornaria Atlantida um reino crível: seu povo. Não há ruas, não há comércios, não há pessoas. Há apenas torres faraônicas, naves modernosas e disputa por poder. Peguemos como comparação, por exemplo, “Pantera Negra”: o longa da Marvel faz questão de jogar sua câmera em uma feira de Wakanda para que os personagens ocupem os espaços civis, algo que inexiste em “Aquaman”. Falta tornar aquele mundo algo além de uma maquete digital bem feita, falta dar a ele uma forma de vida que vá além da nobreza ou dos figurantes sem falas.

Em uma história comum, essa visão excludente seria uma mera e justa escolha narrativa. Mas, no caso de Aquaman, o protagonista é, por proposta, um personagem que existe para unificar os povos e representar os sete mares. Quem são os habitantes dos sete mares e por que eles não têm sequer uma troca de diálogos? Como acreditar no engajamento de um herói que atua em um mundo que desconhece completamente? Quase todos os atos de Arthur e sua mãe Atlanna (Nicole Kidman) parecem não considerar a vida atlante. Arthur, por exemplo, mesmo diante de um sanguinário confronto, encontra tempo para fazer uma pausa e dar um beijo apaixonado em seu interesse amoroso… Qual é o apego que o herói vivido por Momoa tem por qualquer pessoa que não seja sua mãe ou seu pai? A resposta, infelizmente, é nenhum.

O diretor James Wan no set de "Aquaman"

O diretor James Wan no set de “Aquaman”

Se pusermos de lado essa análise de ideias e considerarmos apenas a estrutura narrativa, há mais problemas em “Aquaman”: o excesso de personagens e subtramas. Há três vilões na obra, sendo que dois deles já são suficientemente interessantes para conduzir os conflitos do filme. O terceiro até tem uma proposta interessante, mas nunca é desenvolvido pelo roteiro – na verdade, é transformado em ferramenta pelos outros dois antagonistas e acaba sendo mesmo só mais uma desculpa para haver mais cenas de ação. É claro que instrumentalizar figuras antagônicas é algo válido, mas “Aquaman” dedica uns bons dez ou quinze minutos à introdução desses personagens, que, no fim das contas, só servem para a pancadaria. Falta, além de um enxugamento no excesso de elementos, calma para desenvolver os que já existem. Personagens como Mera e Vulko (Willem Dafoe) parecem ser apenas atalhos para explicar tudo que Curry precisa saber. Suas motivações pessoais são tão rasas quanto uma piscina de plástico.

Calma é algo que parece inexistir no universo de “Aquaman”. Quase sempre há algum personagem em fuga. Seja de uma catástrofe natural, seja de um exército real, do próprio rei ou até mesmo de suas responsabilidades – no caso, uma fuga metafórica –, o fato é que, no filme, a todo momento, alguém está correndo de algo. Nessa correria, nunca há um intervalo que permita desenvolver melhor os personagens principais. O romance entre Arthur e Mera, por exemplo, surge quando a moça escorrega e cai nos braços do herói – há algo mais superficial e forçado do que isso? Por que não, por exemplo, trocar uma ou outra cena de ação por um diálogo que nos faça compreender melhor a relação entre os dois personagens? De onde veio Mera? O que ela quer? O que a fez trair seu companheiro de uma vida para ajudar um desconhecido? “Aquaman” é um filme de um herói que mergulha às profundezas do mar, mas que, em questão de desenvolvimento de personagens, prefere mesmo ficar na piscina de bolinhas. 

O pior é constatar que há espaço para esse tipo de desenvolvimento em “Aquaman”. Há um momento do filme, quando a trama já está chegando em seu clímax, que dois personagens se encontram isolados em um barco no oceano, sem ninguém por perto. Era o momento perfeito para um diálogo dar alguma camada para o herói ou justificar a rebeldia de sua parceira, mas a calmaria dura poucos segundos, já que a dupla rapidamente é atacada por um grupo de esquisitas criaturas. Vale ressaltar que, apesar de não aproveitar plenamente o momento, Wan ao menos consegue, nessa cena do barco, fazer o que fez de melhor ao longo de sua carreira: terror. Utilizando bem o som, a iluminação e os movimentos de câmera para construir um cenário ameaçador, pelos barulhos e sustos, o cineasta consegue criar apreensão. Esse bom momento, assim como quase todos da obra, acaba soterrado por uma narrativa que nunca para para respirar.

Divertido e muito menos sombrio do que seus antecessores do universo DC, “Aquaman” é uma aventura que acerta quando assume seu caráter cartunesco – a mitificação da figura heróica de Aquaman é um dos pontos altos do filme –, mas que se perde pelo inchaço de tramas e personagens. É interessante ver a lapidação de Arthur Curry para se tornar o rei de Atlantida; só é uma pena que não haja tempo de mostrar a transformação por que o indivíduo Arthur Curry passa, nem interesse em mostrar a quem seus atos impactam. Em um universo construído praticamente em sua totalidade por efeitos digitais, falta verdade em “Aquaman”. Falta que aquele personagem pense e aja por conta própria; falta que ele tenha objetivos concretos e demonstre um mínimo de preocupação com os povos que representa. Porque, no final das contas, acaba que o único desejo daquele personagem parece ser salvar seu pai e honrar o legado de sua mãe, mesmo que haja bilhões de outras vidas em jogo.

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