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Assunto de Família

Assunto de Família

Obra desafia empatia do público ao retratar personagens moralmente dúbios

Matheus Fiore - 12 de novembro de 2018

Ao se assistir a “Assunto de Família”, é fácil compreender como o novo filme de Hirokazu Kore-eda recebeu o prêmio máximo do Festival de Cannes, a Palma de Ouro. Há muita personalidade na obra. Muitas ideias interessantes e bem desenvolvidas. Mas há também um toque de classe que remete diretamente ao cinema de um dos cineastas mais cultuados da história, o também japonês Yasujiro Ozu. “Assunto de Família” acompanha a rotina de uma família de ladrões que vive de pequenos golpes em pequenos comércios do Japão, e Kore-eda opta por filmar essa família com um estilo semelhante ao de Ozu.

Há planos estáticos com a câmera rente ao chão, imagens rotineiras que pouco desenvolvem a trama mas muito nos dizem sobre personagens, e até mesmo ideias que fazem referência direta à obras do Ozu (coloquei um verbo haver para transformar a frase num período. Da forma como estava, sem verbo, aprecia mal estruturada). O ponto de partida de “Assunto de Família” é a chegada de uma nova criança à família: a pequenina Yuri (Miyu Sasaki), que se perdeu de sua família e é adotada pelos ladrões. Acontece algo semelhante em “Discurso de um Proprietário”, obra de Ozu de 1947, quando a vida de uma família arrasada pelas perdas da guerra é impactada pela chegada de uma criança que se perdeu.

Ambos os filmes falam sobre famílias, independente de suas organizações. Ambos trazem personagens quebrados. Porém, enquanto a obra de Ozu deixa claro o terreno já em seu ato introdutório – até pelo contexto da guerra, que explicita a situação de perda dos personagens –, o de Kore-eda mantém certo mistério acerca das origens das relações entre aqueles personagens. É como se a paternidade, por exemplo, fosse algo a ser conquistado: o pequeno Shota (Jyo Kairi), mesmo que seja criado como filho de Osamu (Lily Franky), diz não estar “pronto” para chamar o sujeito de pai, mesmo que consiga aceitar, em certo momento, chamar Yuri de irmã.

Kore-eda opta por nunca fazer julgamentos sobre as atitudes dos personagens que agem por fora da lei. O foco do cineasta é mesmo retratar o cotidiano e extrair as essências daquelas pessoas por meio de seus momentos mais rotineiros. É comum, por exemplo, que Kore-eda componha planos que enquadrem dois personagens em espaços apertados – a casa que abriga os seis personagens da família é minúscula –, e que coloque, na frente e atrás desses personagens, objetos do cenário, como louça suja e peças de roupas, de forma a construir certa harmonia visual graças à doçura presente nos relacionamentos que florescem em meio ao caos da vida simples e conturbada dos personagens.

Aos poucos, as peculiaridades da família se aprofundam e se complicam. O filme guarda algumas surpresas interessantes no que se refere às origens daquele estranho grupo de indivíduos. Mesmo assim, Kore-eda mantém seu olhar passivo e documental sob aqueles personagens, desafiando o espectador a praticar sua empatia e aceitá-los mesmo com suas virtudes, defeitos e hipocrisias. Afinal, mesmo que o lado sombrio dos personagens e seus efeitos na formação humana das crianças fiquem mais evidentes a cada nova cena, Kore-eda insiste em humanizá-los cada vez mais.

Essa ação se materializa não só pela forma de filmagem, que cola as lentes cada vez mais próximas ao rosto dos atores, mas também pelas situações nas quais o roteiro insere cada um daqueles personagens. Surpreende a sensibilidade de Kore-eda para criar momentos que expõem com precisão a essência do elenco – o que poderia ser mais simbólico para uma personagem que sente o fim chegar do que ela ir à praia e colocar areia sobre suas pernas, como se se enterrasse?

“Assunto de Família” é, assim como “Discurso de um Proprietário”, uma história sobre pessoas quebradas, cheias de cicatrizes. Algumas dessas cicatrizes são expostas pelos diálogos, como o personagem traumatizado pelo abandono que tem receio em chamar alguém de pai; outros, pelas marcas reais, como as meninas que se identificam por suas marcas; ou até mesmo pela presença de um band-aid que ratifica o constante estado de cicatrização de um dos membros da família.

O vencedor da Palma de Ouro é um filme que utiliza uma construção visual extremamente simples como roupagem para falar de personagens extremamente complexos, e um estudo sobre traumas que questiona os conceitos de família e despreza qualquer tentativa moralista de julgar aqueles sujeitos. Assim como a câmera de Ozu, a de Kore-eda mantém-se passiva e nos incita a ter uma visão mais empática e enxergar a essência humana por trás das atitudes dos personagens.


Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Plano Aberto do Festival do Rio de 2018. Para conferir toda a nossa cobertura, clique aqui.

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